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Os 30 melhores álbuns internacionais de 2021

Sem qualquer ordem, a não ser alfabética, apresentamos os 30 discos internacionais que mais marcaram a nossa redação em 2021.

 

Ad Nauseam – Imperative Imperceptible Impulse

Na arena do extremo, há um disco europeu em particular que marcou presença em tudo o que seja sítio com preferências para os sonoros ambivalentes e devastadores. Os italianos Ad Nauseam lançaram, em 2021 – seis anos após a sua estreia em estúdio –, o seu imperativo, impercetível e impulsivo opus de death metal técnico vanguardista. As múltiplas camadas de que o quarteto italiano dispõe neste assalto à mente humana até podem desencadear uma superabundância de informação e impressões, mas o fenómeno deste disco é que, na verdade, não podia estar mais despido no que toca a efeitos, distorções e produção. Na verdade, a projeção ganha pela nudez da própria matéria-prima, e triunfa ainda mais com uma natureza verdadeiramente macabra. Com riffs que se desenvolvem e entrelaçam como ramificações de ramos e raízes, o ouvinte pode ficar com a sensação de que não há direção nem forma para a premissa daquilo que se ouve. No entanto, se há coisa que Imperative Imperceptible Impulse tem, é controlo e forma. Admita-se ser feio, discordante e muitas vezes absurdo, mas esse maravilhoso absurdo só é superado pela elegância de execução.

 

Arlo Parks – Collapsed in Sunbeams

O álbum de estreia da britânica Arlo Parks é uma viagem pelas suas vivências e memórias da adolescência. Desenquadrada do contexto social onde estava inserida, refugiou-se no poder das palavras e da narrativa para encontrar a sua paz interior. Em termos melódicos, tudo cheira a nostalgia, e cada detalhe e influência é uma piscadela de olho da artista aos seus próprios gostos, fazendo do seu álbum de estreia um exercício cheio de personalidade, sem descuidar a empatia. Collapsed in Sunbeams é a materialização das suas experiências aliada à sua tremenda capacidade de contar uma história. Arlo Parks é um nome a seguir.

 

Armand Hammer & The Alchemist – HARAM

Mesmo mostrando o melhor de si mesmos enquanto juntos, tanto Billy Woods como Elucid – a formar o projeto de culto Armand Hammer – são insuperáveis forças criativas nesta nova vaga de hip-hop alternativo. Com uma bagagem PESADA de discos, tanto a solo como em colaboração, parece que a dupla finalmente começa a ser incluída na conversa dos grandes nomes na atualidade do género. HARAM é a primeira colaboração com o mítico produtor contemporâneo The Alchemist (o qual soma tantos outros trabalhos com Conway The Machine, Freddie Gibbs, Boldy James), e tem toda a receita, sabor e longevidade para se tornar num futuro clássico. Desde a abertura com a introspeção ao abuso de droga na “Sir Benny Miles”, a passar pelo estudo à identidade afro-americana em plena época de capitalismo, à inesquecivelmente divina “Falling out the Sky” com Earl Sweatshirt em pleno destaque. Este é um daqueles trabalhos que reúnem um conjunto de grandes mentes criativas que clicam no momento certo, no sítio certo. Desde o exacerbado poder de observação de ELUCID à irónica e lírica visão de Woods, tudo colado a um pano de fundo venerável e digno de aplauso com a métrica de batida e tela de samples pintada por mais ninguém senão The Alchemist. Um futuro Madvillainy, leram aqui primeiro!

 

Aya – im hole

Ora aqui está um autêntico tesouro para quem curte navegar pelos mares da eletrónica exploratória. Entre o clubbing pulsante e o experimentalismo desmedido  reside a identidade artística mutante da londrina aya, exímia escultora de grandiosas peças surrealistas que rejeitam o conforto previsível de estruturas convencionais. Começamos logo com aquela intro perturbadora e asfixiante, intitulada “Somewhere Between the  8th and 9th Floor”, no qual a produtora repete uma série de palavras – “Red shoes or blue shoes” são as que mais fortemente ecoam – como se estivesse hipnotizada. É aterradora, dir-se-ia mesmo tétrica, mas incrivelmente bela e inspiradora. Despede-se ao dizer “hello, everyone, and welcome to the show”, e a partir daí experienciamos livremente a singularidade deste espetáculo, que tanto se entrega de corpo e alma a atmosferas sombrias e inquietantes (aqueles registos de spoken word maníaca mais parecem feitiços macabros de um filme de terror), como instala ambientes intrigantes e viciantes. Dança e introspeção diluem-se até formar um só, erguendo um mundo idiossincrático de caráter futurista, a piscar o olho ao legado de SOPHIE, onde vozes alienígenas que convivem com sons em metamorfose contínua – frenéticos e até febris- refletem a luz de uma alma intrinsecamente humana.

 

Black Country, New Road – For the First Time

Não passaram despercebidos. Black Country, New Road surpreendeu o grande público com a genialidade marcante de For the First Time. Este álbum é uma bela e impressionante peça progressiva, irreverente no seu experimentalismo, com um groove e vigor jazzy que nos prende no vício. O grupo londrino sobredotado revestiu os seus ritmos irreverentes com uma abordagem incandescente ao post-punk e crescendos vertiginosos. O elogio é merecido. For the First Time é a ambiciosa introdução formal de Black Country e um dos lançamentos inesquecíveis de 2021.

 

Black midi – Cavalcade

É post-punk? Em parte. Dá bom uso ao math e progressive rock? Lá isso dá. Com olho para o jazz? Sem dúvida. Ainda deixa um espaço para noise rock e afins? Espaço não lhe falta. Podíamos fazer disto uma adivinha, mas uma muito simples por sinal, porque falamos com certeza dos black midi, e acima de tudo de Cavalcade, o segundo e brilhante projeto do trio britânico. Forjado numa classe e elegância quase incompreensíveis, dada a mescla de géneros e influências estilísticas que aqui confraternizam, o que tornou este álbum tão transcendente não terá sido ditado em menor grau pelo discernimento para complicar e descomplicar as coisas num estalar de dedos, dependendo, claro, do que melhor serve a música que se conduz, do que pelo próprio carisma da banda, que esmiuça cada um dos instrumentos utilizados com uma confiança que o faz parecer mais fácil do que é, não soubéssemos nós dos ossos deste ofício.

 

Damon Albarn – The Nearer the Fountain, More Pure the Stream Flows

Poucos discos lançados este ano serão tão bonitos e inspiradores como o segundo álbum a solo de Damon Albarn, que curiosamente começou como uma exploração orquestral feita a pensar no encanto da paisagem islandesa (uma segunda casa para o músico britânico) e que evoluiu para uma coleção de composições pop suntuosas mas melancólicas, elegantemente decoradas com passagens ambient e aromas jazzísticos. Música intimista e enternecedora, como páginas soltas de um diário assombroso, com a voz a libertar uma emoção à flor da pele. Há convidados, entre os quais Simon Tong (ex- The Verve) e Mike Smith (colaborador nos Gorillaz), mas este é um álbum profundamente pessoal, uma reflexão emotiva sobre a passagem do tempo, a dor de perder o que nos é querido (para Damon, a morte de um amigo próximo, o lendário baterista Tony Allen) e a vontade de preservar o que ainda pode ser salvo (a natureza, amor que a crise climática ameaça destruir). Contemplativo e altamente sensível, aberto a uma partilha coletiva para juntos sararmos as feridas individuais, comunica uma beleza tão pura, uma tristeza tão docemente nostálgica, que só desejamos mergulhar para sempre no seu universo. Uma obra celestial e envolvente, que espalha luz a partir da escuridão dos seus receios.

 

Domkraft – Seeds

Os Domkraft seguem na sua trajetória ascendente no universo stoner doom e apresentaram-se em 2022 com o monolítico Seeds, consolidando a marca que os caracteriza como um sludge bem lamacento, envolvido por uma atmosfera psicadélica absolutamente hipnotizante. Com o mundo ainda a viver uma situação complicada, é automático pensar-se no conceito deste disco como um vislumbre do que poderá estar à espreita. A banda sueca mostra em Seeds uma espécie de fénix que ressuscita do absoluto apocalipse e caos dos seus discos anteriores, focando-se na ideia de emergir das ruínas para um novo começo. Neste trabalho o som monolítico vai e vem em ondas. Imparável, repete-se até que o ouvinte fique completamente envolvido e absorvido pela atmosfera criada. Sublime.

 

Floating Points, Pharoah Sanders & the London Symphony Orchestra – Promises

Foram nove os movimentos que compuseram o que será possivelmente o melhor álbum do artista britânico na sua colaboração com um dos mais renomeados saxofonistas da contemporaneidade e com o apoio de toda uma orquestra londrina, e foram igualmente nove os movimentos que, sempre que se fazem ouvir, despertam na alma um emaranhado de emoções que dificilmente se conseguem descrever. Sensível, despido e ponderado, Promises faz questão de comprovar que, para se manipularem os cordéis nos quais se encontra suspensa a fragilidade emocional do ser, não se requerem grandes orquestrações das maiores complexidades. Um curto motivo de sete notas consecutivas no piano que se repete de início ao fim acompanhado de posteriores sobreposições delicadamente graduais foi mais que suficiente para despoletar uma das viagens mais belas, senão mesmo a mais bela, que 2021 nos podia ter oferecido.

 

Full of Hell – Garden of Burning Apparitions

O insuperável quarteto americano Full of Hell parece não mostrar qualquer sinal de cansaço físico e criativo. Com uma consistência já absurda de lançamentos, quer do próprio grupo, quer com os projetos paralelos dos membros, não há qualquer vacilação de energia e disponibilidade de ideias. Garden of Burning Apparitions é o quinto disco de originais da banda dentro de uma década, e como estes têm vindo a fazer álbum após álbum, não há falta de argumentos para sublinhar que estes rapazes se superaram uma vez mais. Mesmo sendo o disco mais curto do quarteto até hoje (pouco falta para chegar aos 21 minutos), é também o mais denso, urgente e preponderante no que toca a argumentos. O esqueleto e o desenho técnico que se assume, como sempre, imponente e primal, abraça elementos externos ao seu hábito e cria aqui uma avalanche cerebral de momentos memoráveis e totalmente bem conseguidos. Quer combinando goregrind com noise rock, ou harsh noise com rock alternativo, Full of Hell sentem-se cada vez mais confortáveis na saída da sua zona de conforto.

 

Genesis Owusu – Smiling With No Teeth

Smiling With No Teeth é outro brilhante álbum de estreia com que fomos brindados em 2021. Genesis Owusu nasceu no Gana, mas emigrou com a família para a Austrália ainda em criança. Desde cedo contactou com o mundo da música, mais concretamente com o hip-hop, onde o seu irmão mais velho, Citizen Kay, dá cartadas na terra dos cangurus. Agora, agarra o seu controlo criativo e pratica a arte da colagem sonora, oferecendo-nos este brilhante álbum. Smiling With No Teeth é Prince, Kendrick, Erykah Badu e Death Grips. Do rock ao hip-hop, do caos à bonança. Genesis Owusu apresenta-se com um excelente cartão de visita digno de toda a nossa atenção.

 

Green Lung – Black Harvest

Nesta sua nova colheita, maturada pela negra radiância e fermentada por um fibroso, inflamante, excitante e imperioso heavy rock de celebração ocultista, e um intrigante, sinuoso, pomposo e enfeitiçante heavy prog de pura musculatura setentista, o coletivo sacerdotal britânico prossegue com a sua demoníaca liturgia de ornamentadas orações apontadas ao lado eclipsado da religiosidade. Comungando e combinando a trevosa bruxaria de Black Sabbath, a sedutora ardência de Boston, a hipnótica exuberância de Atomic Rooster e a majestosa elegância de Deep Purple, este Black Harvest gravita, mumifica e sepulta o ouvinte num petrificante estádio de ofuscante deslumbramento que o seduz, embevece e conduz pelos sombrios contos de Edgar Allan Poe. São 44 minutos aspergidos por uma luciférica perversidade e tóxica nebulosidade que nos dilatam as pupilas, empalidecem o semblante, sobreaquecem o peito, e estremecem, enlutam e profanam o espírito. Este é um álbum tragicamente belo. Um registo intensamente portentoso que não deixará ninguém recostado à indiferença. É demasiado fácil cair nesta pecaminosa tentação e selar um acordo de fidelização com o príncipe das trevas. Está aqui uma das obras mais sublimes do ano, que aguardo com sísmico anseio poder experienciar ao vivo no tão salivado verão musical português de 2022 (mais concretamente na 10ª edição do festival Sonic Blast). – NT
(Lê a review completa a este disco no blog El Coyote)

 

Hippotraktor – Meridian

Álbum de estreia, álbum do ano. De Mechelen, Bélgica, surge um terramoto sonoro de proporções épicas: Meridian, primeiro disco de estúdio de Hippotraktor, é uma força natural imparável. Composto por uma mistura de músicos de outras andanças (PSYCHONAUT, Before He Shot Her e L’itch), o grupo combina a formação clássica de dueto de guitarras, voz, baixo e bateria, mas reinventa-se com percussões extra (veja-se o caso de “Manifest the Mountains”) e coros vocais constantes. Há groove, há peso, há contexto lírico, enfim… sem dúvida uma contratação de renome da já imponente Pelagic Records. Com uma narrativa a roçar o naturalismo deítico, o disco está repleto de riffs catalisadores de lesões sérias no esternocleidomastóideo e refrões para se entoarem noite fora em dia de festival. Destacam-se também os brilhantes momentos em “God is in the Slumber” (“God is in the slumber/Yet I remain awake”) e “Mover of Skies” (“Sire of motion/Sever the skies/Summon the cyclone now”).

 

King Woman – Celestial Blues

Não foi apenas uma avanço colossal sobre o seu álbum de estreia Created in the Image of Suffering, que por si só já era de valor soberbo. Celestial Blues marcou também o estrondoso retorno dos King Woman ao estúdio após 4 anos de longa espera por material de Kris Esfandiari e dos seus rapazes. Espera essa que, se é necessário sequer reafirmá-lo, valeu completamente a pena, pois de início ao fim, sente-se um disco integralmente explorado em todas as vertentes, seja no dinamismo com que cada faixa se ramifica, como no estudo lírico do trauma, perda e desorientação. Ora áspero e incisivo no doom praticado, ora meditativo e objeto de introspeção nas suas sequências shoegaze e post-rock que atuam como sedativos, o que é certo é que o crescimento que a banda demonstrou entre álbuns não passou de todo despercebido aos ouvidos da indústria musical.

 

Kowloon Walled City – Piecework

É genuinamente surpreendente observar uma banda como Kowloon Walled City, já com uma discografia bem pronunciada no panorama do sludge e post-metal, lançar agora o seu quarto contributo em pouco mais de dez anos sem, por uma única vez, ter saído da sua zona de conforto ou fugido à sua genuína forma de ser, conseguindo não se perder na desinspiração ou na falta de ideias. Em primeiro lugar, Piecework é, acima de tudo, um grande disco. Em segundo, é um disco que não foge a nada daquilo que os seus antecessores foram. Pesados, focados na acumulação e cobertos com um perfume de cadência paciente que compensa sempre! E apesar de pouco se distinguir dos seus passados discos, Piecework é um discão de todo o tamanho. Ouçam-no, sintam a enorme reverberação das cordas, bem como todo o corpo que cada pancada, cada choque e tombada que a bateria sustém nos momentos pausados. Com Kowloon Walled City, é nos momentos mais calados que se fala mais alto e nos momentos mais pesados que se respira. E se, pelo caminho, formos abraçados por inúmeros momentos de génio e brilho, não há como evitar dar o mérito onde ele é merecido, e aqui não há desculpas.

 

LLNN – Unmaker

Copenhaga é o epicentro de uma das grandes derrocadas que se sente pelo resto da Europa. A mitigação de ferozes ondas de choque tem como ponto de origem este Unmaker do coletivo dinamarquês LLNN. Um projeto que, mesmo contando já com o seu quarto contributo, participa agora no diálogo da música pesada com uma visão jovial e bastante refrescante. Este disco tem tudo o que se pode pedir a peso pesado. Riffs colossais, uma entrega vocal anatómica e uma produção reforçada na compressão que não subtrai um único bocado de espaço para respirar. A sensação de sufoco joga muito a favor daquilo que a banda procura fazer e, se não é pela atmosfera e pelos build-ups de energia no decorrer das faixas, há de ser pelas explosões atómicas que devem representar o som de um planeta em colisão. Conseguir fundir o seu esqueleto de metallic hardcore com sludge e ainda adorná-lo com uma vitalidade punk, bem como uma expansividade de post-rock, só é de uma mestria digna quando o resultado é tão eficiente quanto este.

 

Mdou Moctar – Afrique Victime

O prodígio da guitarra Mdou Moctar regressa para voltar a arrebatar-nos com as suas capacidades astronómicas de criar um estado de espírito coletivo. Autodidata, a vida madrasta que viveu ensinou-o a criar explosões de euforia e buracos negros de solidão com a mesma destreza. Afrique Victime é o expoente máximo da sua carreira, assumindo o papel de uma ode moderna à cultura Tuareg, homenageando os que o precederam e colocando a sonoridade no mapa da cena musical. Com este álbum, Mdou Moctar não só atinge o auge da sua carreira criativa, como também prova o poder da universalidade da música.

 

Mythic Sunship – Wildfire

Com base na receita musical posta em prática desde a sua fundação – que combina um imersivo, magnético e contemplativo krautrock de aroma oriental, um colorido, alucinógeno e delirado psychedelic rock de inspiração sessentista, e ainda um intempestivo, catártico e expressivo avant-garde jazz de criatividade ilimitada – os Mythic Sunship estreiam mais um novo capítulo da sua incrível e evolutiva odisseia autodenominada “anaconda rock”. Num perfeito equilíbrio entre bonanceiras passagens de envolvência edénica, mística e deslumbrante, e tempestuosos, vibrantes e furiosos ciclones onde todos os instrumentos se embrulham e amotinam numa louca orgia, a impactante sonoridade de Wildfire é condimentada e flamejada a um exótico, sónico e carnavalesco experimentalismo sem fronteiras que o espartilhem ou delimitam. De transbordante fascinação a ele atrelada e sobreaquecidos numa febril combustão, somos varridos pela sua intensa toxicidade e viajados numa estonteante, acrobática e eletrizante montanha-russa de emoções empoladas e inflamadas. Um registo de aventurosas composições que nos despistam a capacidade de leitura musical e eternizam num anárquico bacanal. – NT
(Lê a review completa a este disco no blog El Coyote)

 

Portico Quartet – Monument

Podia muito bem estar aqui Terrain, o primeiro dos dois lançamentos dos Portico Quartet no ano passado, pela sua memorável concisão e hipnótica submissão ao reflexo introspetivo. Mas eis que surgiu Monument uns meses depois, fazendo uma oferenda copulativa entre momentos de contemplação meditativa e uma subsequente coleção de sons orgânicos, completamente fluídos na suas composições e de texturas bem mais exclamativas. Nas suas fusões ecléticas entre o jazz moderno e eletrónica subtil mas perspicaz em toda e qualquer instância, apercebemo-nos do real valor do produto proveniente de um duo que, ao longo de mais de dez anos de carreira, nada mais fez a não ser aperfeiçoar uma arte que só a experiência seria capaz de aperfeiçoar.

 

Portrayal of Guilt – We Are Always Alone

Foram duas as adições ao inventário sonoro dos Portrayal of Guilt no ano prévio, e enquanto a veia mais experimental de CHRISTFUCKER surpreendeu com uma aderência abismal às forças do oculto e à brutalidade pura e dura, foi somente com We Are Always Alone que se alcançou um equilíbrio ideal. Há uma certa fealdade nas melodias, uma intenção maligna e desesperante na semântica pronunciada, uma atração incondicional à dor e ao sádico. Faz-se uma descida ao inferno, e se porventura encontramos algo a que nos podemos agarrar, é apenas uma questão de tempo até que se destituam por completo quaisquer sentimentos que não sejam dominados pela negridão em que estamos envoltos. E é com essa tão grande devoção à exponencialização do sofrimento que este disco, ainda que não se vá entranhar com facilidade em qualquer ouvido que com ele se sintonize, eleva o grupo a um novo e provocador patamar.

 

Rostro del Sol – Rostro del Sol

Este primeiro passo discográfico de Rostro del Sol traz-nos um colorido, perfumado e caleidoscópico sortido sonoro de onde se identifica e degusta um delirante, excitante e tropical psychedelic rock, um serpenteante, enfeitiçante e triunfal progressive rock e ainda um sumptuoso, aparatoso e orquestral jazz rock. Combinando o exótico virtuosismo de Jimi Hendrix e Carlos Santana com a carnavalesca vitalidade de uns Mogul Thrash, a aventurosa sagacidade de Soft Machine e Mahavishnu Orchestra, o arejado misticismo jazzístico de Sweet Smoke, e ainda com o abstracto cabaret domesticado pelo Frank Zappa, esta irretocável, caprichosa e venerável obra representa um imaculado tributo aos lisérgicos anos 60 e 70. Contando ainda com destemidas incursões pelos territórios de um sinuoso, principesco e majestoso blues, e de um fogoso, ritmado e suado funk, a sua sonoridade camaleónica, afrodisíaca, veraneante e prismática desdobra-se numa instrumentação habilmente elaborada que envolve e revolve a alma do ouvinte numa arborizada teia de sonhos. – NT
(Lê a review completa a este disco no blog El Coyote)

 

Sex Magick Wizards – Your Bliss My Joy

A par do que testemunhara no seu primeiro trabalho, este novo álbum dos noruegueses é norteado por um elegante, virtuoso e fascinante avant-garde jazz condimentado a enfeitiçante experimentalismo – que ocasionalmente se ramifica num selvático, complexo e esquizofrénico free jazz onde todos os instrumentos correm perdidamente em direcções opostas, e num exótico, cerebral e afrodisíaco jazz fusion de opulentas composições – aliado a um intrigante, sinuoso e magnetizante progressive rock de tintura psicadélica e inspiração setentista. A profética, estética e alucinante sonoridade – de técnica apurada, instrumentos dialogantes e temperamento bipolarizado – pintada a cores dissonantes e redigida a linhas tortas por estes talentosos académicos jazz freaks combina todo um excêntrico e enlouquecedor descarrilamento de sofisticação matemática que nos inunda e embrulha as conexões cerebrais, com um melódico e libertador deslumbramento de sublimidade seráfica que nos adormece e embevece o espírito. Conseguem imaginar toda uma colorida, texturizada e carnavalesca orgia entre Miles Davis, John Coltrane, Ornette Coleman, Peter Brötzmann, Django Reinhardt, King Crimson, Colosseum e Mahavishnu Orchestra? Se sim, acabam de alcançar os admiráveis territórios de Sex Magick Wizards. – NT
(Lê a review completa a este disco no blog El Coyote)

 

Snail Mail – Valentine

Depois da estreia com Lush, eis que a prodigiosa Lindsey Jordan regressa com uma obra fenomenal, daquelas capazes de consagrar carreiras em ascensão. Abraçando uma sonoridade mais pop e suntuosa, mas sem descurar o seu lado íntimo e sensível (ilustrado em episódios soltos de momentos dolorosos, como o tempo que passou numa clínica de reabilitação), assina aqui um trabalho de qualidade assombrosa, que pode até ser visto, numa perspetiva coming of age, como o disco de uma jovem a imortalizar a sua transformação numa senhora. Só o tema de abertura já é suficiente para nos deixar arrepiados – e como não, com aquele refrão caloroso, enaltecido por guitarras que se entregam à mais bonita explosão de distorção emotiva -, mas pelo meio surgem outras pérolas que não podem ser ignoradas: “Ben Franklin”, por exemplo, afirma-se como uma sedutora composição pop adornada por um groove quente e misterioso, ao passo que “Forever(Sailing)” aconchega-nos a alma com o seu refrão “roubado” a Madleen Kane e “Glory” espalha uma nostalgia indie estonteante, recordando a emoção “despida” da Liz Phair em 93 mas num registo mais polido, atmosférico e sonhador. Que não haja dúvidas: “Valentine” é um clássico desta geração, e Snail Mail uma das suas maiores figuras.

 

Squid – Bright Green Field

Num ano com uma forte presença da nova cena post-punk britânica, os Squid destacaram-se com o seu Bright Green Field. Depois de alguns EPs e das levianas, mas memoráveis, “Houseplants” e “The Cleaner”, este primeiro álbum de estúdio aborda temáticas mais sérias e mostra que, mesmo de forma divertida, existe uma maior maturidade na banda de Brighton. Cómicos e críticos, os Squid enchem as suas músicas de uma criatividade exuberante, ao mesmo tempo que exploram tonalidades mais estranhas e frenéticas. É nestes riffs que inicialmente custam a entrar no ouvido que nasce um fascínio pelo diferente, presente nesta loucura conjunta. Os pensamentos efusivos de raiva misturados com humor são-nos atirados de forma desconcertante, sempre acompanhados por melodias com fortes inspirações em jazz, funk, krautrock e punk. Existe uma vontade em querer expor-nos à sua vulnerabilidade, nunca deixando de parte a potência nas suas cordas e riffs dilacerantes. É um protesto sarcástico feito de uma forma tão livre e espontânea que chega a ser inspirador. Aqui não há estruturas certas nas melodias, deixando claro que eles estão em total controlo da sua arte.

 

Sons of Kemet – Black to the Future

Uma ode visionária à cultura africana que soldou distintivos culturais, cosmologia, free jazz, sonoridades afro-caribenhas e Ethiopian jazz, para o construir de um disco poderoso que deixa um aftertaste psicadélico. Os títulos das faixas compõem um poema a propósito do tema inesquecível do colonialismo e daquela que é a força motora deste álbum. Sons of Kemet encontram-se aqui com os grandes nomes de Joshua Idehen, Moor Mother, Kojey Radical, D Double E e Angel Bat Dawid, intensificando ainda mais o estalar da chama que alimenta Black to the Future, cada um a marcar a sua presença com a veemência e riqueza que atiraram este disco ainda mais para fora da caixa. Diligentemente incendiário nas letras, o instrumental flui sem restrições, melodicamente preenchido pela beleza da imprevisibilidade do movimento. É um elogio às raízes do ritmo.

 

Teis Semey – Mean Mean Machine

Eufórico e virtuosístico, Mean Mean Machine é a catarse do seu género intemporal quando mais precisávamos dela. Uma fusão do jazz com punk, manchas de indie e adornado pela temática escandinava, a criatividade desalgemada de Teis Semey desdobra-se aqui com um detonar rítmico insano e uma interação instrumental tight a dar ares de improv. Desde o quase dançável, vigoroso ou extático, ao abrandar do humor em direção ao cabalístico, a abrir espaço para uma abordagem mais tradicional sempre que o ambiente assim precise, aqui se reduz em suma um poderoso disco de jazz moderno que nos suga a atenção.

 

Temple Fang – Fang Temple

Os Temple Fang são um autêntico mito urbano. Apesar de uma carreira ainda recente, ganharam este estatuto de culto com o passa a palavra de quem os foi apanhando ao vivo. Assumem-se claramente como uma banda para experienciar ao vivo e nunca tiveram interesse em lançamentos de estúdio, pelo que até agora era quase impossível encontrar algo deles online, muito menos em formato físico. Com a vinda da pandemia, os concertos ao vivo ficaram suspensos e a banda esteve a um fio de desistir. Em pleno confinamento, seguiram também a ideia de uma transmissão em stream para os fãs e foi aí que o seu técnico de som decidiu, secretamente, gravar a performance da banda. Foi assim então possível convencer este grupo neerlandês a utilizar este material para a construção do seu primeiro trabalho de estúdio, que no entanto segue a premissa do grupo, uma vez que todos os elementos foram captados numa atuação ao vivo. Nesta estreia justificam o porquê de tanto burburinho, conseguindo transpor a atmosfera levitante que criam com o público. A banda assume também este disco como um presente para os fãs, uma vez que com a saída do baterista, recusam a ideia de voltar a tocar este material. Não é um ponto final no ciclo, é apenas o começo do que de bom ainda está para vir.

 

The Armed – Ultrapop

Existem discos que chegam de forma tão inesperada que demora um certo tempo para os assimilarmos. E Ultrapop faz isso de uma forma tão caótica que acaba por ser uma expressão artística sem igual. A natureza heavy metal e screamo estão lá bem vincadas, mas este quarto álbum dos The Armed mostra quebrar todos os conceitos predefinidos do que isso possa significar. As músicas sofrem variações extremas de estilo, género e melodia, deixando o ouvinte refém das vontades da banda de Detroit. Porém, isso é feito de forma tão magistral que nos questionamos como é possível coabitarem tantas diferenças que se completem tão bem. Cada faixa vai aparecer por surpresa, umas mais brandas, outras com os riffs em alta velocidade. E se estamos cada vez mais à procura de experiências marcantes, esta é uma delas. Ultrapop quebra todas as expectativas do que é um álbum heavy. A única coisa que se pode esperar é muito black metal, noise, fuzz, hardcore, punk e até – como o nome do álbum revela – pop, mesmo em doses certas. É a materialização de um concerto numa cave escura com o volume no máximo que impossibilita o corpo de permanecer quieto.

 

The Bug – Fire

A verdade não pode ser negada: Fire, para além de ser uma das melhores propostas que Kevin Martin lançou enquanto The Bug, é também um dos mais selvagens e ruidosos discos que 2021 viu nascer. Mais do que simples música, deverá ser descrito como um testamento sonoro de toda a incerteza e frustração acumuladas durante a pandemia. O que aqui se escuta, e acima de tudo se sente, com os ouvidos e a alma a serem punidos por batidas que mais parecem balas a perfurar a pele, é eletrónica implacável, descontrolada e doentia, ora um pouco mais dançável (“Demon”, por exemplo) ora mais arrastada. Mas o que realmente impressiona é a maneira como Kevin – esse eterno anarquista musical capaz de agregar universos distintos nos seus discos, como prova a lista de convidados que vai desde o britânico flowdan ao jamaicano Nazamba – conseguiu recriar em estúdio a intensidade ensurdecedora dos seus concertos, e quem o viu no Milhões de Festa sabe muito bem do que falamos. “Bomb” é talvez a faixa que melhor resume este sentimento, uma descarga esmagadora de sons alarmantes no máximo da potência, que absorvida com bons auscultadores ou colunas revela-se, tal como o resto do disco, surrealmente avassaladora.

 

Turnstile – Glow On

Por alguns fãs de hardcore pode ter sido apelidado de “muito soft”, mas por outros foi tocado repetitivamente até à exaustão. Em 2021, Glow On não passou despercebido: foi mestre de vendas, elevou o nome dos norte-americanos Turnstile até aos melhores do ano e provou que a simplicidade pode, sim, levar um trabalho muito longe. Num álbum de apenas 35 minutos, o resultado é uma mastigação de synth, hardcore, indie, alt-rock e punk, o que torna este disco tão acessível a pessoas com diferentes backgrounds musicais. São os hooks fortes, a forte bagagem emocional nas letras e o estilo meio groovy, meio funky (mas sempre pesado!) que fazem com que a audição de Glow On seja um rápido mood booster em qualquer situação. É fácil deixar o disco tocar do início ao fim, já que as músicas (com pequenos ajustes de ritmo) se complementam numa espécie de mixtape ou jam que nos é atirada sem momentos mortos. Apesar de não ser um álbum que tenta redefinir o género musical e que não luta por ser “fora da caixa”, é a sua forte consistência e um espírito quase laid-back que o destaca entre os grandes. E enquanto esperamos para experienciar este disco ao vivo, há que continuar a rodá-lo para sentir alegria neste head banging constante. É, sem dúvida, um disco que se sentirá sempre refrescante a cada audição.

 

Artigo elaborado por Beatriz Fontes, Bruno Pereira, Catarina Nascimento, João “Mislow” Almeida, João Rocha, Jorge Alves, José Garcia, Nuno Teixeira, Pedro Sarmento.

Por Wav / 18 Janeiro, 2022

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