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William Basinski – A Shadow In Time

William Basinski

A Shadow In Time | 2017

PONTUAÇÃO:

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Depois de um ano 2016 repleto de tributos a uma das maiores figuras de culto internacionais, eis que chega, à entrada do novo ano, aquele que é provavelmente o tributo orfeico mais sublime e igualmente fúnebre até à data. Sem que sejam empregues samples ou qualquer outra fonte sonora vinda de Bowie, algo invoca a sua presença a cada momento que passa. E não será essa a máxima conquista de uma composição (seja qual for o género) quando esta se trata de uma homenagem?

William Basinski é um artista que compõe o som base das suas memórias com tape loops envelhecidos, regados em reverb e em constante auto desconstrução, retirando-os de qualquer conjuntura temporal. Descobriu o seu signature method ao tentar converter cassetes antigas para formato digital, mas que, dado o seu estado decrépito, se iam desintegrando ao serem gravadas. Assim nasceu o seu trabalho mais glorificado, The Desintegration Loops (2002 – 2003), sentimentalmente ligado aos acontecimentos do 11 de Setembro, tanto pela música como pela arte visual que acompanha cada parte – I, II, III, e IV. É com o mesmo sentimentalismo que 13 anos depois Basinski nos dá a conhecer A Shadow In Time.

O primeiro tema de A Shadow In Time, com o mesmo nome, teve a sua estreia ao vivo coincidentemente a pouco menos de uma semana da morte de Bowie, e nas semanas que se seguiram “For David Robert Jones” – que tem de base um loop que poderia fazer parte de um eventual The Desintegration Loops V – surgiu como a sua metade inseparável. Etéreo e fúnebre assim começa a o segundo tema, num loop ruinoso e vasto composto do que parecem ser sintetizadores a encenar coros – coros que cantam os momentos finais de uma vida, enquanto o que dela resta ascende a um hipotético lugar divino. À passagem dos 6 minutos eis que entra, deslizando confortavelmente sobre o manto celestial de sintetizadores, um saxofone a pingar reverb por todo o lado, que o próprio Basinski diz parecer-se com “Subterraneans” b-side de Low, e que por isso se tornou a sua elegia a Bowie. A peça não se desintegra na totalidade, mas evapora-se, vai-se sentindo uma distância cada vez maior, todo é cada vez menos palpável, até que por fim já não resta qualquer som. O simbolismo deste final é qualquer coisa de desolador.

Se o segundo tema é música no seu estado mais defunto, o primeiro é como que um interlúdio estritamente necessário as sensações por ele provocadas. Começa como a maioria das composições de Basinski, instrumentos – neste caso de cordas – com pitch alto, e sem aparente forma vão colidindo sonicamente, repelindo-se e atraindo-se, enquanto quase impercetivelmente novos sons, novos silêncios, novas batalhas sónicas vão ocupando o seu lugar num caos organizado de uma beleza incrível, tudo é luz. O som vai se densificando, a tensão aumenta tenuemente, nem tudo é tão claro como à uns momentos atrás, a beleza vai dando lugar à incerteza. Enquanto esta troca amarga se vai dando, o som vai-se descomprimindo, aos poucos tudo vai desaparecendo. À passagem do minuto 17, quando parece que estamos prestes a ouvir o último suspiro do tema, ouve-se um piano ao fundo e tudo muda. Se ainda era percetível alguma réstia luz, agora tudo é negro. É desolador o cenário, de repente encontramo-nos num sítio onde tudo é tarde demais, já não há volta a dar, o tempo foi petrificado pelo desgosto, e nada do que possa ser feito vai fazer diferença, não existe futuro porque o tempo acabou, apenas resta este piano melancólico e abatido, preenchido com a desolação de quem ficou e viu Bowie partir.

O trabalho de Basinski, como toda música ambiente, fornece um infindável número de interpretações não solucionadas pela sua subjetividade intrínseca, podendo ele ser um oportunista e estar a aproveitar-se da memória de Bowie para seu favor. Mas eu acredito que William é um poeta, e que com A Shadow In Time – com duas das mais belas e sentimentais composições dos últimos anos – conseguiu manifestar sem uma única palavra, aquilo que muito outros tentaram com livros completos.

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Por Rafael Baptista / 31 Janeiro, 2017

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