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Unflesh: O Dualismo de Gazelle Twin

27 de Abril, 2015 ArtigosSara Dias

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John Coltrane - A Love Supreme (1965) | Máquina do Tempo #9

Indouro Fest 2015: O que esperar – Parte 6/6

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Un-flesh. Privação de carne. // "Anti-Body". Rejeição do corpo.

Qualquer ser humano vive numa constante e inconsciente guerra contra o seu corpo, é o físico que nos definha, raramente é a mente. Assistimos impávidos e sem poder impedir a chegada da nossa morte: adoecemos, envelhecemos, apodrecemos ainda que massacrados na nossa lucidez. Vemos o nosso corpo em constante mutação, vemos ainda, por vezes, que não reflete o nosso espírito ou a nossa força mental. Vemos o físico como um "bestial burden", em palavras da Margaret Chardiet, aka Pharmakon.

A claustrofobia e a ansiedade são palpáveis no mais recente álbum, e também o vão ser amanhã, no concerto de Atillla e Gazelle Twin no Maus Hábitos (quinta-feira em Lisboa com Fujako). Não poderia ter sido escolhido melhor projeto nacional para abertura: Atillla não vem para aquecer os ânimos, mas sim para nos fazer mergulhar num mar de instrospecção.

Gazelle Twin já nos havia presenteado com The Entire City, um longa duração lançado em 2011, e ainda um EP, Mammal em 2013. Porém, o mais recente trabalho desta é uma rotura com os anteriores trabalhos.  Numa entrevista à Pop Matters, Elizabeth afirmou  que encarou este álbum como uma tela em branco, no seguimento de uma crise pessoal. Aqui acedemos a um lado de Elizabeth Bernholz que anteriormente nos era desconhecido, nomeadamente o seu lado mais tenebroso e sensível dentro da sua própria obscuridade.

Primeira batalha. Logo nos primeiros momentos de "Unflesh" tema que cede o seu título ao álbum, somos atropelados por um som contínuo e distorcido que implode num grito deformado. Este tema subjuga-nos a um ambiente perturbador, numa acreção de pânico: "It's coming at me". As vocais consumam esta perturbação, variando entre sussurros e gritos deturpados, ou jogando com tons graves e agudos. Este primeiro tema evidencia a importância adquirida pela  influência de sonoridades industriais que Gazelle Twin conjuga com texturas pop e dançáveis ao longo deste álbum, ponto que distancia ainda mais o mais recente longa duração de The Entire City. Depois da inicial privação de carne deparamo-nos com as vísceras, "Guts" (no sentido mais imediato e físico) e com a temeridade humana de ver sem deturpações: "Mind unfold / Eyes reveal / Heart be still". Usando palavras que transcendem qualquer tentativa de explicação da minha parte, e citando Nietzsche (que, curiosamente, se opunha a este dualismo corpo/mente defendido por Descartes):  "Necessária é também uma preferência da força por questões a que hoje ninguém se atreve; a coragem para o proibido; a predestinação para o labirinto. Uma experiência de sete solidões. Ouvidos novos para uma nova música. Olhos novos para o mais longínquo. Uma consciência nova para verdades que, até hoje, permaneceram mudas".

Terceira batalha. No tema "Exorcise" entranhamos no imaginário obscuro e denso sem saída ou fuga possível de Elizabeth enquanto assistimos a este exorcismo musical: "It's a kind of dream / No way to wake up from". A tensão vai-se lentamente construindo com a adição de novas texturas sonoras em diferentes pontos temporais deste tema. Gritos implosivos e graves irrompem no fim de certos versos, o ritmo aumenta progressivamente num completo emaranhado de sonoridades quase antagónicas, algumas dançáveis, outras bem barulhentas e distorcidas. Tudo isto culmina num grito agudo explosivo de agonia: "It's all in my mind"! Esta sinfonia abismal de sintetizadores transporta-nos para "Good Death", onde a bruma se adensa: "The mind plays cold tricks when you're lonely". Aqui existe novamente um contraste, desta vez entre o instrumental grave e "downtempo" e o falsete agudo e meio sussurrado de Bernholz ao longo tema.

Quinta Batalha. "Anti Body" é o primeiro single deste longa duração. Aqui, a luta adensa-se entre a dimensão física e a dimensão mental do ser humano. Neste tema existe uma batida que nos acompanha desde o inicio até ao fim e as restantes sonoridades coagulam à sua volta, sendo que  o refrão é ponto alto, mais dançável e também o mais claustrofóbico: "I can't let you in / It takes too much to get out". Já "Child" é um tema etéreo e calmo, mas com o cunho de Gazelle Twin, sendo que é igualmente assombroso. O instrumental neste tema é calmo e sem qualquer tipo de batida e surge como pano de fundo às vocais.

Sétima batalha."Premonition" é um tema, no mínimo tenebroso. Novamente deparamo-nos com um tema sem qualquer tipo de batida, sendo que as sonoridades são corrompidas e repetitivas até que nos deparamos com um som contínuo e grave que nos acompanha até ao fim do tema, quase como um nevoeiro de fundo às vocais em tons agudos. "A1 Receptor" é um interlúdio, um tema de transição onde Elizabeth murmura coisas impercetíveis e entrecortadas, acompanhada por uma batida de fundo.

Nona batalha. "Belly of the Beast" contém o excerto mais sonante e a epígrafe do próprio tema: "I'll beat them at their own game". Quer "Belly of the Beast" quer "Human Touch" são  temas "downtempo", onde se acumulam tons graves em contraste com tons agudos, sussurros, e com esta adição de sonoridades, encontramos uma progressão demorada no tema. É um tema surpreendentemente dançável, assim como é todo o álbum. É como dançar ao som de Joy Division, numa dança etérea, em câmara lenta, onde o compasso do movimento se rege com o crescendo da ansiedade. É uma anti-dança.

Décima primeira batalha. Em "I Feel Blood" e "Still Life", a tenebrosidade chega ao seu expoente máximo. A atmosfera é densa e abrasiva, como se nada fosse seguro. Nem o nosso próprio corpo, onde não há saída nem fuga possível. O temor apodera-se da mente, todas as possibilidades se fecham: é a claustrofobia no seu sentido mais puro. Neste dois temas continuamos com vocais deturpadas, com uma batida constante que nos acompanha de início ao fim e as sonoridades que coagulam à volta dessa mesma batida. Em "I Feel Blood" as vocais são mais agudas, etéreas e incisivas. Já em "Still Life" as vocais são graves, brutais e entrecortadas.

Não é por acaso que o The Quietus nomeou este como o álbum do ano de 2014. Pessoalmente, não concordo, uma vez que foram lançados álbuns como To Be Kind de Swans, Benji de Sun Kil Moon, The Unnatural World dos Have a Nice Life, When The Cellar Children See the Light of Day da Mirel Wagner, Ruins da Grouper, You're Dead do Flying Lotus, entre outros, nesse mesmo ano. Mas, acho que sem essa mesma distinção, este álbum teria passado ao lado de muita mais gente - e não merecia. É um excelente álbum, definitivamente no meu top 10 de 2014, e acima de tudo representa a maturidade artística de Elizabeth Bernholz. Podendo é ir ao Maus Hábitos ou ao Musicbox vê-la.

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