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Amplifest 2022: Antevisão FDS2 – Entrevista com Scúru Fitchadú, Luís Fernandes e Indignu

03 de Outubro, 2022 ArtigosWav

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Amplifest 2022: Antevisão FDS1 – Parte 2 – Entrevista com Clothilde, Process of Guilt e O Gajo
Porquê termos apenas um fim-de-semana de Amplifest, quando podemos ter dois? Há questões cuja resposta se escusa, e esta é, por sinal, uma delas. Ao contrário do que se possa pensar, a segunda metade do Amplifest não está cá para, em bom português, “encher chouriços”. Muito pelo contrário, esta adição – inédita à experiência – vem apenas reforçar o evento a decorrer de 13 a 15 de outubro no Hard Club, no Porto, como um dos hotspots pivotais para a cena underground em solo nacional. E se tal não se evidencia claramente pelos nomes que constam no seu cartaz, que se evidencie então pelo convívio de uma comunidade que se une em prol daquilo que os apaixona, ou pelos documentários e palestras que acrescentam outra vertente igualmente importante a toda a experiência, ou, se ainda dúvidas restam, pelo autêntico melting pot de públicos intercontinentais em que o Amplifest, devido a toda qualidade que consegue reunir num espaço tão pequeno, se tem vindo a tornar.

O dobro dos dias pede pelo dobro dos nomes, e se no primeiro fim-de-semana se aguardam atuações de três proeminentes artistas portugueses, é apenas natural que o segundo proponha uma dose igualmente imprescindível dos melhores nomes que Portugal tem para oferecer. Foi nesse contexto que se decidiu combinar uma conversa com os mesmos – Luís Fernandes, Scúru Fitchádu e ainda Indignu, cujo novo álbum adeus terá a sua estreia – para se averiguarem expectativas quanto ao iminente Amplifest, a recuperação de um aperto pandémico que só agora deixa a música respirar, e os caminhos que estes três artistas percorreram até chegarem aos palcos desta oitava edição do festival. Confere a primeira parte desta conversa em baixo.

 

Olá a todos e antes de mais quero agradecer-vos por se terem disponibilizado a participarem nesta entrevista! E começo já por perguntar algo bem pertinente: a menos de um mês do Amplifest, como é que nós estamos todos a sentir?

Luís Fernandes: Estou-me a sentir bastante bem [risos]! Presumo que te estejas a referir ao Amplifest em particular. Não estou a pensar de uma forma tão emotiva num concerto a um mês de acontecer, até porque tenho outros antes na verdade, mas em todo o caso, não é a primeira vez que eu atuo no Amplifest e da última vez que o fiz foi uma experiência muito agradável. Gostei imenso do festival, portanto também estou contente por poder tocar daqui a um mês mais ou menos.

Marcus (Scúru Fitchádu): Boas pessoal! Bem, no meu caso, só conheço [o festival] de nome. Nunca lá fui, nem tocar nem à civil, mas tenho amigos que já são ocorrentes e vão lá todos os anos e já viram praticamente de tudo. Mas o que me disseram foi que me "calhou a rifa" porque é um daqueles festivais mais ecléticos! Vês bandas às vezes até bem obscuras que depois, daqui a dois anos, estão ainda na praça. Portanto, para mim, fazer parte deste cartaz é uma grande honra e obviamente que sinto umas borboletas no estômago por boas razões! Gosto da sensação, exatamente pelo peso que esse cartaz tem! Conheço alguns projetos, outros vou à descoberta, e é isso que é bom! Quando vamos a um festival e não conhecemos 70% das bandas é bom sinal! Mas lá está, já me tinham referido que aquilo é como um ritual. Não é um festival normal! E fico com bastante orgulho de fazer parte desse cartaz. Pronto, vamos a isso! É porrada para cima deles!

Afonso (Indignu): Bem, eu estou aqui em representação dos Indignu. Vou falar pessoalmente, mas para a banda é especial, porque o disco que sairá em novembro será pré-apresentado no Amplifest. É a primeira vez que vamos tocar o disco ao vivo, e por isso temos que nos preparar bem até ficar bem oleado. Estamos a preparar o alinhamento e todas essas coisas, e é um ciclo novo que vai começar para este coletivo, e vai ser logo no Amplifest. Sem dúvida que para nós, é especial! Eu, enquanto público, já fui ao Amplifest duas ou três vezes e é um festival de que gosto muito por causa desse ecletismo de que o Marcus tinha falado. Há sempre coisas a descobrir, coisas que gostava de ver se tiver oportunidade, espero eu! O especial da coisa é mesmo os Indignu poderem fazer a pré-apresentação do disco, que é um bocado diferente dos anteriores. Parte da banda mudou, e é um novo ciclo que começa no Amplifest, e sem dúvida que é especial por esse motivo!

 

Acordando finalmente da dormência de uma pandemia que não queria deixar a música tocar, é seguro dizer que a normalidade já está generalizada na indústria mainstream e underground. Apesar de toda a inércia e atrito dessa tão complicada altura, houve alguma coisa nestes últimos dois anos que vos tenha marcado profundamente? Que papel é que a música, como ferramenta de catarse, desenrolou nas vossas vidas?

Luís: Antes de mais deixa-me só recuperar algo da pergunta anterior. Não quero parecer pouco entusiasmado ou menos entusiasmado que os outros. Não é o caso [risos]! Eu sou um admirador do trabalho do Amplifest. Eu acho que, como o Marcus estava a dizer, e algo que ele vai perceber quando visitar, é que mais que um festival, é uma família que faz aquilo! Nota-se amor naquilo que eles fazem e talvez aí esteja o segredo do sucesso. Portanto, eu estou obviamente entusiasmado e a preparar-me com afinco para esse concerto. Em relação a estes tempos, não é preciso reforçar o quão difíceis foram, principalmente para quem só vive da música, que não é o meu caso. Eu tive a felicidade de ter outros trabalhos e no fundo, aquilo que faço como músico, apesar de o fazer como profissional, não ocupa toda a minha atividade profissional. Acabo por me poder dar ao luxo de não fazer música se não der ou se não quiser. O meu caso aí também é diferente de outras pessoas e, como tal, acabei por ser menos afetado a esse nível no sentido profissional e de ter trabalho durante a pandemia. Agora, o que me parece é que houve obviamente muita gente que sofreu com essa falta de trabalho, mas também acho que se geraram aqui oportunidades muito interessantes do ponto de vista da criação.

Montes de discos estão agora a sair, uma enxurrada de discos e concertos que nasceram daquele período de um ano – mais de um ano aliás – em que as pessoas estiveram em casa. Muitas delas conseguiram criar, porque às vezes no nosso dia-a-dia é muito complicado conseguir fazê-lo. É uma pergunta um bocado difícil de responder sem sair destas respostas algo genéricas, que são genéricas porque, de facto, foi aquilo que aconteceu. O que eu acho e sinto, não só como músico, mas como programador, é que este regresso à normalidade de que falaste só agora mesmo é que se está a verificar, na realidade. Até maio/junho, ainda sentia muita retração por parte dos públicos a vários níveis, ainda haviam muitas restrições. E agora sim, diria que se sente mesmo uma fome de festivais, espetáculos, de ir ver coisas... O Amplifest, por exemplo, está esgotado ou praticamente esgotado a um mês de distância, e muitos outros festivais estão a cumprir este caminho. Portanto, eu espero que nós os três aqui e os outros artistas estejamos à altura desta procura, deste entusiasmo das pessoas que vão ao Amplifest, e que, tendo estilos tão diferentes, – como é o caso dos três artistas que estamos aqui –, que consigamos também cumprir diferentes perspetivas sobre o que é fazer música hoje em dia. Hoje cada vez mais somos plurais e múltiplos no que fazemos, por isso acho que é saudável.

 

 

Marcus: Eu assino por baixo de tudo o que o Luís disse. No meu caso, em tempo de pandemia estava duplamente fodido [risos], isto porque para além de viver da música, os outros trabalhos que faço também são com música. Houve períodos mais complicados, não extremos, mas em que tivemos de pensar duas vezes. Eu ainda não tenho uma forma de me conseguir abstrair de tudo e criar. Tenho que estar num certo estado psicológico para poder fluir e fazer alguma coisa que seja palpável. Só que eu estava numa bolha um bocado negativa com isto. Eu faço música para a poder tocar ao vivo, e estas coisas todas de fazer concertos digitais, a mim, custavam-me um bocado, porque eu vivo muito desta interação com o público, uma coisa muito física... e isto estava-me a custar. "Então e agora a nova realidade vai ser esta?". E nós no fundo temos sempre a esperança de que as coisas poderiam melhorar gradualmente, íamos voltar a uma normalidade que tínhamos antes da pandemia. Obviamente criei coisas muito residuais na minha cabeça. Tudo bem que isto da pandemia também criou aqui várias ferramentas, que eram maltas a fazerem ensaios com uma malta no Japão e outra na Etiópia... Se tivessem uma boa conexão wi-fi ainda conseguiam fazer as coisas.

Mas depois falta ali aquele sumo, que é estar com as pessoas e ler a expressão das pessoas que estão à tua frente... porque tu precisas delas, não é? Isto não é só fazer música, meter na net e andar. Até porque acredito que tanto para mim como para os colegas que aqui estão, com a música no espectro mais alternativo não conseguimos estar relevantes para as grandes massas... graças a deus! Mas lá está, isto foi uma realidade nova, foi uma coisa que abriu muitas portas, deu muito sumo, muito contexto para que nós pudéssemos criar, seja na composição, seja na escrita, seja em absorver os sintomas do nosso meio ambiente, para que conseguíssemos também ter conteúdo para poder criar. Claro que agora, com todos os discos que foram entrando, está tudo afunilado, estão a sair dez discos por hora. Agora queres lançar uma cena em vinil, tens que esperar um ano [risos]. Eu sou adepto da cena física, nunca me dei muito com a cena digital. Nós, que somos umas crianças nisto, tivemos que crescer muito rápido, eu faço esse paralelismo.

Praticamente comecei a fazer música anteontem e tive que ultrapassar a adolescência para passar a adulto, e começar a pensar nisto numa forma mais esquematizada sem ter muita margem de erro. Ou se calhar só eu é que estou aqui a imaginar coisas... Mas lá está, isto da pandemia criou um buraco negro na cena de não tocar ao vivo. Porque eu basicamente só gravo música para poder tocar ao vivo, e a minha missão é essa: tocar ao vivo, estar com pessoas, estar nas perguntas e respostas, estarmos ali em sintonia. Na pandemia deu para decidir e limar algumas coisas e também tive mais calma em observar aquilo que outros colegas iam fazendo, cada um no seu espectro, mas foi bom ver que os festivais vieram com força. Eu acompanho mais os festivais da cena alternativa e vieram com muita força, porque os festivais alternativos estão habituados a trabalhar com estruturas pequenas, portanto isto para eles é peanuts. Agora os tubarões é que tem contas a prestar, e esses privados é que tem que se orientar para algum lado. Nós trabalhamos com as estruturas que temos e, entretanto, o Amplifest, depois de ter acontecido uma pandemia, vem com esta enxurrada, com o melhor cartaz do ano. Vamos a isso!

Afonso: Falamos abertamente do que pensamos e eu concordo com o que o Marcus estava a dizer. Em relação à pandemia, individualmente, como nos últimos anos comecei-me a dedicar exclusivamente à música, tive que me desdobrar para várias coisas para conseguir aguentar o barco. Quando surgiu a pandemia eu tinha uma série de coisas marcadas, o meu projeto a solo inclusive, e de repente foi tudo abaixo, e eu precisava daquilo... precisava mesmo daquilo. Fiquei um bocado em choque, porque também dependo de tocar ao vivo. Era como o Marcus estava a dizer, um gajo faz discos para poder tocar ao vivo, que é onde a gente vai buscar o ganha-pão como músico. Mas depois houve também um lado fixe, que foi... eu acabei por fazer um trabalho que, se não fosse pela pandemia, não existiria. E paralelamente com Indignu, eu acho que foi bom. Para toda a gente que vive de tocar ao vivo foi muito mau, sem dúvida, mas por exemplo, para a banda, foi uma altura de mudanças, de experiências, de testar muitas coisas, e a pandemia acabou por servir para compor o disco.

O último disco é de 2018 e nós queríamos mesmo fazer algo de raiz, algo diferente, ou pelo menos algo à nossa medida diferente. A pandemia acabou por nos permitir focar mais nisso. Indignu é uma coisa de coração. O projeto começou há 18 anos, mas só nos últimos 4 ou 5 é que começamos a levar com uma seriedade de isto ser mesmo um projeto de coração. "Vamos para cima do palco mas vamos fazer uma coisa às direitas!". Sempre quisemos isso mas acho que nos levamos mais a sério nos últimos tempos... e agora ainda mais. Foi bom ter este tempo para preparar tudo. Não me lembro de prepararmos uma coisa com todos os aspetos pensados da forma como pensamos para este. Houve aqui uma situação que falaram há pouco que foi a situação dos vinis. Nós estávamos aterrorizados porque isto deveria ser uma edição nossa e não íamos ter os vinis prontos nem no final do ano! Está tudo entupido, tudo atrasado. E tivemos a sorte e a felicidade de, pela primeira vez, termos uma editora que acaba por ter mais rapidez. Vamos conseguir ter os discos prontos.

Foi uma espécie de bênção. Mas pronto, não sendo egoísta, acho que a pandemia foi boa para nós. Não queríamos tocar ao vivo nessa altura, a nossa intenção era fazer um disco. Não sei como, acabamos por conseguir juntar todos. Pessoalmente não consigo ensaiar com ninguém à distância. Para mim não funciona, mas também depende do tipo de música que fazes. Eu só consigo criar com outras pessoas se estiver com elas olhos nos olhos. Uma coisa da pandemia que me frustrou muito foi essa cena dos concertos digitais. Aquilo teve um boom de repente. Eu participei num, fui convidado para aí para dez e aí senti que não era esta a cena. E tão depressa apareceu esse tipo de coisas, como de repente começou a desvanecer. E portanto, acho que esta "digitalidade" ameaçou-nos. E essa sensação, para quem precisa de tocar ao vivo, não foi fixe de facto, mas num contexto de composição, acabou por calhar bem, sem dúvida!

 

 

Luís, apesar do catálogo ainda muito recente, tu tens sido uma voz muito ativa e presente no meio eletrónico/experimental em Portugal. Fala-nos um pouco de quando e como te apaixonaste por este nicho, muitas vezes incompreendido, e o papel que a própria comunidade local desenrolou em função disso.

Luís: Na verdade, eu comecei a fazer música, como suponho que o Afonso e o Marcus começaram, por gosto. Nunca estudei de forma académica ou formal. Gostava de ouvir música e deram-me uma guitarra e quis fazer música com amigos. A partir daí, descobri o que eram pedais e esse tipo de coisas que para mim foram uma descoberta na altura. Apesar de andar sempre a saltar de nomes no meu trabalho a solo, na verdade o meu primeiro disco a solo foi em 2006, há muitos anos. Foi um dos primeiros discos da Lovers & Lollypops. Entretanto, na altura o projeto era o The Astroboy. Entretanto não gostei do nome e troquei para outro, e só em 2018 é que decidi usar o meu nome. Não posso ter vergonha do meu nome. É um nome genérico, há muitos Luís Fernandes, mas é o meu nome [risos], achei que desse nunca ia deixar de gostar. Mas isto para dizer que na verdade, a produção a solo já tem alguns anos, já estou nos 40 também. Isto para explicar que a minha relação com esta vertente musical – com a música experimental – veio de um prazer como melómano e como músico, de gostar de explorar este tipo de sonoridades e abordagens. Isto cruza-se com o ativismo que tu referiste, dessa capacidade de intervir um bocado no território onde vivo.

Veio da minha vontade de querer fazer coisas. Eu sempre tive essa personalidade um bocadinho de "delegado de turma", sabes aquele gajo que quer sempre fazer coisas? Eu era um bocado assim. E então comecei a querer organizar concertos e festivais. Não sabia bem o que estava a fazer, mas ia fazendo, e no fundo, aos poucos, as coisas foram-se tornando sérias, quer do ponto de vista da minha prática musical, nas bandas em que eu tocava, com quem eu colaborava, e também na minha atividade como programador, que depois se tornou na minha atividade principal enquanto profissional. Mantive sempre a minha entidade de músico e mantenho uma atividade regular de concertos, quer em diferentes formações, em duo com a Joana Gama, a solo, com diferentes músicos que me convidam para tocar com eles, com a banda principal que tinha antes, os Peixe:Avião que estão em hiato já há alguns anos, mas pronto... isto para dizer que, na verdade, tudo se resume a esta questão do gosto. Eu fui fazendo porque gostava, e como tendo a encarar de forma séria aquilo que faço, as coisas foram-se tornando cada vez mais sérias. Tento ser uma pessoa que aprende com os erros e com o que faz mal, sou autocrítico. Acho que quem é muito deslumbrado consigo próprio tende a não ir muito longe. Tentei sempre perceber o que é que podia fazer melhor, como é que podia aprender com outras referências, e acima de tudo, a experimentar coisas novas. Isso é que me motiva para fazer música e para estar aqui hoje como convidado do Amplifest, tal como o Marcus e o Afonso.

 

Apesar de aqui considerados como artistas nacionais, Scúru Fitchádu tocam e falam muito na perspetiva da experiência da diáspora cabo-verdiana e angolana em Portugal. Como músicos muito prolíficos no nosso panorama local, e tendo já viajado bastante pelo estrangeiro, o grupo vê-se muitas vezes a tocar para públicos predominantemente brancos e desconectados da cultura de que Scúru provém. Sendo que este é um coletivo primariamente subversivo e de confronto, que importância dás a essa “gap” de contextos culturais? Abraças essas diferenças de coração aberto?

Marcus: Claro! Não podia ser doutra forma, aliás. Quando criei este projeto, tinha mesmo que trazer uma realidade muito própria da minha geração, de pais africanos e que conta a sua experiência já nascido "pretuguês", não é? Portanto não posso estar aqui a entrar numa cena crioulo/cabo-verdiana porque também não estou a ser verdadeiro. Não faz sentido trazer este ar demasiado "alto", porque a minha realidade é esta, a realidade portuguesa e mais um tempero que tenho ali obviamente de família. Scúru Fitchádu, ainda que eu me apresente sempre como coletivo, é um projeto meu. A sintonia que eu encontro aqui é mesmo essa – as pessoas que tocam comigo também tem que estar em sintonia com essa realidade: filhos de pais africanos, nascidos cá, e que absorveram outros estímulos. Cada um de nós traz algo quando tocamos ao vivo baseado nessas vivências. Eu não poderia sair com outra sonoridade que não esta, não faria sentido. No início, a malta até poderia achar que "este gajo está aqui a aproveitar a boleia", mas a verdade é que no meu caso é mesmo isto! Eu ouvia música pesada e ouvia cenas em crioulo em casa. A malta com quem andava era tudo analógica, ninguém fazia eletrónica.

Era malta de punk, metal, rock. Todos tocavam guitarra ou bateria e eu era o único que não, até que veio a onda eletrónica que, para mim, veio simplificar as coisas para que eu conseguisse fazer e transmitir a minha arte. A minha composição é muito lo-fi, mas é uma identidade muito própria. Não é uma sonoridade muito fácil para alguém que não esteja habituado a sair um bocado fora da caixa. Toco mais em festivais alternativos, em que a malta vai com mais pré-disposição para descobrir coisas novas, como é o caso do Amplifest. Não há festival com melhor cara do que o Amplifest, apesar de nunca lá ter ido! Praticamente olhei para o cartaz e disse "é aqui que eu pertenço". Nada é estanque, obviamente. Tento encontrar aqui formas de comunicar e de compor. Não é dizer, "isto agora é estilo Fitchádu e daqui não saio", não. Eu estou sempre em aprendizagem. De certeza que, quando estiver lá a ver os Buñuel, vou estar a tirar notas. Mas é isto, é ir à descoberta... e um bocado também de afronta, como tu disseste. Um bocado de subversão. Uma atitude combativa, tanto nas ideias que tenho dentro de mim, como uma atitude combativa de pegar nas coisas e fazer à minha maneira. Não é a bem, não é a mal, mas é à minha maneira.

É por aí que penso que vou construindo aqui qualquer coisa, porque apesar de tudo há uma intenção. Estou longe de ser um músico daqueles que pegam num instrumento e fazem uma canção, estou longe daí. Acho que se aprender a fazer isso vou perder aqui qualquer coisa [risos]. Quero manter um pouco desta ingenuidade e este “não ter medo” em falhar e de fazer as coisas tortas, porque lá está, tudo isto é depois embrulhado e entrego no palco às pessoas. E é daí que acho que vem a atenção para o meu projeto, que é ser muito honesto em palco. É essa a intenção que tento passar sempre cá para fora. Claro que desde que comecei vou aprimorando alguma coisa, também não vou ficar ali na mesma estação. Uma pessoa vai adquirindo algum conhecimento a tirar notas, não há nenhum concerto a que vá sem tirar notas, seja do que for. Há sempre alguma coisa a reter ali. E é isso, estar sempre muito sincero e ciente do meu potencial e das minhas limitações. Gosto de não ter as ferramentas de que preciso porque se não sei tocar uma linha de baixo, gravo com a boca e depois emulo aqui e o Afonso vai pensar que eu toquei um grande Fender mas não toquei, foi com a boca, estás a ver [risos]? É essa DIY, essa atitude punk subversiva que eu continuo a querer trazer comigo e jogar com as ferramentas que tenho. Quando tu entregas o produto de uma forma muito honesta, as pessoas vão perceber isso e vão-te dar, ou não, crédito, mas há ali uma intenção e as pessoas reconhecem isso mesmo.

 

 

Já com mais de dez anos de atividade na nossa cena nacional, os Indignu já dispensam de quaisquer apresentações. Ainda para mais, agora que a pandemia está de saída, vocês recuperaram com um fôlego rejuvenescedor que tem sido assinalado com concertos de retorno e a chegada do primeiro disco em quatro anos, intitulado adeus. Diz-me o que é que mudou desde o Umbra até hoje e como é que a banda está a encarar a aproximação da vossa estreia no Amplifest.

Afonso: A meu ver, numa banda de rock, quando tu mudas a secção rítmica, nomeadamente a pessoa que toca bateria e a pessoa que toca baixo, esse banda vai ter de ser diferente porque mudaram as pessoas. Eu acho que isso é muito importante, sobretudo a bateria. Nós sempre trabalhamos com muitas pessoas durante esta fase da procura. Acabámos por trabalhar com mais do que um baterista, acabámos por ter várias pessoas a dar inputs criativos. Sem dúvida que, quando tive oportunidade de gravar o disco, foi a experiência mais fixe que tive em estúdio sinceramente [risos]. Gravámos o disco live, todos na mesma sala, no Arda no Porto e foi muito fixe porque num dia gravamos o disco, desde manhã até ao fim do dia. Nós nunca o tínhamos feito dessa forma, parecido sim mas não dessa forma. E foi muito bom sentir que eu, por exemplo, que toco com o Ivo, que é o baterista dos Indignu há sensivelmente um ano, ao fim de dois ensaios, já conseguia perceber o que é que ele ia fazer e ele a mim. E isso traz-me aqui algo que não era muito expectável e que depois também passou muito para o que a gente fez.

Enquanto guitarrista, por exemplo, desde que tenho o whammy que muita coisa passou a ser diferente na forma como toco. Nem é o material, é a pessoa que é a coisa mais importante. Quando aquele contributo humano muda, nota-se logo a diferença e acho que se vai notar quando o disco chegar às pessoas e mesmo ao vivo. Como é uma fase de metamorfose, acabará sempre por ser diferente. Agora estamos um bocado com esta fome do caraças de tocar! E é isso que tem de ser fixe, tu ires com vontade de fazer a coisa, e nós estamos com muita vontade de tocar. Indignu nunca foi uma banda que tocasse muito ao vivo, mas também sentimos falta. Eu adoro tocar ao vivo e penso que os restantes membros também estão com muita fome de tocar e de experimentar estas músicas – nós até fizemos uma música de 22 minutos – e acabámos por esculpir mais, há mais inputs das pessoas que fazem parte do coletivo na música, e isso tem todos os condimentos para poder enriquecer ou para contrapor. Mais comunitário, sabes?

Acho que dantes, dois de nós compunham mais e o resto da malta seguia um bocado. Vai acima, vai abaixo [risos] como muita gente diz que vai o post-rock. Nós não ficamos de todo ofendidos por nos catalogarem de post-rock ou post-fado ou post-o que for, mas sem dúvida que nós fomos beber outras influências neste disco e que se não fosse esses novos elementos na banda, não conseguiríamos. O tema - de 22 minutos - que quero dar destaque, foi feito entre todos. Só foi possível porque mudámos e porque, por um lado, aconteceu naturalmente, mas também mudámos porque realmente queríamos mudar. Quem ouvir o disco vai continuar a sentir que é Indignu, possivelmente, mas sem dúvida que tem coisas que nunca pensei ter: por exemplo, tem um tema que não tem guitarras – só tem sintetizadores – isso é uma coisa  que não era habitual acontecer em Indignu. Isso acontece neste disco, e eu gosto disso. Este projeto, esta banda tem 18 anos e eu acho que é uma seca estar sempre a fazer a mesma coisa [risos], e também acho que foi uma necessidade de mudar. É muito por aí que o disco se alinha, bem como a banda neste momento.

 

Já lá vão praticamente 3 anos desde a última edição do Amplifest, um festival que vive para proporcionar uma experiência aos presentes, e ao que parece, esta será a primeira vez para alguns de vós. Gostaria de saber qual foi a vossa reação ao convite, qual foi o vosso pensamento imediato e que outros artistas no vosso fim-de-semana farão de tudo para não perder.

Luís: Eu fiquei muito contente com o convite do André, e na verdade até foi uma espécie de catalisador, porque já tinha um convite que andava a adiar há algum tempo, para editar um disco pela editora Revolve, que é uma editora de Guimarães, e obviamente era um prazer porque gosto muito deles, e tinha em mente fazer o disco mas não tinha uma urgência para o fazer. Não havia nada que me impelisse a fazê-lo, e talvez ao contrário do Marcus e do Afonso, apesar de gostar muito de tocar ao vivo, não é algo que sinta assim tanta falta. Para mim só faz sentido tocar se as coisas se alinham, a minha música também é um bocadinho diferente, mais cerebral, então não procuro necessariamente tocar a solo ao vivo, toco só quando encontro uma automotivação para o fazer. O convite do André surgiu numa altura em que tinha de decidir se de facto se editava um disco ou não. Pensei em dizer que sim e que vou ter um novo disco, prender-me nisso até à altura, porque sabia que ia acontecer, e foi o que me levou a definir a data do disco e a procurar outros espetáculos que entretanto tive a felicidade agora de fazer.

Até ao final do ano são uns 6 ou 7 [concertos] em festivais de inverno, e foi algo que na verdade só se foi conjugando porque o André me desafiou a fazer isto no Amplifest. No meu caso particular houve essa situação engraçada. Obviamente, também é uma responsabilidade. É um festival que tem um público fiel, é um público conhecedor, que gosta de coisas muito distintas. Apesar do Amplifest ter muitos artistas na área eletrónica, mais ambiental menos agressiva, este disco foi feito até nesse pressuposto, tendo em conta a necessidade de mudar a abordagem consoante o contexto. É muito diferente tocar no Amplifest, como tocar no OUT.FEST ou no Mucho Flow. Apesar de estarem na mesma esfera de festivais, os públicos são um bocadinho diferentes, e é muito diferente tocar numa sala escura e negra à noite, do que no meio de uma sala de museu com muita luz e pessoas à volta.

Eletrónica tende a ser uma coisa muito pouco performativa, ao contrário de ambos, como o Marcus, que é extremamente performativo no que faz, é uma coisa de palco com sangue na guelra. A eletrónica é algo que as pessoas não conseguem associar visualmente a algo que esteja a acontecer, porque se virem alguém atrás do computador, não sabem se a pessoa está a enviar e-mails ou a fazer alguma coisa. Se virem um sintetizador cheio de cabos é, como se diz aqui na minha terra, um burro a olhar para um palácio [risos], portanto nunca se percebe muito bem o que está a acontecer. Há este problema da performance na eletrónica, também não tenho perfil para enganar o público e carregar play e fingir que estou lá a mexer em botões [risos]. Quando falo em automotivação, é precisamente encontrar um sistema que me dê prazer em tocar ao vivo, ter essa capacidade de ler a sala, de perceber se a sala precisa de alguma coisa mais agressiva, planante, mais calma, e é isso que eu tenho vindo a desenvolver: um sistema com os sintetizadores que eu tenho, que me permita no fundo moldar, a partir desse disco que eu vou lançar, construções novas.

 

 

Marcus (Scúru Fitchádu): É curioso exatamente o que o Luís disse, esta cena de "faz músicas, vais ter um concerto a seguir". Às vezes, muitas bandas criam-se assim, projetos que surgem nessa realidade. Respondendo, eu quando recebi o convite do Amplifest fiquei maravilhado. Já tinha ouvido maravilhas do festival, e estarem-me a chamar logo a seguir à pandemia, que está toda a gente com fome, há tanta banda para tocar, tanta banda com trabalho, e eu ser um felizardo de estar no programa... para mim foi surreal. Obviamente, também é um cartaz de peso que mete respeito [risos], não podes ir lá com batatinhas, não é? [risos]. Na verdade, é um dos cartazes mais ambiciosos onde eu estive metido. Gostava muito de apanhar uma das [atuações] que foram canceladas, os Petbrick. Era no primeiro fim-de-semana, o que me ia levar a ter que ir ao Porto na semana antes. Nesse fim-de-semana diria Dälek, tenho aqui uma cábula... obviamente as bandas portuguesas não vou mencionar porque posso ver o Luís e o Afonso daqui a um fim-de-semana num festival qualquer, portanto vou-me atirar mais aos lá de fora.

No fim-de-semana que eu toco, obviamente Buñuel, que eu descobri com o meu tatuador. Sou preguiçoso e a verdade é que já não procuro muita música nova [risos], já me deparo a samplar cenas e a descobrir coisas por acidente, vinis. Já tenho tanta coisa no meu arquivo mental que agora quero ouvir as coisas novas a meu tempo. Só para verem, só agora é que estou a redescobrir Joy Division [risos]. O meu tatuador é o responsável por me mostrar coisas novas, possívelmente estará no Amplifest, o João Pimenta do Galo Negro, e mostra-me sempre cenas de stoner, doom, cenas mais progressivas, que eu não pesquiso tanto, e ele mostrou-me Buñuel e fiquei maravilhado. Quero muito ver o The Bug também. Obviamente, já acompanhando a cena da eletrónica e a cena da bass mais agressiva, ele era um daqueles nomes tens que ver um dia na tua vida. Oranssi Pazuzu no outro fim-de-semana também já conheço e era algo que estaria inclinado para ver, mas lá está... a malta que toca comigo também, uma quer ver Lingua Ignota, o outro quer ver The Bug, queremos estar concentrados no que vamos fazer mas também queremos apanhar tudo, não é?

Vou também à descoberta de muita coisa que não conheço, o que é bom. Eu gosto mesmo de não conhecer e levar a chapada no focinho, isso é o que faz parte do dia e do crescimento, o que também traz algo que eu consigo levar para casa e pôr-me a pensar nas ideias, seja na atitude, na eletrónica do Luís, seja na banda com o Afonso. Há sempre alguma coisa por onde pegar, é um festival que dá para ir à civil sempre. Vou lá tocar, ainda melhor! [risos]. Temos que respirar a cena, e já percebi, pela malta daqui que vai todos os anos, que aquilo é mais do que um simples festival. Noto que algo muda neles. Não é só as bandas que passam a conhecer, é uma nova atitude, é uma nova abordagem, é uma nova mente que se desperta. Aquilo mexe com as partículas, e mais uma vez estou orgulhoso de fazer parte deste cartaz. Cartaz do ano! [risos].

Afonso (Indignu): É um bocado cliché, mas tenho que referir, porque foi o que senti há uns anos que vi no Amplifest. Creio que estava a ver Godspeed You! Black Emperor e a pensar "quem me dera estar ali um dia" [risos]. Isso é muito bom, passados os anos... era como um sonho para mim. Mais fixe do que isso, é sentires que tens pessoas contigo na banda que o sonho delas também é tocar no Amplifest. Trabalhamos com o André, e estamos mais próximos dele, e ele é tão acutilante com as coisas que faz… não faz as coisas por acaso, se temos o Scúru Fitchádu, se temos o Luís Fernandes, se temos os Godspeed, ou Fennesz. É mesmo isso, é um festival que tu gostas sempre, podendo ir, queres ir, e é muito especial para tu tocares. Foi isso que eu e a banda sentimos e ficamos muito contentes.

 

Transitando dos teus dois primeiros discos, que levitavam perfeitamente sem a presença de ritmo e percussão, para a tua mais recente colaboração com Joana Gama, bem como trabalhado juntamente com o conjunto Drumming GP, fala-nos um pouco sobre como encaras a tua approach musical num contexto de colaboração vs. trabalho individual.

Luís: Na verdade, eu e a Joana começámos a fazer um disco em 2014, em duo, e depois fomos sempre fazendo discos com outros músicos, sempre a partir de um desafio, e só este ano é que estamos como formato duo mesmo. Como disse anteriormente, fui agarrando sempre as oportunidades para trabalhar com outros músicos, porque acho que é uma forma importante de aprendermos, percebermos como é que as outras pessoas olham para este processo de compor. Como disse, também não tenho formação académica em composição, mas a ideia de composição é algo que me agrada imenso, perceber o que é que pode estar na gênese de uma ideia de composição. Não podemos pensar na composição da mesma forma quando os elementos que tens à tua disposição, salvo seja, são diferentes. Os Drumming são um grupo de percussão, tocam um variado número de instrumentos, e são músicos inacreditáveis de nível mundial mesmo. Para nós foi uma honra ter essa colaboração.

A nossa ideia inocente inicial, que acabou por ser a ideia que singrou, foi tentar abordar os instrumentos de uma forma não convencional, por exemplo vibrafone ou uma marimba não têm que ser apenas tocado com baquetas, pode ser tocado com um arco para ser criar um som sem ataque definido e com mais cauda, quase como tocar um sino. Portanto, tentamos tirá-los um pouco da zona de conforto deles, o que é difícil porque eles são músicos habituados a tocar coisas muito, muito diferentes, e percussão contemporânea também é muito focada em tocar de uma forma não convencional de qualquer instrumento, seja um violino, seja uma marimba, mas a ideia foi de facto essa, tentar aproximar o universo deles do nosso e foi um apreço colaborativo que fizemos com eles, mas isto com o Drumming. Em cada contexto é diferente, e acho que, pegando nesta ideia de uma pessoa se reinventar, se uma pessoa tentar aplicar a mesma fórmula a tudo, além de ser uma chatice, acho que não vai resultar.

Eu tiro muito prazer desse desafio, tentar aprender como é que é compor para dançar, para cinema, para músicos com quem às vezes estou menos familiarizado, mas pode ser um desafio interessante, como aconteceu por exemplo o Rodrigo Leão, que me convidou a produzir um EP dele, e obviamente que eu não ia dizer que não, apesar de ser um artista que foge um pouco da minha linguagem musical, achei que foi espetacular trabalhar com uma pessoa com uma experiência inacreditável, e tentar contaminá-lo um pouco com as minha ideias. Mas obviamente que fazer uma coisa com o Rodrigo é diferente de fazer uma coisa com os Drumming ou com a Orquestra Metropolitana, ou com os Peixe:Avião – pronto, com quem seja. Cada caso é um caso. Tento ter esta inocência ou abertura para tentar perceber como hei de encaixar sem me impor, o que também é muito importante. É sempre mau quando desejamos impor algo que não é natural a quem está a colaborar connosco.

Acima de tudo, tento sempre aprender o que é isto de compor, como se pensa uma peça, e para fechar, voltando ao disco em particular, também deixei de olhar para as minhas composições como algo muito seccionado, como diferentes capítulos, diferentes temas. Na verdade, esse disco, bem como o último que fiz com a Joana, é um tema que dura 50 minutos ou uma hora, que se aproxima muito à música clássica, em dividir por andamentos a mesma peça. A partir do mesmo material musical, da mesma lógica, tentar dar-lhe significados diferentes, e depois resulta numa composição que até pode soar muito diferente entre ela. No início, olhava mais para as coisas de forma mais seccionada. Ultimamente tenho partido de uma abordagem diferente, que é partir de uma mesma ideia e essa mesma ideia ser uma sequência de quatro notas, uma melodia, e tentar, a partir daquilo, espremer ao máximo. Sobreposições, justaposições, inversões, reorquestrações, tentar fazer daquilo algo coerente, sempre com uma identidade própria, sempre ao longo da peça toda, e é isso que também vou tentar fazer ao vivo. A partir desses elementos que falei, tentar recontextualizá-los de acordo com o contexto de sala.

 

Já se perdeu a conta dos concertos no estrangeiro que Scúru já leva no seu cinturão. França, Cabo Verde, Países Baixos. Sentes-te alguma vez intimidado com o tamanho de um público?

Marcus: Não, foda-se [risos]. Sabes o que é que me intimida mais? Portugal. Eu sempre que vou lá fora, sinto que sou assim aquele bichinho exótico, sabem? "Eia aqueles gajos malucos que vêm ali de Lisboa, e não se percebe muito bem se Lisboa é África, se é no Equador, se é no Madagáscar", percebes? E não abordam nem olham para o quadro maior que é o que eu estou a levar para lá. Em Portugal já não é isso, já não sou aquele bicho raro. As pessoas já perceberam qual é a intenção, o que é que o projeto é, qual é o conceito, e já abordam mais que aquela cena dos BPMs a abrir e daquela porrada. Há algo mais do que isso. Lá já toquei em alguns sítios, não lhes perdi a conta porque não foram assim tantos, mas posso dizer que, desde o ínicio da carreira, que toco com alguma regularidade lá fora. Mas ainda sinto que estou a partir muita cabeça. Porque há pessoas que ainda não fazem ideia que isto é uma música que mistura várias influências. Obviamente que, com os fenómenos da cena bass que vinha da tuga, como Buraka, abriu-se aqui um hemisfério para a música portuguesa além dos Moonspell, dos Madredeus, de Dulce ou o Tigerman, que havia aqui coisas muito peculiares, que não soavam a nada, e as pessoas lá fora percebem, que aquilo é uma coisa que não é normal.

Não é uma cena homogénea, de rock, da cena clássica, ou de eletrónica. Aquilo tem temperos diferentes do que estamos habituados a ouvir por essa Europa fora. Ainda que esteja um bocadinho melhor, sinto que ainda vou lá fora e [as audiências] não sabem ao que vão. Vêm três gajos e uma rapariga, aos saltos e vão pensar que vai ser uma cena “technotronica”, e depois acabo por dar o concerto mais violento do festival inteiro, e a malta não fica nada à espera. Eu também gosto disso, gosto de dar essa surpresa, acabar por chocar um bocadinho. Para quem não conhece, é sempre bom, especialmente quando alguém te vem gratificar a dizer que não conhecia mas que gostou. Os melhores feedbacks que já tive foi de gente que não percebia nada de música de cabo verde, dos clássicos, e que através das roupagens que meto ali, ou dos samples. Quer dizer que estás a fazer uma coisa boa. A música não é só uma coisa muito egoísta, nós nos nossos buracos, nos nossos quartinhos, no estúdio criamos, e o mundo que se oriente.

Nós também temos uma responsabilidade, um peso e uma missão, além de dar cultura obviamente, cultura é vida, mas também dares a conhecer algo mais com a tua música. Adoro música dos anos 80, adoro uma rádio que passe música, porque aquilo leva-me aos tempos da minha adolescência. Não há música que não traga um aspeto, seja ele político, social, sentimental, cultural. É essa intenção, essa missão que eu acho que todos nós, como compositores, músicos ou artistas também temos, esse peso de dar a oportunidade a quem queira ouvir, e não só entrarmos na bolha egoísta. Nós também somos tutores. Falo por mim, a minha educação vem 80% da música e das cenas que eu ouvia, da banda desenhada que eu lia e dos livros, foi isso que me fez crescer, além da educação dos meus pais. Portanto eu vejo-me também, como o Luís e o Afonso, como um veículo para que a malta – os putos em Braga que também andam de skate e que vão ouvir o Luís, ou os putos que vão ao Amplifest – retire estímulos para que eles próprios façam e tomem os seus caminhos.

Sem cultura, a vida não faz sentido. Sem música... sei que é um cliché, mas é verdade. Cada dia que estou nisto, mais sinto isso, e sinto que há uma responsabilidade aqui, seja nas ideias, seja em tudo, na intenção. É uma missão por trás disto tudo. E o facto de eu ir lá para fora mostrar a minha música para alguém que não conhece, e de repente essa pessoa abrir aqui um leque de possibilidades em que pode se inspirar, se estudar, pode viajar. É com orgulho que represento a diáspora africana, Portugal, a representar-nos como seres humanos e como seres-esponja que somos. Eu vou lá, aprendo e trago. Qualquer artista que tenha oportunidade de tocar ao vivo, especialmente se for lá fora, consegue perceber isso, que é isto de dar e receber. Parece cliché, mas materializa-se mesmo, quando estás nos backstage com as bandas. Eu fiz três ou quatro festivais em que cruzei backstage com uma banda que hoje é cabeça de cartaz do Alive, estás a perceber? Há coisas assim, e tivemos ali a falar sobre a música e de repente dão um salto. É isto. É um intercâmbio, mais do que a música, é isto. É comunicação e não há linguagem mais universal que a música.

 

 

Os Indignu são certamente o exemplo perfeito de uma banda que soube maturar com o passar do tempo. Nota-se um crescimento sonoro brutal entre o vosso álbum de estreia e o vosso trabalho mais recente, e tal acaba por ser demonstrado com o facto do vosso próximo disco ser o primeiro a ser editado numa discográfica de renome internacional. Qual é o sentimento de olharem para as raízes da banda e compararem com a realidade presente de estarem a trabalhar com a dunk!records e até com a perspetiva de mais concertos no estrangeiro?

Afonso: Como sou o único que está na banda mesmo desde o início, acho que sinto muito isso. Quando olho para trás e vou ouvir as primeiras coisas que fazia [risos]... não sei. Mas é isso, faz parte. Acho que Indignu, sinceramente, tem crescido muitos degraus, muito pequeninos, muito devagar, mas tem crescido. E o que interessa é que continue a fazer sentido, reunirmo-nos para fazer discos, continuar com a mesma vontade. Talvez tenha ainda mais vontade que tinha quando começámos, quando era uma coisa que não sabíamos bem o que andávamos a fazer, mas tínhamos aquela pica toda. Continuo com a pica para subir para o palco, e é mais divertido. Também toco sozinho e é fixe, mas tem outra dimensão quando  tocas com mais pessoas, e é o que acontece com Indignu. Acho que nós aprendemos com os erros, e saber o que não fazer às vezes é mais importante. Só podes passar por uma cena fixe se sentires aquilo que estás a fazer. É óbvio que vamos sentindo isso, é uma banda que nunca teve uma distribuidora, e que neste momento, estando no quinto disco, tu procuras um disco da banda – foram cerca de 1500 discos – e estão todos esgotados! Como disse, foi sempre um projeto de coração.

Dei de mim, como dão os outros elementos que já estão há mais tempo, como é o caso da Graça, que também já está na banda há sensivelmente 11 anos, muito tempo. Basicamente, nós damos de nós e é aquela história de dar e receber. A gente gosta de dar e espera que haja repercussão do outro lado. Isso nos faz felizes. E acho que isso continua a fazer sentido. Metade dos feedbacks que nos dão são de fora, são dos States, da China, do Japão, da Europa, da Alemanha. O feedback do novo single foi 50/50 do resto do mundo com Portugal. E isso também mostra que, sendo um instrumental, é uma linguagem universal, não tens uma mensagem vocal, aquilo bate tanto com uma pessoa na África do Sul como no Canadá ou na Nova Zelândia vai bater da mesma forma. Acho que é um bocado essa universalidade, começarmos a perceber que nos sentimos bem a fazer isso, a comunicar dessa forma. Acho que esse crescimento advém de irmos percebendo o que gostamos de fazer, e sem deixar de o fazer perceber onde está a nossa cena, onde está o outro mar, o recetor.

Todos os acontecimentos que vão ocorrendo te dão um click para tu continuares a ver as coisas. Quando tínhamos o disco pronto no estúdio, e pensávamos em mandar isto para fora, e pensávamos "epa a nossa intenção é lançar o disco este ano", entrando também na equação o Amplifest, sabíamos que havia a possibilidade de fazer a estreia e não íamos ter os discos. Toda a gente nos diz "vocês são malucos. Meio ano? Um ano e tal?", e de repente aparece a oportunidade de fazer isso acontecer dentro dos timings, teres uma editora foi fixe. Também nos dá a noção que, se calhar, púnhamos as fichas todas em cima da mesa e decidimos ir gravar num estúdio que nos permitia fazer tudo aquilo que a gente queria fazer, escolher trabalhar com produtor, que foi o caso do Ruca Lacerda, que é uma pessoa que teve também muito input neste disco, e masterizar com o Birgir Jón Birgisson, que também é uma pessoa com quem queríamos trabalhar há muito. Pronto, acreditámos naquilo que estávamos a fazer e vamos fazer o que queremos onde queremos. Apesar disso ser um risco, se não correr riscos não vai mudar nada.

 

Partilhem-me os vossos planos para este próximo ano. Discos, concertos, futuros projetos. O que vos aguarda no futuro?

Luís: Eu primeiro, calha-me sempre a fava a mim [risos]. É aquilo que disse há pouco, de não fazer muitos planos, mas estou aqui a cingir-me de facto à parte a solo. Em 2021, aquilo que tenho em mente, eventualmente, é continuar a fazer concertos – não muitos – a solo. Tenho ainda alguns espetáculos marcados com a Joana, a propósito desse disco de que falei, que vai ser apresentado este fim-de-semana no Porto no Rivoli, e para além disso também a música que temos feito para dança e teatro, algumas peças vão estrear agora e vão prolongar-se para o ano 2023, e para além disso não tenho muito planeado, e já não é pouco na verdade. Podia ser pior [risos]. A minha experiência é que as coisas vão sempre aparecendo quando uma pessoa faz um trabalho sério, algumas com mais antecedência, outras mais em cima da hora.

Marcus: Este ano, logo de início, tive uma experiência nova, que foi musicar uma peça de teatro, que para mim é algo novo [risos]. Gostei muito da experiência. Foi desafiante e pretendo fazer mais se houver oportunidade. Depois disso, meteu-se mais estrada lá fora e cá em Portugal também, alguns festivais. O meu último disco saiu na pandemia, aliás, se não estou em erro foi o primeiro disco nacional de 2020, e depois tive um mês a tocar esse disco e fechámos. O que ficou ali foi um pouco amargo mas ainda assim na pandemia toquei algumas vezes, super condicionado, mas tivemos colegas que tinham discos na mão e que não tocaram. Lembro-me do Rodrigo Vaiapraia, Tristany,  não conseguiram tocar, portanto 2020/21 foram anos que praticamente não existiram. Tivemos ali em banho maria para realmente tocar. Este ano consegui tocar um bocadinho mais esse disco, mas obviamente que as coisas vão acumulando, as ideias, e as produções e as composições, e os textos. E acabas por acumular trabalho para o próximo. Estou neste momento a trabalhar no core mesmo de composição do próximo disco que é para janeiro. Já está bem encaminhado, falta só pôr ali as participações, gravar os músicos nacionais, mas o plano é esse.

Obviamente que até dezembro ainda tenho alguns concertos lá fora, e cá tenho dois, com o Amplifest. Eu tenho essa característica de não interromper de tocar na estrada para compor. Se calhar devia fazê-lo, mas lá está, eu alimento-me bastante da estrada e das conversas com as pessoas, de experimentar coisas ao vivo, loops que fiz horas antes levo ao vivo e processo aquilo para ver no que dá e dali pode nascer uma canção. Então não interrompo os concertos para compor. Estou em velocidade cruzeiro para lançar o disco em janeiro, digital primeiro, porque depois o vinil só deve estar pronto... [risos], ainda estamos a magicar uma fábrica que esteja mais próxima, portuguesa ou qualquer coisa. É por aí, trabalhar e continuar. Para o ano já começam a aparecer umas datas, inclusive uma tour na África Austral, e Portugal obviamente. Desta vez quero mesmo rodar o que eu fiz, acho que é a sobremesa. Não aproveitas bem se não tiveres a ver bem como soa exatamente as coisas que tu gravaste em tocado e cantado, e ver a reação das pessoas.

Afonso: Em relação a Indignu, nós temos o concerto no Amplifest e tencionamos fazer uns concertos de apresentação em Portugal do adeus, e depois em 2023 um projeto com uma filarmónica que possivelmente vamos fazer, que há pelo menos o target de levar o disco um bocadinho pela Europa. O objetivo é esse, há coisas que já estão em curso, outras que estamos à espera que se confirmem, e se se confirmarem, será em 2023, mais um ano que vamos meter o disco a rolar na estrada. Nós demos nos últimos quatro anos quatro concertos, portanto agora vai ser diferente. Há que conjugar a vida de todos, mas para o ano é para mostrar o adeus ao mundo na estrada. Quando digo mundo, digo Europa.

 

 

Pergunta da praxe para fechar. Por favor digam-nos o que é que têm ouvido ultimamente.

Luís: Pompeii de Cate le Bon, Activities de Anna Butters, Amaryllis de Mary Halvorson e Lake from the Louvers de James Rushford.

Marcus: Petbrick, Buñuel e os meus brodas Deafkids.

Afonso: Arooj Aftab, Metz e Hania Rani.

 
Obrigado!!
 
O FDS2 do Amplifest contará ainda com atuações de colossos como Sumac, Cave In, Anna Von Hausswolff e Godspeed You! Black Emperor, bem como uma dose assegurada de estreias e de nomes de culto, entre os quais Lingua Ignota, Bongripper, Envy, Buñuel e Tashi Dorji. O cartaz deixa ainda uma participação em aberto para o dia 14, que será revelada posteriormente durante o curso da experiência. Passes gerais para o FDS2 ainda se encontram disponíveis, bem como os bilhetes para o dia 14, e ambos podem ser adquiridos aqui. Restantes opções encontram-se totalmente esgotadas.
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Amplifest 2022: Antevisão FDS2 – Entrevista com Scúru Fitchadú, Luís Fernandes e Indignu
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