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Overall Dezembro 2020 | Janeiro 2021

15 de Fevereiro, 2021 ListasWav

Sem qualquer ordem, a não ser alfabética, apresentamos os discos lançados em dezembro de 2020 e janeiro de 2021 que mais marcaram a nossa redação.

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Overall Fevereiro 2021

Os 15 melhores álbuns nacionais de 2020

(Dezembro)


astronoid-album-coverBlack Wing - No Moon (The Flenser)


Absorto na sua placidez, e pautado por compulsões de uma exuberância forte, No Moon traz consigo um andamento contínuo em direção a uma sensação duradoura de liberação com um sabor cinematográfico. A receita inclui eletrónica, uma presença post-punk e influências de darkwave, bem como um trabalho na produção que veio potencializar a eficácia da harmonia das faixas, proporcionando-lhes o brilho que aqui sentimos. Este disco respeita o estilo de composição de Dan Barrett e sua autenticidade emocional, aliada a letras que ruminam no isolamento, emoção extraída diretamente das consequências da crise pandémica, enquanto o instrumental deixa espaço para algum tipo de consolação. Na sua dreaminess palpitante, os beats cultivam uma euforia quase tátil e uma beleza compassiva que dão a este disco o seu encanto. No Moon desembrulha-se perante nós num espetáculo de luzes estimulante e inspirador. - BF



 

 

Beirut-GallipoliGreen Druid - At the Maw of Ruin (Earache)


Um elogio tenaz ao desespero, com um tema dominante de cólera que acompanha todo o álbum, vemos em At the Maw of Ruin que Green Druid não se pouparam na brutalidade subterrânea oscilante que lhes é marca de nascença. Carrega consigo prostração, uma postura de descrença que é tangível desde o primeiro meio minuto da primeira faixa. Sente-se a condensação de um calor infernal em torno daquele psicadelismo nublado e do funeral doom amargo, enquanto o sludge se vai colando aqui e ali. No meio do rosnar do fuzz, denso o suficiente para se tornar o hipocentro de um terramoto, ouvem-se de perto as cordas do baixo, cheio de um balanço nasty, a entornar groove. Entretanto, os vocais seguem uma dinâmica oscilante entre o rouco, o pesado e de longo alcance, cleans taciturnos, e um recitar ofegante, grave que nos sussurra previsões fatalistas. Este disco transborda riffs imponentes, e é através deles que acontece a rutura total que nos engole inteiros. Sendo um disco que chama pelos earworms, não podemos evitar encontrá-los novamente, no meio das ossadas e dos destroços. - BF



 

 

Boy-Harsher-CarefulKelly Moran/Prurient - Chain Reaction at Dusk (Hospital Productions)


Mestres na arte da desconstrução musical e exploração eletrónica sem barreiras, Kelly Moran e Prurient decidiram juntar forças para nos mostrar como as suas sensibilidades artísticas são ao mesmo tempo distintas e maravilhosamente compatíveis, reunindo neste split um conjunto de temas que funcionam como um todo e que parecem estar intimamente ligados, como se um soubesse instintivamente o que o outro ia eventualmente criar. Do  lado de Kelly temos o habitual mergulho nas possibilidades sónicas do piano preparado, com a artista sediada em Brooklyn a instalar uma sofisticada panóplia de emoções – do mais psicadélico, luminoso e colorido em “Helix III” ao mais celestial, com algo de inquietante, em “Hymn”; já Prurient complementa o ecletismo e a complexidade emocional da sua “companheira” com sons tão frenéticos, tão negros e cerebrais que nem sabemos bem o que nos atingiu – há uma dose  devastadora de noise que nos invade a alma e nos transforma de forma irreversível (como não, com um tema tão perturbador como “Tokyo Exorcist”, que podia muito bem ser incluído no mais marado filme de terror?). Entre a luz e a escuridão vive pacificamente este disco, uma obra que respira a mais pura liberdade criativa e que brilha no modo como proporciona uma sublime viagem de sensações. - JA



 

 

Candlemass-The-Door-To-DoomMohama Saz - Quemar las Naves (Humo International)


De instrumentos apontados a um contagiante, colorido, delirado e excitante psychedelic rock – polvilhado com condimentos mediterrânicos e ventilado por um dançante, arenoso, majestoso e fascinante world music de deslumbrante inspiração turca – este quarto álbum do quinteto hispânico não poderia ser mais do meu agrado. De coração a transbordar devoção, pés descalços trilhando as aveludadas, finas e bronzeadas areias de protuberantes dunas que se empolam no vasto oceano desértico, e olhos içados no longínquo firmamento fervilhado pelo intenso bafo de um Sol febril, somos gravitados de encontro à paradísica Babilónia com os seus imponentes, arvorados e verdejantes jardins suspensos. Toda uma nirvânica digressão de afago sensorial e alimento espiritual que nos absorve, extasia e revolve num miraculoso ritual. São 35 minutos de uma quimérica liturgia que nos purifica a alma e reveste o olhar com uma expressão sonhadora. Quemar las Naves é uma obra verdadeiramente deífica que nos banha de uma intensa luzência trigueira e promove a deserção da consciência pelas eternas planuras da religiosidade. - NT
(Lê a review completa a este disco no blog El Coyote)



 

 

Dream-Theater-Distance-Over-TimeMoor Mother & billy woods - BRASS (Backwoodz)


Eis as duas forças gravitacionais do nosso atual underground hip-hop. billy woods, Nova Iorque, junta-se a Camae Ayewa aka Moor Mother, de Philadelphia, para promulgar uma continuidade ao ponto de encontro que se deu num single para a Adult Swim. Mesmo visto por muitos como uma colaboração mais rapidamente rotulada como improvável do que destinada, a verdade é que a química entre estes dois transcende limites. BRASS é traduzido numa panorâmica tela despida que vai ganhando, e de forma bem reluzente, camadas intermináveis de cor, vida, mágoa, tudo no âmago da descrição do quotidiano. A produção, tão ampla quanto condensada, navega pelos tribalismos do afrofuturismo de Moor Mother, com a nostálgica approach de billy no boom-bap dos 90’s. Com arrebatadoras mutações ao soul, gospel, battle rap, o disco conta ainda com contribuições espantosas por parte de Wolf Weston, Amirtha Kidambi e Imani Robinson, Navy Blue, John Forté, Franklin James Fisher (Algiers). O produto final ressoa com uma aura que só conseguimos encontrar num Madvillainy, Mezzanine ou até mesmo Diamond Life. BRASS! - JMA



 

 

Fange-PunirOh Sees - Panther Rotate (Castle Face)


Panther Rotate é lançado no mês de dezembro ao lado de Weirdo Hairdo, com o ano de 2020 a contar com três outros discos de Oh Sees. Com uma capacidade feroz para reinventarem a excentricidade que nos faz gostar deles, cada um dos seus discos reflete uma imagem caricata e única, dando à discografia da banda o efeito de uma casa de espelhos. Carnavalesco na sua vontade, Panther Rotate é um lugar colorido, alienado e delirante, com dinamismo entre o entusiasmo energético e a suspensão na perplexidade melódica do mundo que criaram. É aqui uma espécie de colagem feita de gravações que tinham no inventário, construída com ênfase na experiência artística onde, em momentos, quase se aproxima de uma linha-guia Dada. No meio da eletrónica, do ambient, do garage e da neopsicadelia nota-se o jazz e o blues. A rebentar pelas costuras no groove, articulam um cenário muito próximo daquele que a capa do álbum pretende sugerir: um país das maravilhas psicadélico envolvente, pintado com detalhes feitos para descobrir e surpreender, com a necessária quota-parte de boa disposição. - BF



 

 

Fange-PunirPoppy - A Very Poppy Christmas (Sumerian)


Há algo de profundamente engraçado e intrigante na ideia de ver Poppy criar um EP de canções de Natal, mas foi mesmo isso que a artista fez após ter sido desafiada no Twitter – faz sentido, ela própria é também um produto da era digital, tendo-se apresentado ao mundo como uma youtuber particularmente original. Mais curioso é saber que este trabalho foi composto ao longo de um só dia, em pleno mês de julho, mas isso serve para enfatizar ainda mais o caráter insólito, e simultaneamente fascinante, de uma das mais interessantes e relevantes figuras da música atual. Posto isto, encontramos nesta sui generis coleção de quatro temas uma sonoridade que caminha entre a folk doce e a pop sonhadora, que se reveste de um espírito inegavelmente natalício, como se Poppy estivesse junto a uma lareira a cantar para nós, mas que jamais abandona aquele toque inconfundível que sempre a definiu. No fundo, um EP tradicional feito de forma atípica, bem menos pesado que o recente álbum I Disagree (como já era de esperar), mas que deixa claro que a criatividade de Poppy permanece bem acesa. É também impressionante o modo como estas composições ainda soam mágicas mesmo fora da época para a qual foram criadas, talvez por estarmos todos a precisar de paz e harmonia nestes tempos confusos e medonhos, de certa forma… - JA



 

 

Fange-PunirSpine - L.O.V. (Bridge 9) 


Dois anos depois do furiosamente abraçado Faith, o quarteto de Chicago e Dallas City está de volta com mais uma dose de adrenalina em forma de urgência, distorção, peso e arruaceira corrida. L.O.V. dificilmente poderá ser considerado um álbum proper, tendo em conta que conta nove faixas nuns espantosos nove minutos. A média de um minuto por música merece uma boa anotação por quem gosta de música furiosa, num formato curto e grosso, mas o que conta não é só a ideia do hardcore rápido e portentoso. A execução em si é realmente muito assoladora. E como tal, se há quem tenha muita coisa acumulada dentro de si, esta parece ser a soundtrack ideal para explodir. - JMA



 

(Janeiro)


 

Beirut-GallipoliArca - Madre (XL)


Que Arca é uma das mais versáteis figuras no panorama musical contemporâneo há muito que já se sabia, mas nunca antes a tínhamos visto tão deliciosamente íntima como neste conjunto de quatro variações da mesma canção, nem mesmo no fabuloso “despir de alma” que foi o álbum homónimo de 2017. Oliver Coates é o único convidado e aparece no maravilhoso tema de abertura em que a voz de Arca se faz acompanhar do violoncelo, pois estamos perante uma proposta extremamente pessoal, por vezes de forma dolorosa: escute-se o momento em que canta “acappella” – o tom frágil a revelar uma alma que parece estar prestes a quebrar por se encontrar no limite do registo confessional – para se perceber como esta belíssima ode à mãe também carrega o peso de antigas recordações traumáticas. Visualizamos a figura da progenitora através de pormenorizadas descrições de uma extraordinária, quase fantasiosa beleza física – os cabelos como cataratas, os lábios pintados de um vermelho sangrento –, mas também descobrimos que Arca a perdoa e que ela foi mais do que suficiente. Há arrependimento, mágoa, mas também a sugestão de que o amor incondicional, forte e eterno, supera tudo. É exatamente aí que reside o encanto de Madre, no modo como carrega consigo uma ambivalência fascinante e complexa, assumindo-se como uma peça poética e melancólica, no qual as memórias das canções entoadas pelos camponeses da Venezuela (as tonadas) parecem ser conscientemente evocadas. - JA



 

 

astronoid-album-coverArlo ParksCollapsed In Sunbeams (Transgressive)


Collapsed in Sunbeams é um álbum indie soul movido por empatia. É a voz quente, esfumada e sedosa de Arlo Parks que nos conta histórias sobre situações desconfortáveis, erros repetidos, dúvida, pequenos prazeres, a injustiça incontrolável e o ridículo de tudo o que isso implica, cobertas por uma névoa dream pop. Pegou na honestidade fria de Londres e digeriu-a em letras docemente humanizadoras, tendo como cenário um disco onde quem tem o controlo é o groove, com uma veia old school e agitado por um enlevo soft rock. O disco de estreia de Arlo Parks é um espaço ocupado por tudo o que é agradável, pelo balanço delicado de cada instrumento ou por cada beat aveludado. É produzido para ser uma injeção de serotonina, e consegue muito bem sê-lo. - BF



 

 

Beirut-GallipoliAshnikkoDemidevil (Parlophone)


Ashnikko é o alter ego de Ashton Nicole Casey, que com esta mixtape prova que tem tudo para se tornar numa das maiores estrelas da pop feminina. O seu percurso faz com que seja praticamente impossível não a comparar a Poppy – ambas ganharam fama através da Internet (Poppy com o seu canal de Youtube, Ashnikko quando usou o TikTok para se tornar viral), e ambas apostam num visual propositadamente diferente, numa rutura com a visão tradicional de beleza feminina imposta pela sociedade; ainda assim, não se pense que estamos perante uma insípida cópia, pois o potencial desta miúda é real, é surpreendente e faz com que não precise de se agarrar a outras estrelas para conseguir brilhar. Canta com uma urgência emocional comovente, como se a sua mensagem frontal, por vezes bastante sexualizada, de empoderamento feminino não pudesse esperar por amanhã e tivesse de ser escutada agora. Musicalmente situa-se no universo da bubblegum pop, mas ocasionalmente foge para outros territórios, como quando decide referenciar o legado do nu-metal na companhia da amiga Grimes em “Cry”, ou quando envereda pelos caminhos do pop punk e pisca o olho aos Paramore na catchy “L8r Boi” – isto para não falar nas inúmeras cartas de amor ao hip-hop (Princess Nokia é, aliás, uma das três mulheres convidadas neste disco) aqui presentes. Resumindo, pop  “elástica” e insólita, feita para a Geração Z e orgulhosamente feminista, que nos mostra os possíveis caminhos que o género poderá no futuro tomar. - JA



 

 

astronoid-album-coverColossoHateworlds (Gruesome)


Fantástica esta nova proposta do projeto de Max Tomé, aqui novamente a contar com os serviços de Dirk Verbeuren (Megadeth) na bateria para nos oferecer uma bela sessão de death metal moderno e pujante. Abrir o disco com um tema como “Graveyards” revela, desde logo, uma inteligência exemplar que muitas outras bandas deviam honestamente adotar, pois trata-se de uma malha super irresistível que cumpre exatamente o papel de um tema de abertura – conquistar a nossa atenção e deixar-nos ansiosos para absorver o resto. É também logo aí que se nota a influência de Fear Factory, pelo cruzamento entre agressividade maquinal e melodias orelhudas há muito popularizado pelos autores de Demanufacture; são vários, na verdade, os momentos em que essa homenagem se faz sentir, como no riff inicial de “Faceless” ou no refrão de “Cleansing”, cuja estrutura remete para os ambientes de um clássico como “Self Bias Resistor”. Toda esta obra constitui, aliás, um tributo às bandas de metal que mais o marcaram, uma espécie de coleção de memórias juvenis onde se recorda ainda o legado dos Sepultura (as vozes agressivas fazem mesmo pensar no tom animalesco de Max Cavalera), o dos Decapitated e mesmo o dos Gojira – pela atmosfera pesada, densa e de feeling prog. Um álbum assumidamente derivativo mas fortíssimo a nível de composição, enriquecido pelas participações de Marco Silva (Pitch Black) e Miguel Inglês dos Equaleft e companheiro de Max nos Octopod.  - JA



 

 

Fange-PunirEmma Ruth Rundle & ThouThe Helm of Sorrow (Sacred Bones)


O sucessor tão necessário de uma colaboração improvável. A partilhar muitas das qualidades que vimos aparecer em May Our Chambers Be Full, este EP aparece numa espécie de encore para matar a sede que ficou. Apresenta-se num efeito de cascata com o vibrar de notas sorumbáticas que o uivo de lamentação de Emma Ruth Rundle segue. A pulsação acelera e dá-se o primeiro puxão. É o instrumental ostensivo de Thou, com toda a sua glória e obscenidade sludge e com toda a sua abundância de riffs doom com intenções masoquistas, com as intuições melódicas maleáveis e quentes de Emma Ruth Rundle. Encontramos em The Helm of Sorrow um instrumental cavernoso em constante evolução, com feedbacks agressivos que estão lá para pôr tudo a ferver mais, e passagens que agem numa sucessão de trambolhões que vão em direção a novas e várias formas de rutura. Encontra-se também o tom maduro e cristalizado de Emma Ruth a coabitar com o berro em carne viva de Bryan Funck. É aqui que a palavra “genial” parece bem usada. É um daqueles discos em que, independentemente do canto para onde se direcione a nossa atenção, vemos que cada elemento soa deslumbrante só por si, o que torna este projeto o monstro delirante que realmente é. - BF



 

 

Fange-PunirGatecreeper - An Unexpected Reality (Closed Casket Activities)


Depois de Sonoran Depravation e Deserted, os desertos quentes do Arizona continuam a fazer render. Com mais ou menos saturação dos holofotes do OSDM, aqui a iluminação ganha um tom ligeiramente diferente e em menos de vinte minutos revelam-se facetas inesperadas. Os primeiros sete temas podem incluir-se numa “formal experiment”, onde um death metal fiel se deixa levar pelo grind e pelo core. O ritmo acelera, mas a voz cavernosa e os muddy riffs não se comprometem. Na segunda parte do EP, um tema de onze minutos com potencial para se tornar um tributo a alguns dos clássicos atinge-nos com o seu super-juicy-epic-death/doom-to-the-bone. Alinhada com o título e o artwork de Illogical Comics vos digo: menos expectativas, mais disto. Vão lá ouvir. - AT



 

 

Fange-PunirHere Lies Man - Ritual Divination (Riding Easy)


Fervido num majestoso, litúrgico, enigmático e imperioso proto-doom maquilhado a encarvoadas, demonizadas e espessas ressonâncias Black Sabbath’icas, profusamente apimentado por um dançante, tribalista, ritualista e empolgante zamrock trauteado a contagiante ritmo afrobeat, e ainda colorido por um lustroso, carnavalesco, afrodisíaco e fogoso heavy psych de efervescência vulcânica, Ritual Divination embala o ouvinte num psicotrópico, emocionante, magnetizante e caleidoscópico safari de afago e imersão sensorial. De olhos revirados, corpo serpenteante, sentidos centrifugados e endorfinas em sónica debandada, somos enfeitiçados pelas extravagantes praxes tribais de Here Lies Man. Ritual Divination é uma euforizante, estonteante e endiabrada montanha-russa pela savana africana. Uma selvática combustão que nos empolga os sentidos e sacode numa imperturbável dança climatizada a transe religiosa. Permitam-se servir de cobaias neste místico voodoo superiormente cerimoniado pelos indígenas citadinos, e vivenciem numa incessante fascinação e transbordante devoção todo o erotismo transpirado pelos Here Lies Man. - NT
(Lê a review completa a este disco no blog El Coyote)



 

 

astronoid-album-coverNeedlepoint - Walking Up That Valley (Stickman)


Walking Up That Valley irradia um melodioso, bucólico, estético e meloso progressive rock de carismático sotaque Canterbury’esco em alegre e dialogante consonância com um requintado, esplendoroso, envolvente e adornado jazz rock de odor vintage, e ainda um ensolarado, bem-disposto, contagiante e aromatizado psychedelic pop de coloração sessentista. A sua mágica sonoridade é lavrada, desabrochada e sulfatada por uma aura fabular de poder consolador – e inspiração subtraída a emblemáticas referências dos géneros tais como Emerson, Lake & Palmer, Genesis, Camel, Caravan, King Crimson e Soft Machine – que massaja e encanta o ouvinte com joviais, primaveris e estivais baladas que o inundam de uma castidade cristalina e florescem no seu imaginário todo um esverdeado, refrescante e aveludado tapete campesino, estriado por marulhantes riachos de águas translúcidas e vigidos por amplos céus manchados de um forte azul turquesa, que se desdobra na longínqua direção de um Sol calmoso, profético e lustroso. Percam-se e encontrem-se pelos meandros deste labiríntico jardim do Éden, e vivenciem com cega e devota sedução todo o esplendor deste registo magistral, pincelado a torrencial beleza, relaxada ternura e detalhada subtileza. - NT
(Lê a review completa a este disco no blog El Coyote)



 

 

Beirut-GallipoliPortrayal of Guilt - We Are Always Alone (Closed Casket Activities)


Três anos após a muito aclamada estreia em formato álbum, o trio texano Portrayal of Guilt está de volta com o seu segundo disco de originais, We Are Always Alone. Contando mais uma vez com a contribuição de Phil Odom na produção do disco, presença pontual no EP que antecipou este lançamento, é justo dizer que, em termos sonoros, o trio cresceu estrondosamente. A atmosfera, a neblina, e todo o muro de som que envolve a esmagadora precisão do disco sente-se de forma tão física e assoladora. Dito isto, é graças a essa compressão que se começa a tornar inevitável a mutação dos limites entre o screamo com o black metal puro e duro. A verdade é que há poucas bandas que o tenham conseguido fazer de forma tão lúcida e propositada, sem que nesse processo se perca realmente a forma de identidade. We Are Always Alone é, por isso, o disco mais pesado que a banda já lançou até hoje. - JMA



 

 

Boy-Harsher-CarefulRostro del Sol - Rostro del Sol (LSDR)


Este primeiro passo discográfico de Rostro del Sol traz-nos um colorido, perfumado e caleidoscópico sortido sonoro de onde se identifica e degusta um delirante, excitante e tropical psychedelic rock, um serpenteante, enfeitiçante e triunfal progressive rock e ainda um sumptuoso, aparatoso e orquestral jazz rock. Combinando o exótico virtuosismo de Jimi Hendrix e Carlos Santana com a carnavalesca vitalidade de uns Mogul Thrash, a aventurosa sagacidade de Soft Machine e Mahavishnu Orchestra, o arejado misticismo jazzístico de Sweet Smoke, e ainda com o abstracto cabaret domesticado pelo Frank Zappa, esta irretocável, caprichosa e venerável obra representa um imaculado tributo aos lisérgicos anos 60 e 70. Contando ainda com destemidas incursões pelos territórios de um sinuoso, principesco e majestoso blues, e de um fogoso, ritmado e suado funk, a sua sonoridade camaleónica, afrodisíaca, veraneante e prismática desdobra-se numa instrumentação habilmente elaborada que envolve e revolve a alma do ouvinte numa arborizada teia de sonhos. - NT
(Lê a review completa a este disco no blog El Coyote)



 

 

Candlemass-The-Door-To-DoomSímio - Hominoid


Saltam para o cenário português com a rigidez e ânimo que se quer num palco. O habitat natural é Viana do Castelo, de onde os Símio se apresentam com um disco que faz por falar sobre nós, hominídeos perigosos e caóticos que por aqui deambulamos, e que nos simplifica sinceramente e com sentido de humor.  Entre uma progressão inquieta e prodigiosa, de contorções matemáticas que nos deixam sem palavras, está uma produção feita para atacar, para aliciar e para fazer a carapuça servir. Arrebatador desde o primeiro segundo, é sludge de cunhagem própria. Hominoid está feito de avalanches de riffs troantes assentes numa distorção com uma potência primitiva, elevações radiantes e uma execução emotiva contagiante. Sente-se aqui uma tensão libertadora palpável, onde Hominoid é presságio entusiasmante, com vida própria. - BF



 

 

astronoid-album-coverSleaford Mods - Spare Ribs (Rough Trade)


Verdadeiro exemplo de uma banda única que soube construir o seu próprio imaginário, os Sleaford Mods têm neste Spare Ribs não só um dos melhores discos da sua carreira, como um dos mais excitantes que 2021 até agora ofereceu. Não que inovem de forma grandiosa, pode até dizer-se que se “limitam” a criar variações de uma identidade há muito consolidada, mas o resultado é incrivelmente excitante, dinâmico e viciante. Há algo de profundamente apaixonante na força que estas treze composições carregam, um sentimento puro de descontentamento proferido com um misto de indignação e sarcasmo por parte de Jason Williamson, voz inconformada da classe trabalhadora que denuncia os males da sociedade capitalista sem papas na língua; é essa honestidade frontal, por vezes meio grosseira, que tanto comove, que tanto inspira – e como não? Quando, em “Top Room” ouvimos Jason desabafar “Online food and distancing, I felt like shit”, sentimos uma poderosa empatia, sentimos que os Sleaford Mods são gajos que entendem as frustrações do povo, o desespero que a todos afeta. E depois há a música, aquele som intenso e minimalista, de batidas particularmente cheias e baixos robustos – é post-punk à The Fall, mas sem guitarras. Com convidados como Amy Taylor (dos fantásticos Amyl and the Sniffers) e Billy Nomates, os Sleaford Mods brilham ao cuspir observações cruas num formato dançável. - JA



 

 

Beirut-GallipoliThe Body - I’ve Seen All I Need to See (Thrill Jockey)


O que esperar de um disco que é descrito pelos seus próprios criadores como uma tentativa de explorar os limites do estúdio? Acima de tudo, o que esperar quando essa afirmação é proferida por uma das mais intensas e musicalmente insanas duplas dos últimos vinte anos? Brutalidade extrema, claro, aqui a chegar a níveis surpreendentemente transcendentes e estranhamente belos. Tendo-se reduzido ao essencial – ou seja, Chip King e Lee Buford a operarem sozinhos em vez de se juntarem a mais alguém – conseguiram reproduzir a sufocante onda de ruído negro e caótico que instalam sempre que sobem a um palco, como se o disco fosse uma espécie de encenação sonora do ambiente que se respira num concerto dos The Body. Os gritos/uivos de King que aqui se ouvem são arrepiantes e chegam mesmo a provocar desconforto no modo como sugerem uma agonia com a qual nem sempre é possível lidar, ao passo que as guitarras soam sinistras e pesadas e a bateria marca o compasso desta doentia banda sonora – curiosamente bem próxima da realidade assustadora que hoje vivemos, tão desconfortável como estas oito composições de doom/sludge apoiadas numa base eletrónica noisy. Não é fácil de ouvir; até para ouvidos mais experientes esta proposta requer breves pausas para recuperar o fôlego, mas a experiência final, acreditem, é soberba e gratificante. - JA



 

 

Boy-Harsher-CarefulTribulation - Where the Gloom Becomes Sound (Century Media)


Where the Gloom Becomes Sound, quinto álbum dos suecos Tribulation, é uma caixinha de surpresas, mais más que boas. Se com Children of the Night e Down Below, Tribulation romperam laços com o seu death metal corriqueiro em prol de uma mescla mais eclética de heavy metal e goth rock, aqui a experimentação dá uma guinada na direção errada. “In Remembrance”, promissora primeira faixa, é cerrada e sombria, fundindo o black metal de uns Watain com pinceladas contrastantes de heavy e power metal. Já “Daughter of the Djinn” conta com um extenso e excelente solo de guitarras à la Iron Maiden, cortesia dos guitarristas Jonathan Hultén e Adam Zaars, cujo jogo de cintura faz muito do heavy lifting ao longo deste álbum, destacando-se particularmente em “Dirge of a Dying Soul”, uma quase-marcha fúnebre cujo contraponto musical puxa à memória uma partita barroca. Infelizmente, o resto do álbum é perfeitamente descartável. Em “Hour of the Wolf”, talvez a faixa mais ignóbil, letras cliché e de cadência coxa sobrepõem-se a um autêntico slogfest interminável que pode mesmo levar a enxaqueca. Este álbum também tem a honra dúbia de ser o último a contar com a presença de Hultén. Uma despedida um pouco anticlimática, portanto. - HM



 

 

Candlemass-The-Door-To-DoomYu Su - Yellow River Blue (bié)


É verdadeiramente intrigante este álbum de estreia de Yu Su, artista chinesa atualmente sediada em Vancouver que se dedica à exploração das possibilidades sonoras e emocionais da eletrónica. O título referencia o Rio Amarelo, o segundo mais longo da China, mas essa influência vai muito além da mera sugestão visual, invadindo igualmente a atmosfera destas oito composições: há algo nelas que faz com que pareçam estar sempre em movimento, seguindo o seu caminho de forma ininterrupta, como se buscassem algo concreto e simultaneamente inatingível. Por vezes essa “viagem”, tal como o percurso de um rio, é fluida e orgânica – “Touch-Me-Not” é a música que mais coloca essa imagem na nossa cabeça, transportando-nos imediatamente para um lugar idílico onde permanecemos em perfeita comunhão com a natureza –, mas noutras alturas o clima torna-se mais inquietante e imprevisível. Exemplo disso é “Klein”, uma faixa experimental e bizarra, com batidas a evocar o mais negro do universo do trip hop, onde surgem vozes longínquas mas omnipresentes que ilustram um sentimento oriental já antes visível em “Xiu”, o pulsante tema de abertura onde uma batida luminosa é decorada com sons de instrumentos tradicionais chineses. Entre o ambient dub, o house e uma terna sensibilidade pop, entre o dançável e o contemplativo (por vezes recordando Kelly Lee Owens, com quem partilha uma ocasional onda sonora terapêutica) reside a magia de Yu Su. - JA



 

 

Dream-Theater-Distance-Over-TimeWardruna - Kvitravn (Indie)


Neste álbum, já o quinto dos noruegueses Wardruna, o grupo liderado pelo compositor e multi-instrumentalista Einar Selvik continua a deslumbrar-nos com a sua patente mescla de folk, pagan, ambient e drone. É inegável que o pagão e o esotérico têm gozado de uma certa ressurgência no mundo da música, com inúmeras bandas a lançarem-se ao bife numa tentativa de capitalizar sobre esta nova trend. Mas o que distingue Wardruna de muitos dos outros pretendentes é que nunca caem na armadilha do kitsch ou da autoparódia, sempre a surpreender com a crueza emocional e com uma autenticidade que os faz tão mais que a competição. Em “Synkverv”, a primeira faixa do álbum, a alquimia entre vozes, flautas, guitarras e percussão confere à faixa um carácter mágico, quase élfico. Em “Kvitravn”, a faixa-título, o chio da rabeca junta-se ao rufar de tambores e ao drone xamânico do canto difónico, numa faixa com uma tonalidade marcial, lenta e fúnebre. Já “Skugge” tem um cariz mais animado, fazendo puxar à memória danças em torno de uma fogueira durante um inverno particularmente frio. Em suma, Kvitravn é um álbum que desperta emoções e sensações, que nos enche a cabeça com o cheiro de resina e de terra molhada, com os sons do coaxar do corvo e do rasgar do vento, unindo passado e presente, terreno e etéreo, Homem e natureza. - HM



 

Artigo escrito por: Andreia Teixeira (AT), Beatriz Fontes (BF), Hugo Moreira (HM), João “Mislow” Almeida (JMA), Jorge Alves (JA) e Nuno Teixeira (NT).
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