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Os 15 melhores álbuns nacionais de 2021

Sem qualquer ordem, a não ser alfabética, apresentamos os 15 discos nacionais que mais marcaram a nossa redação em 2021.

 

Bruno Pernadas – Private Reasons

Ao quarto álbum a solo, Bruno Pernadas concretiza uma viagem pop pelos sons do mundo e arrebata-nos uma vez mais com o poder original da sua criatividade. Private Reasons é uma autêntica obra-prima solarenga, recheada de sonoridades psicadélicas a piscar o olho ao universo pop. A grande mestria por detrás desta criação prende-se na verossimilidade com que Bruno Pernadas autentica cada uma das canções. Podemos jurar que ouvimos Beatles, ou até mesmo Björk, mas no fim de cada uma das canções é indiscutível que, na realidade, o que ouvimos foi um dos melhores músicos nacionais. Private Reasons é a prova disso.

 

Carincur- Echoes from a Liquid Memory

Longe de ser um produto convencional, Echoes from a Liquid Memory constitui a gravação áudio de uma peça transdisciplinar idealizada por Carincur e focada na vulnerabilidade da memória. Nascido a partir do mergulho literal da artista nas águas de um tanque equipado com hidrofones e a sua maquinaria, constrói um mundo experimental onde som, instalação e performance se unem num só organismo. O resultado é belo, íntimo e desafiante, uma viagem surrealista que chega mesmo a ser perturbadora – basta ouvir aquelas vozes agonizantes que invadem a segunda faixa como lamentos fantasmagóricos saídos de um filme de terror, e que mais poderosas se tornam à medida que os seus ruídos apocalípticos e ensurdecedores nos conduzem a uma catarse infernal. Contudo, pouco depois avançamos para a última composição e aí avistamos atmosferas etéreas em plena serenidade onírica, como se uma luz tivesse emergido, triunfal, das cinzas da escuridão. Já no final, emocionalmente esgotados e de alma lavada após absorvemos toda esta intensidade (sonora e visual, pois somos praticamente transportados para o momento onde tudo aconteceu, flashback sonoro do que nunca  chegamos a viver), confirmamos que Carincur faz do desafio infindável o seu sustento criativo, procurando na transcendência emotiva a chave para a gratificação.

 

Cavernância – Em Ciano

Em Ciano é o sinal de chegada da muito aguardada estreia do nosso querido Pedro Roque em planos a solo. Apresentando-se sob a designação de Cavernância, Roque toma proveito de uma tela branca para expressar todo o seu leque de cores, texturas, formas e amplitudes sonoras para pintar uma obra dignamente imponente. Composto por cerca de três faixas, cada uma mais extensa que a anterior, as palpitações rogam-se no abstrato do noise descomprometido e industrializado. A impor respeito a cada ouvinte que se colocar à prova de o defrontar, em ciano exige vulnerabilidade e abertura. Pois, mesmo não sendo um disco de todo fácil de digerir – nem tão pouco esperaríamos outra coisa do Pedro –, a recompensa é na verdade envolvente e impressionante. Poder apreciá-lo ao vivo, se possível, é uma experiência ainda mais enriquecedora e imperdível que se recomenda vivamente! Num futuro próximo, hão de ouvir mais vezes o nome deste projeto, pois isto é claramente o início de algo muito bom.

 

Conferência Inferno – Ata Saturna

Seria impossível não incluir o fenómeno Conferência Inferno no top nacional de melhores do ano, sobretudo depois de o trio ter lançado um dos mais estimulantes discos na história recente da música portuguesa. Um dos encantos iniciais reside logo na produção, pois sendo eles uma banda punk em espírito – para quê guitarras ou bateria quando a paixão do confronto eletrónico arde com a mesma pujança –, precisavam de alguém que captasse aquela garra que tão bem destilam em palco, alguém que lhes desse um som cristalino, mas não excessivamente polido. Ricardo Cabral (dos Baleia) foi esse alguém, o guia espiritual que os orientou nesta viagem emocionante e alucinante, passado a refletir-se no espelho do presente, em que tanto se evoca o post-punk de Inglaterra como o krautrock da Alemanha, ou mesmo os GNR dos tempos do Independança. De resto, entre a libertação possante de batidas luminosas – às vezes puramente dançáveis, discoteca do deboche que brota desta sociedade decadente – e o registo poético mas denso do vocalista Francisco Lima, sucedem-se malhas que nos aquecem o coração nestes dias frios, que nos fazem querer escutá-las num loop eterno de partilha emocional. Não há como negá-lo: eles são a banda sonora de e para uma geração.

 

Daniel Catarino – Isolamento Voluntário?

Não há como negar a crescente importância da Saliva Diva na divulgação de pérolas do underground nacional, e este EP de Daniel Catarino é prova disso mesmo, pois não é por ser uma “simples” coleção de cinco temas que se torna menos valioso que um disco normal, muito pelo contrário. Temos aqui alguma da mais relevante música nacional  lançada este ano – sumarenta mistura de rock, pop, ritmos folk ou ambientes psicadélicos que soa colorida, dinâmica e vital, e que se apresenta como um diário musical da era pandémica, crónica astuta de uma sociedade subitamente virada do avesso. Um disco que descreve o hoje para ser recordado amanhã, o seu fiel valor documental a expressar-se ora em tons inspiradores e profundamente honestos (“Não tenho mais medo de morrer do que ontem”), ora de forma sarcástica e até mordaz (toda a letra de “Candidatura” é um enorme middle finger à falta de apoio dado à cultura, os versos satíricos sem papas na língua fazem disto música de intervenção). Relatos que se transformam em desabafos ilustram músicas potentes que ficam na memória, por vezes a piscar o olho aos Ornatos Violeta mas com o toque “rasgado” do Springsteen, numa prova de que Daniel Catarino é atualmente um cantautor de excelência.

 

Homem em Catarse – Sete Fontes

A sensibilidade que percorre as artérias e as embrionárias ramificações que compõem estas sete fontes é algo de se maravilhar. Nélson Afonso Dorido, aka Homem em Catarse, apresenta aqui um projeto de uma beleza arrebatadora, sóbria na sua entrega e terna na execução, mas extremamente vulnerável e sincera. Coberta por um simples instrumento de início ao fim (o piano), não há um único momento em que este não esteja a ser utilizado na sua máxima capacidade emocional, para desenrolar o ouvinte por estes curtos percursos e pelas várias referências a Braga. Um destaque especial a “rua do souto deserta” e “valsa dos biscainhos”, que são claros exemplos do génio de Rafael neste trabalho aqui salientado.

 

Luz Laranja – Chroma

Rui Teixeira é um artista que tenho acompanhado muito proximamente desde que este atirou ao mundo Atlas, o seu segundo EP, e desde então, mesmo que de forma discreta, sem grandes alaridos, e infelizmente sem muito reconhecimento, Luz Laranja tem crescido e desenvolvido criativamente de uma forma absurda. Chroma é o sucessor de Billy e assinala uma divagação por outros espectros sonoros fora da zona de conforto do artista. O resultado é uma fusão de elementos que transcendem entre géneros como o rock alternativo, o trip-hop, dream pop e downtempo, e Rui fá-lo tão despercebidamente que frequentemente parece criar todo um estilo novo do dia para a noite. Os sintetizadores, o recurso às guitarras, os inúmeros instrumentos por aqui espalhados – todos compostos pelo próprio, já agora – acentuam todo um talento para o ritmo e para a fluidez que aqui se apresentam em grande plano. Se há artista que creio merecer muito mais atenção que aquela que tem recebido, aqui está ele.

 

Madmess – Rebirth

Este segundo e portentoso trabalho de Madmess – formação que alterna a sua morada de residência entre as cidades de Porto e Londres – vem incensado por um intoxicante, cinematográfico, imersivo e viajante heavy psych com vista para as estrelas, de mãos dadas com um labiríntico, sinuoso, glorioso e místico heavy prog de nutridas composições. A sua sonoridade desmedidamente deslumbrante, alucinógena e purificante – que pendula entre uma orvalhada, reflexiva e enregelada letargia, e uma vulcânica, vibrante e selvática euforia – rasga as amarras da gravidade terrestre e – montado num luminoso cometa que perfura o negro tecido cósmico – embala o ouvinte numa enlouquecedora vertigem, driblando o magnetismo de planetas solitários, empoeirando a alma nas fantasmagóricas nebulosas que deambulam pela imensa vacuidade, mergulhando no ofuscante brilho de abrasivas fornalhas estelares, e resvalando nas costuras fronteiriças de um universo bocejante. São cerca de 45 minutos naufragados e centrifugados num colorido, arrebatado e caleidoscópico rebuliço capaz de nos distorcer a sóbria percepção do espaço-tempo. Um registo verdadeiramente afrodisíaco que percorre e entope as zonas mais erógenas do nosso cérebro. É demasiado fácil enquadrar estas quiméricas jams de sublimes roteiros intergalácticos por entre os melhores álbuns de 2021. – NT
(Lê a review completa a este disco no blog El Coyote)

 

Montes – Vozes Antenas Fragas

Formados por Arianna Casellas e Kauê Gindri, amigos a viver no sexto andar de um prédio na Invicta cuja vista para as montanhas no horizonte inspirou o nome do projeto, os Montes fazem da música uma exploração de sons e sensações de sabor esplendorosamente ancestral, como se a partir da cidade evocassem a riqueza de um misterioso mundo remoto. Num disco de atmosferas fantasiosas e assombrosas, as canções dividem-se em quatro partes e formam sublimes e portentosas epopeias que nunca param de se metamorfosear, alimentando-se de uma série de contrastes – melodia e ruído, caos e sossego – para soltar uma criatividade sem filtros, exposta como fragmentos de emoções puras e indomáveis. A voz de Arianna, ora doce, ora selvagem, sempre livre como o voo de um pássaro, afirma-se como a alma que dá vida a um corpo instrumental já por si requintado, e cada faixa avança como se fosse um pequeno filme, atravessando diferentes estados de espírito, sugerindo imagens e relatando ideias espontâneas. Dinâmico, recheado de texturas e transversal a géneros – cabem aqui batidas trip hop, passagens folk, experimentalismos avant-garde ou field recordings –, mostra-se desafiante ao início mas altamente recompensador no final, uma magnífica ode ao poder da criação sem barreiras.

 

Moonspell – Hermitage

Hermitage pode não ser a obra mais consensual que os Moonspell já lançaram, muito por culpa dos tons mais melódicos e acessíveis que a revestem, mas é certamente um dos trabalhos mais belos e contemplativos que o grupo de Fernando Ribeiro – agora sem Mike Gaspar na bateria – alguma vez concebeu. Editado durante o pico da pandemia e inspirado por outro tipo de distanciamento social – aquele levado a cabo por eremitas dos dias de hoje que não conseguem lidar com as pressões da sociedade contemporânea -, espalha um aroma de melancolia acentuado, aceitando a tristeza como fonte de poesia sonora em vez de rejeitar os seus encantos. A própria música parece, de alguma forma, procurar força e esperança enquanto se deixa cobrir pela incerteza que a persegue, mostrando uns Moonspell a tentar traçar um novo rumo, em busca do que podem e querem futuramente ser. Extraordinariamente atmosférico e consciente da importância dos pequenos pormenores, exibe influências que vão desde Depeche Mode (“The Greater Good”) a Pink Floyd (os solos na tradição de Gilmour em “All or Nothing”), apresentando-se como a continuação lógica do anterior “Extinct”, mas com uma intimidade emocional profundamente comovente e penetrante, uma delicadeza envolvente que lhe confere um charme inigualável.

 

Pledge – Haunted Visions

Este ano têm sido várias e notórias as declamações a sair de Viana do Castelo. De quem é a culpa? O suspeito habitual teria de ser o produtor André Gonçalves (Adrift Studios) que tem albergado e encorpado o som das muitas bandas locais –  inclusive muitos outros projetos aqui por mencionar como Malaboos (conferir Overall de Maio) e Thörne (a preparar algo de fenomenal, estejam atentos). A única explicação para esta vaga de criatividade tem de ser a água, só pode… Ou então as bandas, como estes Pledge que têm algo de muito especial para mostrar ao mundo. Haunted Visions tem obrigatoriamente de estar nesta lista. É um disco que tanto pode servir para assinalar o crescimento de uma banda que recusa glamorismos de estilos ou particularizar-se numa só etiqueta de género, como brindar o trabalho que estes têm feito tanto dentro como fora da sala de ensaios. Um disco que promulga a intensidade dos concertos do grupo, e que eleva a mensagem ao mesmo nível que o assalto sonoro. Não há como apreciar este disco separando as coisas. Quer pelo pessimismo, quer pela abertura sincera e emotiva, tudo isto deve ser presenciado como uma fotografia completa. Depois de o ouvir tantas e inúmeras vezes, resta apenas uma forte salva de palmas para o que o quinteto aqui conseguiu.

 

Redemptus – Blackhearted

Quanto a este disco, há claramente um consenso entre grande parte das fontes portuguesas no que toca ao reconhecimento, ao impacto e à legitimidade por trás do trabalho de Redemptus. Extremamente fiéis à cena local de onde nasceram, é impressionante ver o quão longe a música deste trio chegou em 2021. Blackhearted, como foi dito no Overall de setembro, é acima de tudo um disco simbólico. O que este significa vai muito ao encontro daquilo que eles próprios representam como músicos, visionários e pessoas no familiar panorama nacional. Blackhearted é extremamente vulnerável, sincero e quase que comunica como uma voz de consciência, experiente e que sabe transpor em música todas as coisas boas e más que nos aguardam nesta vida. Nada se aponta à produção e à composição, ambas imaculadas em convivência entre uma e outra, e louva-se ainda mais uma rejuvenescida entrega de hardcore e sludge, onde as fronteiras entre estilos, tal como esta nossa ideia de que tudo está sob controlo na nossa vida, são completamente invisíveis e até ficamos melhor sem elas. Um enorme abraço congratulatório à banda por este disco profundamente especial e que promete inspirar futuras gerações a ver que a música pode bem ser muito mais do que “só música”.

 

Símio – Hominoid

Outro disco de VDC que TINHA de aqui ser mencionado é Hominoid, dos incríveis Símio. Um projeto que, apesar de não ter tanta visibilidade ou cariz mediático como os seus pares nacionais, não carece de motivos para ser louvado. Montanhoso, agreste como a matina gélida das serras do Minho, o sludge encorpado e amplo que Símio aqui promovem tem de tudo um pouco. Melodia, paisagens, peso em forma de riffs vagarosos, pacientes e muita camada de distorção. Em grande nível, há que destacar o sentido de progressão que esta malta apurou no disco. Denota-se uma capacidade bem maturada para contar uma história e desenrolar toda uma odisseia com o mero desabrochar da instrumentação ao longo destes 30 e poucos minutos. Poder sentir essa capacidade veterana com uma impulsão próspera e juvenil é sem dúvida uma lufada de ar fresco.

 

Tiago e os Tintos – O Ecoar D’Uma Sirene

Um dos maiores trunfos da Saliva Diva em 2021 – editora que cada vez mais se afirma como uma voz essencial num underground emergente – foi a estreia de Tiago e os Tintos. Não por apresentar necessariamente algo novo ou revolucionário, mas por ser uma proposta aliciante, super orelhuda e deveras cativante. Um garage rock simples e enérgico, explosão de guitarras a conviver com a doçura de uma refrescante brisa pop, no qual se estabelece a ligação entre Os Pontos Negros e os Baleia Baleia Baleia (recordamos que o álbum até foi maioritariamente gravado por Ricardo Cabral, baterista do referido duo). Uma influência que, de resto, se traduz na recriação daquela garra de sentimento punk, aquele desejo ardente de imortalizar emoções apaixonadas, de sentir a força da música em todo o seu esplendor, dar tudo até não ser possível dar mais. Pelo meio, há deliciosos refrões inesquecíveis, assim como um instrumental chamado… bem, “Instrumental” (até aqui a simplicidade é contagiante), que espalha uma atmosfera estupenda, quase nostálgica, como se recordasse a ternura de um verão idílico, barulhos e vozes de fundo abraçados a uma jam session descontraída de aroma psicadélico inebriante. Uma vitalidade eufórica à qual não ousamos resistir. Preferimos antes absorvê-la.

 

Verbian – Irrupção

Dois anos após Jaez, o trio portuense volta em força e com um upgrade e pêras. Irrupção, além de editado pela italiana Antigony, conta também com um step-up substancial na produção, resultando numa execução de entrega tão preponderante quanto controlada. A emoldurar um corpo sonoro que divaga pelo post-hardcore musculado e reverberante, o ponto forte da banda passa pela progressão, os build-ups e as variações fora da caixa que tornam qualquer momento, imperdível. Desde a portentosa abertura “Nem a Luz Escapa”, à brilhante “Terra Maldita”, ou até mesmo a virtuosa “Mãe” – não há falta de motivos para louvar este esforço, que por si só já mostra sintomas de um potencial enormissimo.

 

Artigo escrito por Bruno Pereira, João “Mislow” Almeida, João Rocha, Jorge Alves e Nuno Teixeira.

Por Wav / 22 Janeiro, 2022

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