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Os 25 melhores álbuns internacionais de 2020

31 de Dezembro, 2020 ListasWav

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Os 15 melhores álbuns nacionais de 2020

Overall Novembro 2020
Sem qualquer ordem, a não ser alfabética, apresentamos os 25 discos internacionais que mais marcaram a nossa redação em 2020.

 

All Them Witches - Nothing As The Ideal




Num momento de flirt com o metal, All Them Witches lançaram um álbum com vontade no peso, de sensibilidade apurada, volume crescente e genuinamente corajoso do ponto de vista artístico, que deu espaço a numerosas e poderosas mutações emocionais. Com um tom de obscuridade cinematográfica, a contar também com as conhecidas e refinadas porções de psicadelismo surreal que vivem da própria força cinética, Nothing as the Ideal é comovente e cáustico. Não foi o som cunhado de ATW que se veio adaptar ao género, mas sim o género que se adaptou ao som. Não tentaram ser algo que não são, mas mostraram que também conseguem ser um pouco de outras coisas. O resultado é impecável, sólido e muito claramente um disco de All Them Witches. É também um registo temperamentalmente responsivo, uma confissão de conflito e sofrimento, reconciliação e encerramento, realização e paz. Revelam-se, examinam-se, processam-se e respeitam-se sentimentos de aversão e frustração para depois se convocar o retorno a um fundamento primordial indefinido que deverá ser descoberto coletivamente. Como tantos dos restantes discos mencionados nesta lista, Nothing as the Ideal fez com que o ano de 2020 se torna-se mais fácil de digerir.





 

Anjimile - Giver Taker




Apesar de só ver a luz do dia em 2020, Giver Taker é o resultado de expurgação de Anjimilie durante a reabilitação pela qual passou em 2016. A pureza e leveza sonora contrastam com a incisiva inspiração lírica, o que resulta num dos álbuns mais aconchegantes e sublimes do ano. Com claras influências de Sufjan Stevens, o álbum tenta explorar e adaptar as influências do folk com as raízes africanas criando uma entidade muito própria, verossímil, mas única.






Arca - KiCk i




KicCk i mostra Arca no seu estado mais selvagem e desafiante, desconstruindo a arte para dela extrair novas linguagens. Tratando-se do primeiro álbum de originais desde que assumiu uma identidade não-binária (aliás, “Nonbinary”, a faixa de abertura, é um ardente manifesto político), reflete um inspirador sentimento de liberdade que resulta numa sonoridade tão fluida quanto a sua sexualidade, que rejeita dogmas e prefere albergar uma infindável lista de possibilidades como se fosse um arco-íris de sons. É precisamente por isso que ao longo desta proposta se escuta eletrónica insólita (a delícia que é a colaboração com a londrina Shygirl), reggaeton, baladas comoventes que parecem evocar as canções entoadas pelos camponeses da sua Venezuela natal, pop futurista (a união com SOPHIE) ou até a Björk a cantar em castelhano numa das mais atmosféricas composições do disco. Entre o belo e o grotesco, Arca permanece uma das mais talentosas e criativas figuras da música contemporânea, um ser de uma sensibilidade assombrosa cuja habilidade em se reinventar de forma tão dramática só é, arrisca-se afirmar, comparável à de Yves Tumor.





 

clipping. - Visions Of Bodies Being Burned




Encapsular este trio numa só gaveta é criminalmente injusto. Quer com a brutalidade do avant-garde ou pela destemida prosa do hip-hop, esta última campanha do grupo tem valido um louvor interminável por parte de colegas na indústria e de tantos outros artistas do underground. Havendo sido produzido em simultâneo com o seu antecessor There Existed an Addiction To Blood, rapidamente se cria uma sensação de admiração e reverência aquando o confronto de tamanha qualidade, consistência e volume entre estes dois projetos. Quer seja vantajoso olhar para ambos de forma interligada ou não, Visions Of Bodies Being Burned rapidamente chega a um patamar sem paralelos, a soldar fortificadas projeções de power-electronics, sintetizadores, dark ambient e drone - a cabo de William Hudson e Jonathan Snipes - à métrica e articulação do enormíssimo Daveed Diggs, o resultado final é francamente épico e tumultuoso, algo que se transpõe muito além da mera colagem de estilos.





 

Fiona Apple - Fetch The Bolt Cutters




Estas coincidências da vida quase parecem bruxedo. Em tempos de confinamento, Fiona Apple apresenta-nos um álbum experimental caseiro. A casa vira um estúdio, os objectos mundanos instrumentos, e os cães viram coristas. Fetch the Bolt Cutters é uma experiência mais que bem sucedida, é mais um trunfo numa carreira cheia de composições consagradas. Não será o álbum mais reconhecido na carreira da canto-autora americana, mas é certamente o mais ousado e criativo até ao momento.





 

Igorrr - Spirituality and Distortion




Monstros & Companhia. Frankenstein. Múmia. Transe e deserto. Visualmente, estas seriam boas referências para o trabalho que Gautier Serre pública enquanto Igorrr. Auditivamente, a tarefa de encontrar rótulos torna-se mais difícil, tal é a explosão combinatória e criativa em que o colectivo francês normalmente opera. Com Spirituality and Distortion, a banda reinventa-se mais uma vez e guia-nos através do espectro que vai desde as composições dronescas de Éliane Radigue até ao blast beat brutal. Impecavelmente produzido, o disco vem acompanhado de um bónus, o videoclipe mais espetacular do ano, a suportar a faixa “Very Noise”.





 

Imperial Triumphant - Alphaville




Um dos mais notáveis títulos na música extrema em 2020 foi este - por uma miríade de motivos. Imperial Triumphant, oriundos de Nova Iorque, são os responsáveis pela real personificação da sua cidade natal na moldura do seu som. Se o seu aclamado antecessor Vile Luxury (a valer menção nos 20 discos internacionais de 2018) já havia indicado grande potencial nessa mesma missão, Alphaville reforçou-o de forma incontestável e com uma mestria sem paralelos. É nesse mesmo caos metropolitano, cosmopolita e apaixonado pelo legado do passado que se emolduram os pilares sonoros do trio americano. Jazz, black metal, avant-garde, post-industrial, música erudita e prog rock, juntamente com o próprio som da cidade (linhas férreas, estações de comboio, guerra, opulência) são só alguns dos monólitos que montam este monstro a visar pelo domínio total.





 

Kanaan - Double Sun




Lavrado, bordado e desenvolvido por um sofisticado, cerebral e elaborado cocktail sonoro de onde facilmente se identifica e saboreia um exótico, purificante e enigmático jazz fusion de inspiração apontada aos fabulosos britânicos Soft Machine e à lendária multinacional Mahavishnu Orchestra, um deslumbrante, sublime e serpenteante prog rock de ares revivalistas que se balanceia entre a carnavalesca exuberância de uns King Crimson e a onírica majestosidade de uns YES, um ensolarado, primaveril e perfumado psychedelic rock de inebriante radiância que resvala na envolvência cinematográfica do post rock, e ainda um hipnótico, imersivo e meditativo krautrock – ainda que de presença mais destemida e vincada na ponta final do álbum – sintonizado na mesma frequência que os clássicos germânicos NEU! e CAN, este trabalho toca as fronteiras da tão ambicionada perfeição. Recostem-se relaxadamente, apertem os cintos e preparem-se para vivenciar a acrobática sinuosidade de uma delirante montanha-russa que vos baralhará os sentidos e descarrilará a lucidez. Empoderem-se nele.
(Lê a review completa a este disco no blog El Coyote)





 

Kind - Mental Nudge




Esta super banda com uma fixação palpável no old school deixou-nos anteriormente com o heavy psych cheio de groove de Rocket Science, de 2015, e voltam agora com arestas limadas: uma voz mais próxima e com melhoramentos na sua colocação, assim como uma distorção mais crua e riffs mais cerrados e prepotentes com um interesse crescente pelas sonoridades do sludge e do doom. O psicadélico para derreter cérebros permanece extenso e flutuante, especialmente em faixas como “Helms” ou “It's Your Head”, bem como em parte de “Bad Friend”, onde se cospe um psych surreal deixado à deriva na própria energia cinética. “Trigger Happy” é o clímax destas características – faixa cuja presença no final do álbum parece detonar a destruição de tudo o que as anteriores construíram, e é também nesta faixa que a voz arrastada faz vir à cabeça o murmúrio do nome Layne Staley. Apesar disto, Mental Nudge é um disco que não se permite ser demasiado sombrio ou corrosivo, sendo que os esforços nesse sentido acabam por empurrar o cool factor dos 90s ainda mais para a linha da frente.





 

Kvelertak - Splid




Com tão grandes mudanças no alinhamento, particularmente com a saída do vocalista Erlend Hjelvik e do baterista Kjetil Gjermundrød, seria de esperar que o grupo norueguês se ressentisse. Ainda que tal possa (e deva) ter acontecido, Splid mostra completamente o contrário. Prova que o seu núcleo duro é na realidade o prolífico trio de guitarras, a mostrar que Ivar Nikolaisen está mais do que à altura das lides vocais, a conseguir trazer para a mesa umas colaborações acertadas (“Crack of Doom”, com Troy Sanders de Mastodon). Muito movimento, muito rock n’ roll, e aquele sabor na boca a alegria furiosa, tão característico de Kvelertak. Se o seu antecessor de 2016, Nattesferd (com lugar no Top 25 da Wav do seu ano) traduzia o frio da capa em áudio, Splid é calor e vida.





 

Lowrider - Refractions




Outrora apelidados (injustamente) como a melhor banda de covers de Kyuss, os Lowrider regressam aos trabalhos de estúdio 20 anos depois do iconico Ode to IO. E regressam para finalmente se assumirem como os verdadeiros mestres do stoner rock europeu. Refractions é construído sob riffs que criados logo a seguir ao disco de estreia mas que, por diversas razões, passaram este tempo todo a maturar. Qual vinho do Porto! Todo este trabalho culmina num disco que quebra por completo com um marasmo criativo que o stoner rock em geral vinha talvez a viver nos últimos anos, com uma produção completamente no ponto e a roçar a perfeição. "Red River" abre o disco de forma tremenda e convida de imediato a entrar-se num mantra a que não se consegue mais sair até ao fim. É também a toada para o resto do disco: de fundo uma linha de baixo totalmente hipnotizante com o serpentear de guitarras ácidas e libertas por cima, funcionando tudo em perfeita harmonia. Em "Ode to Ganymede" aparece um Hammond tão inesperado como absolutamente celestial. "Sernanders Krog" é acida e delicada, enquanto que "Ol' Mule Pepe" é músculo total. Músculo esse que se prolonga para "Sun Devil", a que se junta também fuzz. A reta final faz-se em descompressão com todos os elementos descritos e construídos ao longo do disco presentes: hipnotismo, músculo, fuzz, acidez... Surrender ouve-se repetidamente e é impossível não se ficar mesmo rendido a este trabalho. Uma obra prima que entra automaticamente para a história do género.




 

Mountain Tamer - Psychosis Ritual




Este foi o tempestuoso e aliciante disco dos espíritos alienados do heavy-psych americano que são os Mountain Tamer, cujas erupções nervosas de vivacidade catastrófica fizeram garantir que não seriamos enganados pelo título do álbum. Grande, rijo e atordoante no psicadelismo, Psychosis Ritual é um disco imponente, preenchido pela turbulência cataclísmica de riffs doom, uma distorção de saturação impenetrável e elementos psych nublados que enchem o álbum de qualidades altamente viciantes. O uso de doubled vocals e reverb inflamou as faixas, obrigando-as a atingir proporções incrivelmente assoberbadas, dando também à voz uma presença dominante que corresponde perfeitamente com a figura punitiva e violentamente vingativa que tanto as letras como a amarga e corrosiva voz nos apresenta. Tudo neste disco aparece desenfreado, sem restrições, e assim o sentimos na sua robustez, no experimentalismo, na expressão de hostilidade, na atitude desafiadora e na sua brutalidade dramática.




 

Napalm Death - Throes Of Joy In The Jaw Of Defeatism




Há uma linha super-espessa, ampla e uniforme que separa os britânicos Napalm Death do resto da geração que os acompanhou como pioneiros no grindcore e na música extrema. Após a maior pausa entre lançamentos na história da banda, e com a chegada do seu 16º título na sua discografia, essa mesma distância entre divisões parece aumentar cada vez mais, tendo até em conta que este poderá muito bem ser o melhor contributo do quarteto de Birmingham nestes seus últimos 10 a 15 anos. Throes Of Joy In The Jaws Of Defeatism faz jus ao seu tópico em foco a desenvolver-se numa justaposição entre o industrial, avant-garde e deathrock (referenciam-se nomes como The Young Gods, Rudimentary Peni e Killing Joke) ao grind puro e duro, trazendo não só um conjunto de músicas com uma sólida e coerente entrega, como uma pintura final instantemente memorável e impactante.




 

Nothing - The Great Dismal




Mesmo sem reinventar a roda com uma filosofia de som realmente inovadora, os Nothing têm crescido com o seu shoegaze e alt rock moderno. Os seus dois primeiros Guilty of Everything e Tired of Tomorrow (que valeu menção no Top 25 de 2016) trouxeram consigo uma lufada de ar fresco em prol de uma autocrítica por parte de pessoas que até então não haviam vivido vidas perfeitas. Utilizando-a como ferramenta para alcançar alguma forma de catarse, a música de Domenic Palermo e companhia têm-nos conseguido fazer perceber que até as vidas mais apagadas conseguem trazer algo de brilhante a este mundo. Apesar do pequeno soluço, imperfeito e não tão bem conseguido Dance on the Blacktop, o grupo volta agora com um novo alinhamento - com Aaron (Jesus Piece) e Doyle (Cloakroom) - no disco mais bem conseguido da sua discografia. Mesmo que estes dias continuem sem grande brilho para o futuro, The Great Dismal faz questão de nos iluminar o caminho, como Nothing sempre o souberam fazer.





 

Phoebe Bridgers - Punisher




Phoebe Bridgers prepara-se para o fim do mundo neste segundo álbum de estúdio. Punisher chega como o resultado de dois universos que colidem. Se por um lado é composto por temas dolorosos, conseguimos ouvir uma aceitação por eles em melodias mais tranquilizadoras e, em certos momentos, surpreendentemente alegres. O salto gigante de Sick of the Alps para este disco é a incrível melhoria na capacidade visual das letras de Phoebe. Ouvir este álbum do início ao fim possibilita que relembremos sentimentos tão inerentes à existência humana que as memórias relatadas quase se misturam com as nossas. É extremamente descritivo ao ponto de sentirmos um toque na perna, o acordar depois de um sonho, a adrenalina numa fuga de carro, o desligar do telefone e o imaginar do futuro. Cada música é uma história que vivemos através de Bridgers e que nunca conseguimos expor pelas nossas palavras. Com este trabalho, o talento de Phoebe Bridger é inegável ao ponto de criar uma experiência cinematográfica auditiva que fica cada vez mais imersiva a cada audição. Num ano como 2020, ouvir Punisher faz parecer que o fim do mundo não é assim tão inconcebível quanto isso.





 

Protomartyr - Ultimate Success Today




Este foi o quinto LP elegantemente inquieto dos americanos Protomartyr, que fez combinar elementos de post-punk, indie rock, art rock, psych-rock e jazz no resultado desta soma idiossincrática que foi Ultimate Success Today. Apurado por subtilezas, este é um disco intenso que valorizou a texturização através da melodia, e que marca lugar na discografia da banda como um álbum de audição mais leve e sensível. Ultimate Success Today mantém uma dinâmica de dualismo emocional, com um som harmonioso e com potência reativa, complacente nas suas críticas, vulnerável mas sólido e resoluto, melancolicamente calmo e euforicamente cético. Entre as necessárias intervenções de pujança imperativa, a voz ganhou uma suavidade mais persistente que respeita o tom natural de Joe Casey, para embrulhar o álbum numa constante de beleza. É um disco surpreendentemente forte, de uma produção polida, com uma desenvoltura e engenho criativo impressionante, completo por letras que valem por si enquanto poemas. É seguro dizer-se que Ultimate Success Today merece mais da atenção (previsivelmente positiva) que tem vindo a receber.




 

Run The Jewels - RTJ4




Na faixa “walking in the snow”, o rap afiado de Killer Mike clama por justiça contra atos policiais racistas. É certo que os versos “You so numb you watch the cops choke out a man like me. Until my voice goes from a shriek to whisper, ‘I can’t breathe’” foram feitos a pensar em Eric Garner morto em 2014. Em 2020, o ato repete-se e RTJ4 é lançado um mês após a morte de George Floyd, dando provas que vivemos, infelizmente, em ciclos viciosos. Run The Jewels, projeto de Killer Mike e El-P, volta para o quarto trabalho em estúdio, com faixas avassaladoras e mentalmente exaustivas pela sua carga necessária num ano em que, em plena pandemia, o mundo se juntou contra o racismo. RTJ4 é um vislumbre da Golden age do hip-hop, com tudo o que permite identificar a angústia entre o choque político-social e a imploração pela tolerância. Faixa após faixa, a intensidade aumenta e é notório como todas as músicas têm um elevado nível de qualidade em todos os aspetos: lírico, instrumental, incisivo, poderoso.  As parcerias estão lá (destaque para Josh Homme, Zack de la Rocha, Mavis Staples e Pharrell Williams) e ajudam na oscilação entre estilos e formas de ataque para a mudança. Facilmente, este é o melhor disco da dupla até à data e um marco de protesto e revolta para a nova geração.




 

Ryte - Ryte




Ryte vem governado e inflamado por um eletrizante, psicotrópico, misantrópico e alucinante heavy psych, um serpenteante, melódico, exótico e hipnotizante heavy prog e ainda um tirânico, tenebroso, vigoroso e messiânico proto-metal de ressonância Black Sabbathica. A sua sonoridade tremendamente galvanizadora e impactante – destilada de um épico confronto entre os consagrados californianos Earthless, Mammatus e Ancestors – ostenta elaboradas, ostentosas e inspiradas composições onde envolventes e evolutivos bailados instrumentais se agigantam e desaguam em crescendos estonteantes, sónicos e triunfantes que culminam numa explosiva e catártica euforia capaz de nos fazer rasgar as vestes da lucidez. Deixem-se agredir e engolir por toda esta titânica, raivosa e monolítica avalanche repleta de endorfinas e sintam-se entrar numa vibrante erupção que vos arremessará na vertiginosa direção do infindável Cosmos.
(Lê a review completa a este disco no blog El Coyote)





 

Sault - Rise/Black Is




Na realidade são dois álbuns. Na realidade são duas obras-primas. O colectivo britânico surpreendeu 2020 pela abordagem mais crua da cultura negra. Com raízes bem vincadas no soul e no jazz, os dois álbuns seguem o mood do seu ritmo, libertos, frustrados, explosivos, sossegados. Há músicas bem desenvolvidas e estruturadas, há momentos que roçam a arte: “Rise” e “Black Is” incorporam em si a História da música através dos seus distintos géneros, que misturam livremente e que resultam numa coesão sonora abismal.





 

Shabaka & The Ancestors - We Are Sent Here By History




Sem dúvida que ouvir o saxofone de Shabaka Hutchings já é uma experiência cósmica por si só. O londrino é uma promessa viva do jazz contemporâneo que se desdobra em 3 projetos como Shabaka & The Ancestors, The Comet is Coming e Sons of Kemet, conseguindo o que muitos consideram uma tarefa hercúlea. Em todos estes grupos existe algo de futurista com um cunho de profecia, ora pela declamação dos poemas como pela urgência nas notas de saxofone. A diferença para We Were Sent Here By History, produto da colaboração com o grupo sul-africano The Ancestors, foca-se, sobretudo, numa força extremamente tribal, espiritual e transcendente que realça como o jazz é capaz de evocar as emoções mais primitivas. Aqui, as faixas atingem uma consciencialização que vai para lá da vida como a concebemos, chegando a assemelhar-se a cantos xamânicos de uma verdade desconhecida. É nos momentos sombrios que este disco crava-se na nossa memória de uma forma assombrosa, ajudando a que tenhamos uma exteriorização de raiva acumulada e até de frustração. Este é um resultado grandioso e cativante, que se sente como se fosse uma atuação privada na nossa frente a cada audição.





 

Spanish Love Songs - Brave Faces Everyone




Falar de pop punk é falar de um assunto delicado. Definir e explicar Spanish Love Songs é uma tarefa ainda mais complicada. Longe vão os tempos em que o pop punk atingia o mainstream, mostrando um energia e rebeldia adolescente, muitas vezes algo fútil. Uma estética que ficou associada ao género e que ainda hoje constitui um estigma generalizado. A verdade é que esses adolescentes crescerem e amadureceram. O que outrora poderia ser um sentimento eufórico de quase imortalidade, hoje, já entrados nos trintas, passa a um sentimento de nostalgia e o reconhecer da realidade. Um caminho de mudança de estigma que já vem a ser percorrido por bandas como Rise Against ou The Menzingers. Brave Faces Everyone é absolutamente intenso. Intenso sonicamente, tal como Rise Against, mas acima de tudo a intensidade é lírica. Se os Menzingers já traziam essa instrospeção, com Brave Faces Everyone os Spanish Love Songs atingem um outro nível densidade e potência. A imagem é de um patamar lírico de uns Smiths em termos de emoção humana, interpretados pela fúria com que Jonathan Davis dos Korn rebentava nos noventas. Este disco foi lançado em fevereiro, mesmo antes de esta pandemia em que vivemos ter rompido definitivamente pelo mundo. E o timing não podia ser mais perfeito e quase premonitório. Brave Faces Everyone fala de dificuldades económicas, de vício, vergonha, amor próprio, depressão... A ideia de aceitar o mundo e o estado em que ele está e navegar por entre tudo isso com um sorriso nos lábios. Não é pessimismo, é a pura chapada de realidade. "You know the truth in what they say, the world's gonna kick you either way."





 

The Ocean - Phanerozoic II: Mesozoic / Cenozoic




Olhando em retrospectiva, e incluindo o trabalho de The Ocean no balanço, 2020 não foi um ano assim tão mau. Claro que passámos pela maior pandemia de que há memória viva, imensas disrupções ao nosso status quo e extremada dificuldade económica, mas tudo isso se esfuma quando Loïc canta e Robin Staps compõe. Exageros à parte, Phanerozoic II completa um ciclo muito especial para o colectivo alemão, o de narrar em música a história de 4.500 anos de evolução terrestre. Ainda que aponte ao passado, a lírica do álbum pauta-se pela atualidade e pelo paralelo entre extinções históricas de espécies e o momento de instabilidade ambiental que atravessamos. Melhor é escutar o que nos diz a Terra, o que nos diz o Oceano.





 

Touché Amoré - Lament




É com Lament que os Touché Amoré finalmente atingem o pico criativo da sua carreira. Contando com Ross Robinson na produção, deram tudo - mas mesmo tudo, há aqui suor e lágrimas - o que tinham para imortalizar uma avassaladora descarga emocional. Este é, na verdade, um claro exemplo de banda e produtor em sintonia, pois se Ross é conhecido por exigir imenso dos grupos com quem trabalha, os Touché sempre foram igualmente honestos e viscerais na sua entrega. O que também impressiona é a forma como se afirmam cada vez mais como compositores, adicionando uma estupenda sensibilidade pop à música que criam sem deixarem de ser irreverentes e apaixonados punk kids. A intensidade post-hardcore de feeling emo continua lá, mas coexiste agora com riffs post-punk em “Lament”, ou participações como a de Andy Hull, dos Manchester Orchestra, em “Limelight”, ilustrando uma maior maturidade e um contínuo desejo de evolução. Pelo meio, Jeremy Bolm canta como se não houvesse amanhã, e é nesses momentos íntimos de pura catarse que (quase) se chora e se dá graças por esta experiência.





 

Ulcerate - Stare Into Death and Be Still




Depois da chegada dos neozelandeses à editora francesa Debemur Morti (Throane, Terra Tenebrosa, Blut Aus Nord), havíamos percebido que os ingredientes para um breakthrough estavam finalmente reunidos para o trio de Ulcerate. Esta é uma das bandas de uma nova geração de death metal mundial, que mais longe tem levado o death metal por percursos nunca antes viajados. Algo que está vinculado na Stare Into Death and Be Still - um tributo à ambição e ao desejo na criação de algo que seja fortificado, supremo e ao mesmo tempo muito vulnerável. O seu foco, a navegar sob a aceitação da morte, a rejeição do luto e o acolher do puro e simples destino que todos temos garantido, este interliga-se de uma forma tão crítica a um claro testemunho de que a música extrema pode ser muito mais do que só blast beats e riffs. Apesar do seu tópico, este é um disco verdadeiramente vital para a sua geração.





 

Yves Tumor - Heaven To A Tortured Mind




Heaven to a Tortured Mind é, muito possivelmente, o melhor álbum da carreira de Yves Tumor, e isso é dizer muito tendo em conta a espantosa qualidade do seu percurso. Alimentando-se de uma extraordinária capacidade de renovação artística e estética, vai oferecendo discos que funcionam como reações ao que fez anteriormente, discos que nos mostram como, no universo dele, as explorações do passado influenciam diretamente as escolhas do presente. Se em Safe in the Hands of Love o víamos a “namorar” um conceito pop, uma melodia ternurenta, sem  trair o experimentalismo dissonante - ali estava ele, entre a tempestade e a tranquilidade, a jogar com dois mundos sem realmente fazer parte de nenhum - aqui assume uma sonoridade próxima do soul de tons psicadélicos, ou até de um imaginário rock idealizado; sofisticado e enigmático, com algo de sensual, adere a um registo mais acessível e grandioso do que o habitual, mas onde conserva toda aquela profundidade emocional que sempre o definiu. Entre a sedução e a decadência, Yves Tumor reina como o génio que é. A história fará dele uma lenda.





Artigo escrito por Beatriz Fontes, Bruno Pereira, Catarina Nascimento, João "Mislow" Almeida, João Rocha, Jorge Alves, Nuno Teixeira (Blog El Coyote) e Pedro Sarmento.
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