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[Entrevista] A Jigsaw

22 de Dezembro, 2014 EntrevistasBruno Pereira

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Salto em entrevista: "O próximo passo é tornar a música eletrónica mais humana"

[Entrevista] Elephant Stone
jigsaw

Depois de três belos álbuns, Letters From The Boatman (2007), Like The Wolf (2009) e Drunken Sailors & Happy Pirates (2011), a banda natural de Coimbra que está a celebrar 15 anos de existência, regressa agora com No True Magic, um disco ainda mais negro e sombrio que tem a morte como tema principal. Os A Jigsaw são um duo composto por João Rui e João Jorri Silva mas que ao vivo contam com muitos convidados em palco. Para os concertos de apresentação do novo registo contam com uma banda de suporte, os The Great Moonshiners Band. Foi então ao fim de um desses concertos que estivemos à conversa com João Rui, não só sobre o novo No True Magic mas também um pouco sobre a carreira desta banda que já tem muito reconhecimento fora do país.
Três anos após Drunken Sailors & Happy Pirates, aparece este No True Magic. Desta vez num formato um pouco mais sombrio, mesmo pela parte artística, mesmo por toda a ideia do álbum. A que se deve esta passagem para algo mais, podemos chamar, de sombrio? Qual é essa magia verdadeira em que não acreditam?

O álbum é sombrio por uma decisão nossa. Na altura em que fizemos o álbum anterior, o Drunken Sailors & Happy Pirates, decidimos fazer o nosso álbum mais negro. Findo esse, nós decidimos: bem, vamos agora escolher agora o conceito do novo disco, vamos ainda mais fundo, vamos ainda mais negro. Quando se trata das nossas narrativas, geralmente dizem muito respeito ao interior do indivíduo, fomos então buscar o tema da morte, seria o tema ainda mais negro que o anterior que era o da construção da identidade. O que se prende com este álbum, com a suspensão da mortalidade é também a suspensão do julgamento que nós fazemos à plausibilidade da nossa imortalidade, vamos vivendo sempre um pouco na ilusão que vamos cá ficar para sempre. Até porque se nós tivéssemos a todos os momentos o conhecimento e a sabedoria que temos os dias contados, o nosso processo de respirar seria, inclusive, diferente. Vamo-nos alimentando dessa ilusão. Mas a verdade é que não existe a magia verdadeira, o milagre que nos permitira a imortalidade. O álbum trata disso.

 
Como é o vosso processo de criação? Claramente gostam de fazer discos conceptuais e não apenas um conjunto de canções soltas.

Exatamente. Sim. Isso costuma ser geralmente o standart, durante aquele período em que antecede um álbum, compor músicas avulso que depois são atadas com um laço, que é o título do álbum, e está feito. Nós começamos pelo outro lado, começamos primeiro por esse laço e criamos primeiro o conceito, tentamos balizar a ideia o máximo possível e depois a partir daí, o processo. Daí, o processo demora geralmente entre dois a três anos, é o processo em que nós estamos a construir todas as canções, é tudo construído para sermos os mais fieis possível a esse conceito original que nós criamos. Nós achamos que seria a melhor forma de criar e encerrar as coisas. Ainda somos muito fãs da ideia em si do álbum, que o álbum tem que nos representar e não um conjunto de canções avulso, elas todas fazem sentido dentro daquele álbum e respeitantes àquele conceito.

 
Quais são as diferenças entre os conceitos que têm para os álbuns, ao longo da vossa discografia?

Como eu dizia, as narrativas dizem muito respeito ao interior do indivíduo e acabam por ser histórias que não estão contemporanizadas, não estão presas a uma época e algumas tratam de factos históricos. Mas todos os temas são diferentes, os conceitos são diferentes e estanques. No primeiro, Letters From The Boatman, abordávamos já a morte, ainda que não diretamente. Esse álbum falava das cartas que um barqueiro nos traria a nós, um barqueiro um pouco semelhante a Caronte, mas com algumas diferenças, um pouco mais humano, ou demasiado humano. Quando chegamos ao segundo álbum, Like The Wolf, foi a nossa explosão enquanto multi-instrumentistas. A forma mais simples de explicar é que é um álbum acerca da mentira do coração, já que nós enquanto seres humanos somos construídos nas falhas das nossas raízes e é sobre essa falha que nós nos vamos construindo enquanto pessoas. Esse álbum falava dessa ilusão, desse momento da descoberta da mentira do coração. Quando chegamos ao Drunken Sailors & Happy Pirates, um álbum acerca da construção da identidade, como é que se chega a ser aquilo que se é. É um álbum que na maioria das canções fala das pessoas ou personagens que de uma forma ou outra ajudaram a construir uma identidade. Por fim chegamos a este álbum em que colocamos a morte. Acaba por ser por vezes figurante noutros álbuns mas aqui é a personagem principal.

 
Anteriormente já fizeram uma tour pela Europa relativamente comprida, para o habitual de uma banda portuguesa. Está prevista outra agora para apresentar o novo álbum?

É natural que as tournées depois dos álbuns sejam sempre um pouco mais alargadas, não estamos só a pensar já só no território português como faríamos no primeiro álbum. Já no segundo, fizemos uma tournée por 12 países da Europa, estivemos cerca de dois meses seguidos fora, durante os quais nós demos cerca de 100 concertos. Quando chegou a altura do Drunken Sailors & Happy Pirates, o concerto de apresentação foi em Madrid, já que a Espanha foi um país que tão bem nos recebeu, tanto o público como os media. São países aos quais nós temos que voltar, sentimos essa obrigação e essa dívida para com o público que tanto nos acarinhou as canções. Se temos um público que nos abre o coração da forma como nós o abrimos para mostrar as canções, então estamos em dívida para com eles e temos sempre que retornar. Temos esta fase agora de promoção do álbum em Portugal mas vamos estender para Espanha e depois o resto da Europa.

 
E chegar aos Estados Unidos, eventualmente?

Eventualmente sim, suponho. Não nos vamos privar de nenhum território porque é sempre um sonho de qualquer músico mostrar as suas músicas a cada vez mais pessoas e havendo disponibilidade para isso, claro que o vamos fazer. Os Estados Unidos não são para nós uma grande prioridade porque temos aqui ao lado um território tão vasto para apresentar as canções. Temos a Europa do norte onde ainda não fomos e são sítios que queremos ir e que por motivos logísticos ainda não o pudemos fazer. O nosso backline é tão específico que não é possível falar com os promotores e dizer que precisam de arranjar determinados instrumentos, como algumas bandas fazem, temos coisas tão específicas e algumas tão antigas que até já nem se fabricam, aumentando os custos associados, o que torna mais complicada uma ida, por exemplo, aos Estados Unidos. Ainda mais agora com a nossa banda de suporte, os The Great Moonshiners Band, em vez de sermos só os dois elementos, somos oito em palco.

 
Todos os vossos álbuns e projetos já tiveram várias colaborações de artistas. Todos esses artistas vão sendo substituídos por vossa escolha ou é algo que é tomado por eles de quererem seguir outros projetos?

As alterações que os A Jigsaw foram sofrendo, foram fruto de decisões também pessoais das pessoas que estiveram connosco. Alguns criaram outros projetos, outros que saíram porque a música, por muito importante que fosse para eles, não era o suficiente para fazerem os sacrifícios que exige a profissão de músico, que no fundo acaba por ser uma profissão bastante nómada. Em relação aos convidados já é diferente, nós quando chamamos convidados, chamamos enquanto atores, ou atrizes no caso das vocalistas, que vêm representar as narrativas que nós criamos. Então os convidados acabam por se ir alterando porque são papéis que nós vamos escrevendo de forma diferente. O convidado vem porque sentimos que a canção o pede. E conhecendo nós a arte desses artistas que convidamos, sabemos que vão encaixar na perfeição.

 
Neste novo álbum, No True Magic, têm uma convidada muito especial para vocês, a Carla Torgerson. Contem-nos como foi essa história, que já vem de há 20 anos atrás.

Há 20 anos atrás foi a altura em que me apaixonei pela voz dela na canção “Travelling Light” [Tindersticks]. Na altura não havia as maravilhas da internet que há agora, não era tão fácil de encontrar rapidamente quem era a pessoa que esses projetos tinham. Então a única coisa que eu tinha eram as liner notes do álbum dos Tindersticks onde dizia Carla Torgerson, não havia mais nada. Anos mais tarde, um amigo nosso falou-nos no fim de um concerto que nós o fazíamos lembrar dos The Walkabouts e passado dois ou três concertos em que ele também estava presente, voltou a dizer o mesmo. Então tive que ir ver quem eram esses The Walkabouts e ao ouvir percebi que era um grande elogio que ele nos estava a fazer e mais ainda foi o grande choque quando percebi que aquilo era a voz da Carla Torgerson. Então quando começamos a escrever este álbum, eu lembrei-me de escrever uma canção para a Carla, só para a Carla, não poderia ser outra voz. Se ela não aceitasse não poderia ser outra pessoa, eu escolhi os versos especificamente para a voz da Carla. Acabamos por fazer em estúdio quase como se fosse uma direção de atores, no caso específico de vocalistas: isto é o que a personagem está a sentir e pelo qual estava a passar e é isto que é necessário vincar. Claro que depois há todo o processo de se dar liberdade ao ator e ele faz a magia acontecer. No caso da Carla, depois entrei em contacto com o Chris Heckman, que já nos tinha elogiado no passado, e contei esta história. Não fazia a mínima ideia se a Carla ia receber a nossa mensagem. Dias mais tarde recebo uma mensagem da Carla a dizer: “Já ouvi falar da vossa música e ouvi dizer que queres falar comigo”. Foi um processo bastante simples, enviei-lhe a canção e expliquei-lhe qual era a ideia e depois ela gravou a voz em Seattle. Quando finalmente recebemos a canção com a voz dela, embora dizermos que não existe magia verdadeira, ao ouvir aquela canção sentimos um momento verdadeiramente mágico.

 
Os A Jigsaw têm um som bastante característico, quem ouve Jigsaw sabe logo o que é. Quem é que vocês ouviam que vos influenciou a tornarem-se músicos e a desenvolver esta sonoridade bastante personalizada?

Nós nunca sabemos até que ponto alguma coisa nos influencia direta ou indiretamente. É natural que ao princípio estaríamos mais próximos da música contemporânea, como dEUS, que na altura passava nalguma rádio mais alternativa. Mais tarde dedicamo-nos mais a ouvir os Blues e decidimos compreender quais eram as raízes desta música, isto na altura do EP. Quando chegamos ao primeiro álbum, este já era construído com essa experiência do conhecimento de onde vem toda esta música que se faz agora. Como Willie Dixon diz: “Os Blues são a raiz, tudo o resto são os frutos.” Nós gostamos de estar relativamente próximos da raiz, mas não tão longe, próximo desses frutos. Durante o nosso percurso há aqueles artistas incontornáveis, não só pelo tipo de som, mas também pelo facto de para nós serem artistas completos, onde a literatura e a palavra é tão importante como a parte musical. Casos de excelência desses como Leonard Cohen, Nick Cave, Tom Waits, Johnny Cash.

 
Vocês têm tido algum reconhecimento no estrangeiro, mais até que em Portugal, arrisco dizer. Como vêem isso?

Na altura achamos estranho e foi uma grande surpresa para nós porque não tínhamos feito nenhum esforço para conseguir esse reconhecimento lá fora. Eles já faziam uma análise das nossas canções de tal modo que já falavam das letras, dos temas e dos conceitos. Nós estranhamos isso porque não estávamos habituados a que cá em Portugal tivessem essa atenção também às letras. Recordo de uma conversa com um jornalista que me dizia que a razão para isso era não haver espaço editorial. É sempre agradável ser reconhecido fora de casa e o simples facto de sabermos que se deram ao trabalho de ouvir as canções e depois falarem sobre elas, foi algo que nos agradou imenso.

 
Especialmente nesta última década têm havido um explosão na música portuguesa, tanto em qualidade como em quantidade. Algo está a mudar?

Essa explosão parte também um pouco do facto de hoje em dia ser muito mais simples alguém fazer uma gravação com excelência de qualidade, até em casa, claro que isso nunca substitui o estúdio. Tornou-se também mais simples levar essa música ao público, de entrar em contacto com o público e poderem-se criar pequenos nichos através de ferramentas que estão disponíveis na internet. Claro que depois é sempre necessário um pouco mais de apoio dos media nacionais para se ter um pouco mais de destaque.

 
Falava também na aceitação do público português à música portuguesa, sempre tinha sido desvalorizada em comparação com o que vem de fora…

Para isso também tem havido mais apoio dos media e serão sempre eles os responsáveis por o público português receber isso. E talvez por esse crescendo de qualidade, os media se tenham voltado mais para a música portuguesa e que fazem um pouco mais de esforço para. A internet também veio afastar um pouco as pessoas dos meios mais tradicionais como a rádio e a televisão e também têm agora que ir um pouco à procura dessas pessoas que querem procurar música. Também temos mais espaços bem equipados para concertos e levar música às pessoas e tudo isso leva a que esses media queiram falar também de música. Já se vê em algumas revistas, que não seria normal, falarem mais de cultura, ainda que seja pouco e que ainda haja muito a fazer.

 
Sabemos que vocês costumam levar discos portugueses para oferecer, quando vão para fora do país. O que costumam levar?

Já levamos Tiguana Bibles, Sean Riley, Dead Combo. Noiserv também é sempre um habitué que gostamos de levar connosco. Gostamos de levar e mostrar às pessoas e também aos media o que se faz cá em Portugal, e há tanta coisa que se faz boa. Sentimos quase essa responsabilidade, também.

 
Uma mensagem final para quem estiver a ler.

Espero que quem nos esteja a ler, esta pequena conversa lhes tenha aberto o apetite para irem ouvir algumas canções com tempo, que necessitam de tempo para serem ouvidas e se não for pedir muito, que abram um pouco o coração a algumas das canções, que elas bem o merecem.

 
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