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Overall Maio 2021

14 de Junho, 2021 ListasWav

Sem qualquer ordem, a não ser alfabética, apresentamos os discos lançados em maio de 2021 que mais marcaram a nossa redação.

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Overall Junho 2021

Overall Março 2021 | Abril 2021

astronoid-album-coverBlack Midi - Cavalcade (Rough Trade)


Quando Black Midi, uma banda de jovens londrinos, começou a aparecer em meados de 2018, o seu jazz rock experimental deu que falar. Agora, com Cavalcade, o quarteto amadureceu, provando que são um nome para recordar. Desse experimentalismo, evoluiu um noise rock meio improvisado, que se sente como um crescendo natural a que assistimos no canto da sala. E tudo isto é orquestrado minuciosamente. Um dos destaques deste disco vai para a transformação dos vocais de Geordie Greep, que, outrora ao estilo de slam poetry, são agora mais melódicos e sensíveis. Mas, mesmo assim, o mais incrível é como esta banda não se prendeu ao que os fez ficar no topo. Em vez disso, agarraram-se a todos os riscos e encaminharam-se para um patamar que nem eles próprios sabem onde vai parar. É música para ficarmos entusiasmados, nunca sabendo bem como a digerir corretamente, deixando sempre um gosto a novidade num mundo surreal e desconcertante. - CN



 

 

Beirut-GallipoliCZN - Commutator (Lovers & Lollypops/Offen Music)


Ritmos hipnóticos, tão dançáveis quanto intensamente espirituais, aliados a uma eletrónica envolvente e misteriosa que lentamente vai construindo a sua teia de sedução. Assim pode ser descrita a nova proposta de CZN, projeto onde os percussionistas João Pais Filipe e Valentina Magaletti se juntam ao produtor Leon Marks para a criação de uma sonoridade simultaneamente ancestral e fortemente futurista, uma espécie de trance tribal que tanto puxa ao movimento como à contemplação. Vive de um minimalismo inebriante, à base de ritmos que se vão repetindo como um mantra e que gradualmente formam densas “esculturas” sonoras, mas revela-se ao mesmo tempo complexa e cheia de pormenores, sendo que quanto mais escutamos estas duas longas peças (cada uma na casa dos dezasseis minutos), mais ricas e apaixonantes nos parecem. Um disco que respira criatividade e paixão, e que não deve ser ignorado por aqueles que procuram música singular, desafiante e orgânica. - JA



 

 

Boy-Harsher-CarefulDunbarrow - III (Blues for the Red Sun)


Repetindo a bem-sucedida receita sonora que – desde a fundação desta banda escandinava – condimenta todas as suas poções, enfeitiçadas a magia negra e borbulhadas num fumegante, ácido e fervilhante caldeirão consumido pela chamejante ebulição, III vem enlutado, inflamado e demonizado por um provocante, cadavérico, despótico e magnetizante proto-doom de estirpe clássica – que coliga a sombria radiação de Black Sabbath com a misantrópica opulência de Pentagram e a ritualística feitiçaria de Witchcraft – e prostrado, mitigado e anoitecido por um envolvente, melancólico, bucólico e plangente dark folk de murcha tonalidade sépia. Contando ainda com rendilhadas, charmosas, aventurosas e elaboradas composições de feições progressivas a fazer recordar a exuberância em desalinho dos britânicos Wishbone Ash, a sonoridade verdadeiramente inquisidora, poderosa, umbrosa e conquistadora deste fantástico, decrépito e erudito III enegrece, empalidece e atemoriza o profanado espírito do ouvinte, como que baixas e pardas nuvens a amontoarem-se de forma opressiva nos carregados céus de um triste, mudo e pesado dia de Outono. Não vai ser nada fácil – ou sequer desejado – desenterrar o nosso corpo dos trevosos abismos de Dunbarrow. Comunguem-no e vivenciem-no com inquebrável assombração e inesgotável devoção. - NT
(Lê a review completa a este disco no blog El Coyote)



 

 

Candlemass-The-Door-To-DoomFiddlehead - Between the Richness (Run for Cover)


Da conjunção de membros de bandas sazonais como Have Heart, Basement e Youth Funeral, surge Between the Richness, o mais recente disco do supergrupo Fiddlehead, que nos traz de volta à essência da nossa juventude. Seja por futuros incertos, amizades ainda em aberto ou amores equivocados, este é um disco com o qual todos nós podemos aprender e relacionar-nos emocionalmente. E apesar de trazer à memória imagens de desgosto e incerteza de tempos passados, o segundo full-length dos Fiddlehead acaba por trazer consigo uma musicalidade reconfortante. Enquanto no anterior Springtime and Blind se denotavam tendências para uma melancolia esperançosa, em Between the Richness predomina um ímpeto leviano traçado por melodias cristalinas e delicadas capazes de animar o mais pesado dos espíritos. O que se mantém intacto é a capacidade da banda para reunir elementos de hardcore, punk e até mesmo pop, fundindo todo o material sob um formato singular onde podemos encontrar de tudo um pouco, sem que extremismos o dominem. Redobra-se, assim, a aposta sobre a lírica carregada de emoção, sonoridades fulgurosas, mas sempre acessíveis, e refrões viciantes que dão vontade de ouvir uma e outra vez mais. - JG



 

 

Dream-Theater-Distance-Over-TimeHIDE - Interior Terror (Dais)


Dois anos após o muito aplaudido Hell is Here, com uma imensidão de faixas soltas, remixes e intervenções ocasionais, esta dupla de Chicago, mais conhecida por HIDE, está de volta com o seu mais recente e assombroso estudo sobre temas como o empoderamento e autonomia individual, bem como a ideia de um “ser” físico e metafísico além do próprio corpo. Sacrificando cada vez mais as suas formas tradicionais de escrita, e simultaneamente abordando mais motivos ao abstrato, ao noise e ao experimental, Interior Terror sobrevive completamente sem qualquer afirmação focada no ritmo. Não é memorável, nem tampouco funcional. É feio, discordante, hipnótico e enfurecido. De igual forma, também o é de forma extraordinariamente íntima, vulnerável e pessoal. Serve como um processo de completa autoexposição por parte dos demónios abstratos e bem concretos que rodeiam a existência não-binária de Heather Gabel. - JMA



 

 

Fange-PunirIceage - Seek Shelter (Mexican Summer)


Poucos devem ter sido aqueles que previram a estrondosa evolução dos Iceage quando os dinamarqueses se estrearam com o punk niilista de New Brigade, mas a verdade é que o coletivo tem vindo gradualmente a expandir os horizontes da sua identidade sonora. Seek Shelter, produzido com a ajuda de Peter Kember (Sonic Boom, Spacemen 3) e Nis Bysted, mergulha sem medo no universo da britpop e do rock clássico (até Rønnenfelt canta num registo refinado e galante), por vezes aproximando-se de grupos como The Verve ou Primal Scream, mas mantendo uma palpável e excitante intensidade emocional que não sacrifica a energia de outrora. “Shelter Song”, tema de abertura que conta com a participação do Gospel Collective de Lisboa (cidade onde o álbum foi também gravado), é um glorioso hino pop que nasceu para ser entoado em grandes arenas, ao passo que “High & Hurt” ameaça ceder a uma tensão punk nunca efetivamente materializada e “Vendetta” carrega o mais puro e sedutor groove, recordando os já mencionados Primal Scream ou os Rolling Stones. No fundo, um disco de uma banda que ainda quer muito rockar, apenas com elegância e maturidade em vez de raiva. - JA



 

 

Fange-PunirJack Harlon & The Dead CrowsThe Magnetic Ridge (Forbidden Place/Psychedelic Salad)


Este novo álbum dos australianos vem ensolarado, nutrido e flamejado por um intoxicante, arenoso, lustroso e eletrizante heavy psych que – de forma indiscreta e fluída – desagua numa bifurcação que separa as paradísicas praias de um deslumbrante, caleidoscópico, hipnótico e purificante psychedelic rock banhado a intensa luzência solar, dos encarvoados pântanos embrumados por um intrigante, trevoso, fibroso e aliciante psychedelic doom de coloração noturna. Sintonizado na mesma frequência dos norte-americanos All Them Witches e King Buffalo, dos germânicos Colour Haze, e ainda dos saudosos canadianos Quest for Fire, o segundo capítulo destes místicos cowboys australianos vem ainda embelezado por arejados, meditativos e aromatizados interlúdios de natureza folky que nos remetem para os solitários desertos do velho oeste. Num perfeito equilíbrio entre a profunda imersão numa morfínica, labiríntica e atordoante hipnose que nos atesta de febril embriaguez, e a enlouquecedora, efervescente e libertadora euforia que nos sobreaquece de um ardor vulcânico e rasga as vestes da lucidez, galopamos as desérticas planícies que se descortinam por entre a densa poeira cósmica deste The Magnetic Ridge completamente absorvidos pela sua feitiçaria xamânica. - NT
(Lê a review completa a este disco no blog El Coyote)



 

 

Fange-PunirJess and The Ancient OnesVertigo (Svart) 


Em Vertigo, o quinteto finlandês de rock psicadélico revisita a fórmula do seu homónimo álbum de estreia – o mesmo que os cimentou como presenças incontornáveis no panorama musical do occult rock, ajudando a preencher o vácuo deixado pelos agora extintos The Devil’s Blood – com algumas fundamentais diferenças. Nomeadamente, os órgãos de Abraham, que até então tinham desempenhado um papel de protagonista, sendo talvez a principal força motriz por detrás da patente sonoridade da banda, assumem aqui um papel mais secundário, continuando a impulsionar a música, sim, mas dando espaço para os restantes instrumentos respirarem e brilharem. Em “Burning of the Velvet Fires”, primeira faixa do álbum, uma melodia exótica nas guitarras e órgão acende o fusível para uma explosão de groove, no que é uma faixa incrivelmente coesa e diversa. Segue-se “World Paranormal”, contrastando fortemente com a sua cavalgada de acordes maiores, puxando à memória o dark cabaret circense de uns The Dresden Dolls. Já “Strange Earth Illusion”, última faixa do álbum, tem um sabor quase Black Sabbath-iano nos seus ritmos fragmentados e harmonias vocais. Há muitos poucos defeitos a apontar a este álbum. Talvez não seja o mais polido ou memorável, sim. Mas até nos seus momentos mais medíocres (e.g., “Love Zombi”), Jess and the Ancient Ones mantêm um groove inexorável. E, afinal, é isso mesmo que se quer. - HM



 

 

astronoid-album-coverJordsjø - Pastoralia (Karisma)


Esta nova obra superiormente musicada pelo dueto enraizado na cidade-capital de Oslo desprende toda uma suavizante, cheirosa e revitalizante frescura nórdica de aura fabular que conserva o ouvinte num perfeito estádio de imperturbável deslumbramento. Norteado por um nostálgico, medieval e bucólico progressive rock de agradável sotaque Canterbury-esco e ornamentado polimento jazzístico, em dialogante harmonia com um reflexivo, idílico e lenitivo folk de esplendor primaveril e com ainda discretas passagens pela música erudita, este arejado, primoroso e sublimado Pastoralia passeia-se elegantemente pelas verdejantes e arborizadas planícies de uma magnificente, romântica e enfeitiçante sonoridade que nos embevece o espírito, desenha um genuíno sorriso no rosto e climatiza o olhar com uma inapagável expressão sonhadora. Com vestígios de carismáticas influências como Popol Vuh, Genesis, Camel, King Crimson, Gentle Giant e Caravan, este irretocável álbum de Jordsjø vive do principesco detalhe, da graciosa subtileza e de uma desarmante beleza. Satisfaçam nele todo o vosso desejo de requinte, e testemunhem toda a inesgotável majestosidade de um dos álbuns mais refinados do ano. - NT
(Lê a review completa a este disco no blog El Coyote)



 

 

Beirut-GallipoliLucid Sins - Cursed! (Totem Cat)


Embrumado e assombrado por enfeitiçantes, outonais, pastorais e intrigantes melodias – encarvoadas a um negrume noturno, melificadas a imersiva melancolia e orientadas a um esotérico ritual – este segundo álbum da talentosa formação enraizada na cidade portuária de Glasgow combina um demoníaco, sombrio, dramático e misterioso proto-doom de enigmáticas ressonâncias Black Sabbath-ianas, com um fluído, aliciante, extravagante e ornamentado classic rock lavrado à boa moda dos britânicos Wishbone Ash, um sumptuoso, deslumbrante, magnetizante e sinuoso progressive rock de inspiração setentista, e ainda um rústico, cerimonioso, umbroso e bucólico Neofolk de feições pagãs. A sua sonoridade heterogénea – trajada a adereços tradicionais e condimentada a uma fragrância vintage – envolve e revolve o ouvinte numa enfeitiçante, druídica, obscura e intoxicante liturgia de adoração ocultista que o magnetiza, eteriza e namora do primeiro ao derradeiro tema. Este é um álbum verdadeiramente excecional – executado a exímia maestria e pincelado a intocável formosura – que em mim imortalizara todo um sentimento de venerada admiração. Ensombrem-se e mistifiquem-se nele. - NT
(Lê a review completa a este disco no blog El Coyote)



 

 

astronoid-album-coverMalaboos Nada Cénico


Oriundos de Viana do Castelo – a mais recentemente reconhecida nova capital da música alternativa –, Malaboos surgem como mais outro nome a sublinhar dessa tão fulgurosa e rejuvenescida cena local. A par de uns Pledge (a conferir mais abaixo), este é outro disco de maio que conta com a assinatura de André Gonçalves (Adrift Studio) no trabalho de produção, mistura e masterização, e, muito graças à expansividade, cor e dinâmica explosiva dos Malaboos, ambos conseguiram aqui um resultado que merece ser gritado ao mundo. Composto por nove faixas de energia crua em forma de math rock, post-rock e post-hardcore, Nada Cénico ganha tanto pelos refrões supra-memoráveis, como em “Corte” ou “Nascente”, quer pela absurda dançabilidade (“Poente” e “TudôNada”) provocada pelas guitarras brilhantes, o baixo contagioso e a intocável performance por parte de Ivo Correia na bateria. Resta dizer que, diante de nós, temos outro inesquecível disco português. - JMA



 

 

Beirut-GallipoliMdou Moctar - Afrique Victime (Matador)


Poucos discos lançados este ano serão tão espantosamente espirituais como o novo trabalho de Mdou Moctar, guitarrista do Níger que é também um dos mais entusiasmantes representantes atuais do chamado desert blues. Evoca conscientemente o legado de lendas como Jimi Hendrix, especialmente na forma como desenha luminosas linhas de guitarra psicadélicas que parecem viajar por si próprias, como se buscassem o inatingível, mas é na maneira como cruza essas influências de inspiração ocidental (entre as quais se inclui igualmente a de Prince) com um delicioso aroma africano que reside a magia assombrosa desta receita, aquilo que lhe confere um toque bem quente e harmonioso. Vislumbra-se aqui uma atmosfera exótica onde melodias viciantes, percussões dinâmicas, cânticos tão emotivos quanto pacíficos ou até sons de animais e pessoas se reúnem numa aconchegante e, muitas vezes, festiva celebração sonora, originando uma experiência profundamente bela e poderosa – dir-se-ia mesmo transcendente. É comum lermos, ou ouvirmos, que os discos constituem “viagens”, mas é exatamente isso que sentimos aqui, quase como se estivéssemos algures no deserto do Saara na companhia de Mdou a absorver estes sons, estas palavras, estes ensinamentos… Obrigatório escutar esta pérola. - JA



 

 

astronoid-album-coverOdraza - Acedia (Godz ov War)


Se com os exímios Esperalem tkane e Rzeczom, os polacos Odraza nos deslumbraram com o inexorável negrume do seu black metal, tecendo comparações óbvias com o DSBM progg-y e autodestrutivo de uns Shining, aqui, em Acedia, Odraza parecem canalizar os devaneios mais exploratórios de uns Ulver. Acedia, que na superfície parece ser nada mais que um modesto EP, é um colossal exercício de género e forma. Constituído por uma única faixa, que na melhor moda de uns Godspeed You! Black Emperor é simplesmente monumental, Acedia é um compêndio de vários episódios musicais que fluem ininterruptamente de um para o outro. Um oprimente drone synth inicial dá lugar a um ambient algo distópico, em que vários fragmentos musicais são introduzidos e logo descartados, criando uma intensa sensação de ansiedade e incompleição. Um terceiro episódio é constituído por um gutural animalesco acompanhado por percussão esparsa e esqueletal. A isto sucede-se o groove industrial de uns Godflesh, cujos ritmos tribais fluem para um horror synth reminiscente de um filme de John Carpenter. Aqui, a faixa enverada para o drone pensativo e deambulatório de uns Sunn O))), antes de atalhar para uma última passagem em que melodias serpenteantes e blast beats castigantes sintetizam, em plena alquimia musical, todo o material temático até então introduzido. Criada como banda sonora para uma exibição artística sobre os efeitos sociais da atual pandemia, Acedia conjura eximiamente imagens de paranoia, isolação, claustrofobia e desespero. - HM



 

 

Fange-PunirPledge - Haunted Visions (Raging Planet)


Difícil esquecer o primeiríssimo contacto que tive com esta banda, a fazer throwback ao dia de receção do SonicBlast Moledo no tão acarinhado Ruivo’s, insubstituível ponto de encontro para tanta da gente que atendia o festival. Foi aqui que os Pledge, na altura ainda quarteto, se apresentaram a muita gente com a sua impressionante energia em palco. Após alguma promoção do seu EP de estreia e alguns concertos de norte a sul de Portugal, a banda volta com um muito aguardado novo disco pela nossa Raging Planet. Mais do que um novo álbum, Haunted Visions, outro disco a contar com o envolvimento de André Gonçalves (Adrift Studio), é uma afirmação pura e dura daquilo que a banda representa. Pledge não é só mais um grupo que toca hardcore punk ou post-hardcore, é, acima de tudo, uma mensagem. É uma afirmação de que temos sempre espaço para melhorar e que não podemos hesitar ao longo deste processo de autoaprendizagem. Haunted Visions é o resultado desse ciclo, e para quem dá mais importância à música, é, francamente, um discaço que não pode ser ignorado - mas para quem procura um pouco mais, aqui terá tudo o que precisa. - JMA



 

 

Fange-PunirPortal - Avow (Profound Lore)


Nascidos dos nossos maiores medos e encarnados nos mais sufocantes pesadelos, os australianos Portal cimentaram o seu nome na música extrema com uma sonoridade que nenhuma outra banda conseguiu emular até hoje. Mais de vinte anos de composições indecifráveis e uma sonoridade quase incompreensível atribuem a este projeto um estatuto de entidade. Brisbane é o berço de cinco álbuns que redefiniram os limites do death metal experimental e, desta vez, atinge-nos não com um, mas dois novos lançamentos deste multifacetado coletivo. Avow e Hagbulbia funcionam como um conceito único, onde as subtilezas da estática e da agressão se separam para fortalecer o alcance de um vácuo interdimensional. Em Avow, as cordas relembram-nos a facilidade com que os mais detalhados riffs se conseguem metamorfosear em intrincadas paisagens atmosféricas e a precisão cirúrgica no ritmo e posicionamento da percussão torna qualquer um dos temas numa imprevisível tempestade. A voz acrescenta uma dimensão transgressiva à estrutura impenetrável, e o tom surreal e abstrato da violência calculada apresenta-se como o pulsar delirante de uma criatura aprisionada. Se alguma vez quiserem conhecer, ouvir e sentir o abismo e o tecido de que os pesadelos são feitos, basta repousar no catafalco desta assombrosa viagem, que esta certamente devolverá o prazer. - AT



 

 

Fange-PunirPortico Quartet - Terrain (Gondwana)


Baseados em Londres, os Portico Quartet contam com uma discografia que se tem vindo a expandir rapidamente num espaço de poucos anos, não só em termos de quantidade de material lançado, mas no que toca ao próprio som do grupo. Com o mais recente projeto Terrain, a banda desprende-se da sua postura de jazz hipnótico, favorecendo uma nova envergadura que, não se desfazendo por completo das suas influências de jazz minimalista, redireciona os holofotes para um cenário mais atmosférico e elementar. Terrain consiste em três movimentos que se desvendam a passo lento. Através de um emaranhado de sons etéreos, em que todos juntos formam um corpo harmonioso sem que a individualidade de cada um se evapore no processo, somos progressivamente levados numa odisseia repleta de paz interior em que nem o jazz, nem os sons de ambiente se sobrepõem em medidas que não sejam equivalentes. É um disco que suscita reflexão introspetiva desde o seu primeiro momento, perpetrado pela levidade transcendente que a pouco e pouco se revela até ao seu final, orientado por uma explosão de instrumentação de sopro viva e oscilante que se enaltece sob uma percussão que ,apesar de se figurar suave, se expõe freneticamente. - JG



 

 

astronoid-album-coverSons of Kemet - Black to the Future (Impulse!)


Numa altura em que ainda é imprescindível existir um conhecimento cada vez maior sobre questões raciais, Black to the Future oferece uma reflexão sentida sobre o poder negro. Os protestos Black Lives Matter ainda se fazem ecoar, sendo urgente contextualizar o passado e aprender como agir no presente. Com este disco de estúdio, os Sons of Kemet transcendem o jazz experimental a uma homenagem a anos de opressão, deixando uma inspiração de como agir daqui em diante. Surgem momentos musicalmente densos, como passagens líricas meditativas, mas o objetivo é sempre o mesmo: provocar uma sensação incendiária a injustiças vividas por vidas negras. Talvez seguindo a onda do seu disco a solo, We Are Sent Here by History, Shabaka Hutchings – que comanda os Sons of Kemet – se tenha sentido inspirado em continuar esta mensagem tão importante. Agora, a banda britânica triunfa enquanto acompanhada por convidados como Steve Williamson, Angel Bat Dawid, a poeta americana Moor Mother, o lendário MC britânico D Double E, o rapper britânico Kojey Radical, a cantora Lianne La Havas e o poeta Joshua Idehen. - CN



 

 

Beirut-GallipoliSquid - Bright Green Field (Warp)


A nova cena post-punk britânica tem-nos recentemente presenteado com uma vaga de bandas promissoras, estando os Squid nos destaques principais. Este Bright Green Field é uma exploração frenética, onde os pensamentos cómicos e críticos assaltam as faixas de forma a que a criatividade não tenha limites. É precisamente aí que os Squid se fixam na nossa mente, neste efusivo equilíbrio entre o divertimento nas suas letras e o dilaceramento nos seus instrumentais. Este poderá muito bem ser um dos discos entre os grandes em alguns anos, pela forma como nos deixa à beira da nossa cadeira. Este sentimento de estarmos em loops com a nossa vulnerabilidade é causado pela abordagem de temas que nos deixam ansiosos e até mesmo revoltados. E é este desconforto na sua música que os torna tão fascinantes. Tudo isto com a aplicação de inspirações jazz, funk, krautrock e punk em dose certa e nunca exagerada. - CN



 

 

Boy-Harsher-CarefulThroat - Smile Less (Svart)


Que espera tão impaciente que foi por um novo disco dos finlandeses Throat. O último que estes meninos haviam lançado, Bareback, custou meses e meses a sair-me da cabeça com as suas insurgências de noise rock arrebatador e ultracontagiante; portanto, é com um sorriso meio esboçado (diga-se, a fazer jus a todo o pessimismo/positivismo do disco) que finalmente se recebe de braços abertos a chegada de Smile Less. A contar com uma pequena mudança no alinhamento, o grupo viu-se inclinado para uma pequena mudança na direção do seu som. Uma decisão que pode vir a ser arrojada quando feita a partir da sua espinha dorsal, mas a verdade é que o resultado final é nada mais do que lendário. A amplificar ainda mais as tendências do industrial à veneração de Swans nos anos 90, não há uma única faixa que deixe a desejar. Vozes mais graves, um senso de paciência bem mais acentuado, e muito mais sabor nos momentos de explosão inspirada. Menos sorrisos e mais disto, por favor. - JMA



 

Artigo escrito por: Andreia Teixeira (AT), Catarina Nascimento (CN), Hugo Moreira (HM), João “Mislow” Almeida (JMA), Jorge Alves (JA), José Garcia (JG) e Nuno Teixeira (NT).
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