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Wilco – Schmilco

Review
Wilco Schmilco | 2016
Marcelo Silva 15 de Dezembro, 2016
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Schmilco poderia muito bem ser a banda sonora de uma viagem que nos leva ao passado e à infância. O álbum está repleto de passado.

A banda que lançou este ano Schmilco, o décimo álbum de estúdio, teve a sua origem no ano de 1994 na cidade estado-unidense de Chicago. Os membros restantes da constituição original da banda são Jeff Tweedy e Jonh Stirratt. Sendo que Tweedy é o compositor, guitarrista e líder dos Wilco.

Depois de quatro anos sem disco algum aparecer nas prateleiras de novidades de lojas que se dedicam à venda de discos, o público foi presenteado com Star Wars. Um ano mais tarde é lançado Schmilco. Estes dois últimos álbuns foram gravados ao mesmo tempo e representam as duas fases de uma mesma moeda, a mente de Jeff Tweedy. Se no disco anterior as letras tinham só a função de não interromper as envolventes melodias que se desenhavam com minúcia através de muitas camadas. Já no disco mais recente as letras e melodias trocam de papéis. Sendo as letras pessoais e quase confessionais, e as melodias estão apenas para enquadrar sem desviar a atenção do principal.

Em cada música é explorado algum acontecimento, ou algum sentimento que se refere ao seu passado, a momentos pertencentes à infância, adolescência e até o começo da vida adulta. Não é, no entanto, um regresso pacífico e sem ondas ao passado. Há bastante arrependimento e coisas que ficaram por resolver. A ideia que passa, no entanto é que este álbum tem como função exorcizar esse passado com relances de felicidade, mas que na sua maioria é triste. Serve mais para fechar essa gaveta do passado do que para a abrir e voltar a remexer nas memórias. É a tentativa de Jeff Tweedy de arrumar parte da casa.

O passado a que Tweedy nos leva com este álbum, não é um passado feliz nem pacífico. É, no fundo, a um passado de mais uma pessoa, em que ficaram relações por fechar, arestas por limar, coisas por dizer e alguma culpa por isso, como expressa em “Somebody’s gonna get you / and if I hold you to tight, someone else won’t get to” na música “Someone to Lose”. Também é um passado de ternura sumária, o que se percebe em “Quarters”. Sentimentos contrários estão escritos nas letras e são realçados com a diferença de tom entre a maior parte das melodias e a maior parte das letras.

A aparente serenidade das melodias que embrulham estas letras é incongruente com o que as próprias letras transmitem. Sendo um álbum que ouvido levianamente é muito agradável e uma excelente companhia para uma viagem de comboio ou para ser a música de fundo de um bar, é, no entanto, incomodativo se ouvido com atenção, podendo causar insónias e um desconforto entre o ouvinte e o passado do ouvinte. O que é um sinal de que a obra é, possivelmente, assinalável.

Um sofrimento verdadeiramente pungente é descrito em “If I Ever Was a Child”, não só na letra, mas também na forma como é cantada. Mais uma vez a melodia dá um ar leve à música, mas o sofrimento está descrito nos versos “Can my heart change over night / So I won’t ever want to touch your heart too much / or hold you too tight”.

A auto depreciação é presença constante ao longo do álbum, talvez porque a culpa de falhar seja o estado de espírito que sente ao regressar à fase da sua vida a que dizem respeito a estas letras. Em “Happyness”, Jeff Tweedy diz “So sad it’s nothing, happiness depends on who you blame”, tal como acabaria o disco com “Why am I in my skin again?”, escrito em “Just Say Goodbye”.

É particularmente fascinante a capacidade que o álbum tem de incomodar apesar de aparentemente ser pacífico. Mas a verdade é que nos leva para uma viagem muito parecida com a que Jeff Tweedy teve quando escreveu as músicas para Schmilco. Leva-nos de volta para a infância, e para a adolescência, para amores mal resolvidos e para a primeira emancipação, leva-nos para a insegurança dos primeiros anos de vida adulta. Esta tendência de álbum intimista e cujo o ênfase seja as letras é sem dúvida uma boa opção.

Concluindo, a viagem a que este álbum poderia muito bem fornecer a banda sonora promete ser atribulada e cheia de dúvidas. E acaba com a única coisa possível de fazer ao passado, “we tried so hard / Just say goodbye”.
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