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Miles Davis - Bitches Brew (1970) | Máquina do Tempo #5

21 de Fevereiro, 2015 ArtigosRafael Trindade

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Miles Davis Bitches Brew

Quem me dera ser ou ter sido Miles Davis. Com toda a franqueza do mundo o digo e repito as vezes que forem necessárias. A sério, o gajo era o maior. Comecemos por dizer que muito provavelmente nunca ninguém foi tão apaixonado pela arte da música como Miles. Mais que uma conexão, era toda uma paixão pela música que motivava o senhor Miles Davis e estimulava a sua vontade de viver e gozar a vida. De compor, criar, atuar, improvisar, inovar, expressar. E finalmente, falemos do papel de Miles Davis no mítico género a que chamam:

Jazz.

Bebop? Estava lá ele. Smooth jazz? Olha ele, ali. Swing? Miles Davis estava lá. Cool-era? Estava lá. Modal? Estava lá. Avant-garde jazz? Miles era o maior. Jazz psicadélico? Miles era a personificação do apogeu da variedade. Jazz fusion? Mais uma vez, Miles estava lá, e a anos luz dos seus contemporâneos; a liderar toda uma tendência jazzistica. Discos como Kind Of Blue ergueram o nome de Miles Davis como um destinado ao estrelato e a uma opulência imortal. É este o disco de referência de qualquer pessoa que esteja a dar os primeiros passos no caminho que é o jazz. Álbuns como Round About Midnight e Milestones apenas enfatizaram o talento inexorável do guardião do jazz. Mas com o tempo, Davis revelou-se um músico aventureiro. Mais do que um mero trompetista, Miles era um arquiteto de som. In A Silent Way é um exemplo perfeito das lunáticas experimentações de Miles Davis nos campos da música ambiente e fusão que permanecerão como aquilo que cementou o nome de Davis na história do jazz. Outros grandes discos de Miles, com abrangência a estas experimentações, são o desvalorizado, morno Sketches Of Spain, o aclamado A Tribute to Jack Johnson, o explosivo On The Corner e o par psicadélico de obras-primas que é Pangea e Agharta.

Mas deixemo-nos de merdas. Foi em 1970, com o mítico Bitches Brew, que Miles Davis atingiu o apogeu da sua carreira. Numa época em que puristas do jazz defendiam o género como um que jamais deveria evoluir mas sim permanecer como uma arte intacta, Miles Davis acrescentou um enorme dedo do meio a uma mão metafórica. Por outras palavras, Davis mandou "lixar" (todo o tom grosseiro deve ser aplicado) as convenções do jazz: a bateria orientada pelo "swing", a sonoridade relativamente silenciosa, a estrutura planeada e inalterável da maioria dos temas de jazz da altura e a exclusão de instrumentos eléctricos. Em Bitches Brew, Miles Davis faz do inconveniente a sua rotina diária. A lista de músicos convidados é quase tão gigantesca como as sonoridades que Davis e companhia pintam através de improvisos entre músicos que de comum apenas têm o amor à primeira arte. Há vários teclados elétricos, guitarras de distorções psicadélicas, batidas de bateria infecciosas, impenetráveis e "funkalhadas", instrumentos de percussão minuciosamente acrescentados a um papel de parede dominado pela sua própria imensidão. Toda uma sonoridade abrasiva, repleta de dinâmicas e habitada por "jams" extensas e improvisos brilhantes e abundantes em tempo e em qualidade. É difícil acreditar que Bitches Brew nasceu de um processo de uns meros três dias, mas a determinação de Miles fez com que o maior milagre fosse, por fim, possível. Davis optou por ser inquietante, inacessível e sobretudo inovador em Bitches Brew.

Falámos de "imensidão"? Ainda nem mencionei que Bitches Brew é um disco duplo, que como um todo atinge quase duas horas de duração em 7 temas, dos quais dois temas ultrapassam os 20 minutos, sendo um deles a faixa de abertura "Pharaoh's Dance". É difícil descrever Bitches Brew repartindo-o por faixas, devido à extensão, à variadíssima instrumentação e aos inúmeros pormenores que Miles e companhia meticulosamente ajustam a todos os temas que este disco contém. "Pharaoh's Dance" é uma festa mítica de imperadores musicais: linhas de baixo divertidas e inconfundíveis, batidas criativas até dizer chega e acompanhadas de dinâmicas sensacionais (NOTA: são dois bateristas que tocam neste tema). Solos de vários instrumentos de sopro que vão do minuciosamente silencioso até ao insuportavelmente alto e teclados elétricos a cederem um tecido impenetrável a uma parede sonora intransponível e enigmática. Segue-se a faixa título. Transbordam ritmos dançáveis, faz-se sentir todo um groove contagioso que merece qualquer hipérbole que lhe possa ser despejada em cima. A performance de todos os instrumentos, seja a avaliação individual ou conjuntural, é inacreditável. A proficiência musical é omnipresente. E ainda assim, há detalhes dos instrumentos de sopro que conseguem ficar presos na cabeça do ouvinte durante dias.

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"Spanish Key" é o equivalente musical a permanecer deitado numa esplêndida praia mexicana onde o céu é magenta e as ondas são mais irrequietas que um cão em busca da sua própria cauda. Os detalhes de guitarra eléctrica são fascinantes. Há uma justaposição perfeita entre linhas de baixo prominentes e batidas percutivas excêntricas. É tudo isto é complementado por performances exuberantes de Miles Davis, Wayne Shorter e outros instrumentistas de sopro. "Spanish Key" é o derradeiro paraíso exótico.

Todas as faixas em Bitches Brew são detentoras de alguns dos maiores e mais frescos grooves que a história da música já testemunhou: o tema "John McLaughlin" é um exemplo mais que adequado. "Miles Runs The Voodoo Down" é exatamente o que o seu título sugere: Miles sola e lidera uma banda gigantesca através da instrumentação, ao ponto de ser quase impossível não imaginar Miles Davis a tocar o seu trompete no cimo de uma altíssima montanha e a liderar uma tribo indígena de músicos. Bitches Brew soa a muitas coisas: uma orgia de músicos proficientes e inacreditavelmente dotados, uma tempestade instável numa mera sala de gravações, um canvas que é um safari exótico e que de um momento para o outro vira uma simultaneidade de terramotos, tsunamis e tornados. Uma justaposição entre o Paraíso e o próprio Inferno que deixa o ouvinte a pairar entre a harmonia e o caos. "Sanctuary" é a demonstração perfeita de tais sensações: num momento tudo está silencioso, no outro tudo se virou do avesso e tudo está de pernas para o ar. E é "Feio" a peça que termina o disco monolítico que é Bitches Brew: uma peça ambiente-jazz-fusão-drone que resulta, ironicamente ao seu título, numa das coisas mais bonitas que eu já ouvi na minha vida: é um tema sujo que ilustra toda uma dualidade entre o conceito convencional de "beleza estética" e o próprio conceito de Miles Davis. Afinal de contas, esta é a casa de Miles e cá tudo joga pela regra de ouro dele: não há regras.

Para além de tudo aquilo que Bitches Brew é objetivamente, este disco significa mais para mim do que uma muralha impenetrável de música eternamente inovadora. Comecei a ouvir jazz quando entrei para o conservatório. Deparei-me com o facto de estar rodeado por muitos músicos que vêem toda a vasta arte que é a música como figuras rítmicas num papel. Que levam a música, mas especialmente o jazz, como uma coisa mecânica, que se decifra e transpõe para a realidade através de uma folha de papel e não através da essência do ser de cada um. Para quem sempre canalizou a música como uma experiência espiritual e emocional, como eu, deparar-me com estas percepções foi frustrante. Entrei em estado de desmotivação e eventual depressão. Não conseguia mais ouvir jazz devido aos aspetos convencionais e "quadrados" do género. Fartei-me. E foi aí que Bitches Brew entrou na minha vida. Entrou para ficar, permaneceu. Foi Miles Davis quem me mostrou que da música podemos fazer o que quisermos. "Não toques o que está no papel" - dizia Miles - "mas sim o que não está". Miles Davis elucidou-me ao me mostrar que todo este tempo eu estive certo. É necessário estudar em ordem de atingir todo um patamar de sabedoria colossal e de desenvolver / aperfeiçoar novas técnicas, mas Miles informou-me de que não se faz música sem espírito. Sem toda uma paixão ardente pelo que se está a fazer. Miles Davis não era um purista do jazz, mas sim o derradeiro mestre da arte do improviso. Era o espírito que guiava Miles Davis e é o espírito que nos deve guiar a todos nós. Devo tanto ao génio que era o trompetista. Miles Davis salvou o fã de jazz que havia em mim. Miles Davis salvou o meu sonho, e com isso, a minha vida. Sem Miles, eu teria desistido. Mas hoje eu já consigo ouvir jazz de novo. Hoje já sinto um entusiasmo enorme por ir ao conservatório. Hoje sinto-me motivado para estudar música, mas obviamente sem me esquecer da verdadeira essência do músico. Hoje sou feliz. Hoje produzo todas as abrangências de hipóteses possíveis para o meu sonho se concretizar. Hoje sou um músico confiante. E tudo isto e mais alguma coisa, eu devo a Miles Davis.

Obrigado, mago.
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