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Overall Outubro 2021

15 de Novembro, 2021 ListasWav

Sem qualquer ordem, a não ser alfabética, apresentamos os discos lançados em outubro de 2021 que mais marcaram a nossa redação.

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Overall Setembro 2021

Beirut-GallipoliAbstracter - Abomination (Sentient Ruin)


Para bem dos nossos males, o doom/death não tem carecido de grandes propostas este ano, sendo esta apenas a primeira das duas mais marcantes deste mês de outubro. Abstracter, projeto californiano que ultrapassa já uma década de atividade, pode não ser a maior das referências no subgénero acima mencionado, mas tem-se mostrado como um nome sério e em condições de se estabelecer como grupo de culto. Abomination é o quarto esforço da banda e pode muito bem ser a sua entrega mais pesada até hoje, algo francamente difícil de alcançar tendo em conta o seu tão louvado antecessor Cinereous Incarnate. Desta vez, a produção ganha pela compressão e deixa-se sublinhar pela percetibilidade de tudo o que é enormíssimo até ao mais ínfimo detalhe. Louva-se um step-up colossal por parte da dupla no setor da escrita, que por sua vez só elevou a já necrótica atmosfera e cadência a pólos ainda mais sufocantes. Encontram-se brindes de elementos como o sludge, black, noise e drone a aprofundar um resultado final já imensamente digno e memorável. - JMA



 

 

Beirut-Gallipoliaya - im hole (Hyperdub)


De contrastes vive a formidável estreia de aya, majestosa escultura de movimentos e sensações onde um ambiente de clubbing sofisticado, com referências ao techno ou ao footwork, convive com atmosferas insólitas de natureza avant-garde. Os temas soam soltos e distintos e sucedem-se organicamente como um quadro pintado em tempo real, sendo precisamente essa imprevisibilidade que torna esta viagem tão excitante, sedutora e emocionalmente pujante, como que a vislumbrarmos possíveis novos caminhos para o futuro da música exploratória. Nesse sentido, a criatividade de aya – e o modo “livre” como se alimenta dela – é indescritivelmente poderosa, senão mesmo assombrosa: se num momento a vemos entregar-se a batidas etéreas e vibrantes, noutro abraça tons mais sombrios e inquietantes, como em “still i taste the air”, por exemplo – avassaladora peça guiada por uma narração perturbadora, maníaca e inexplicavelmente viciante. Neste universo, a transmissão oral parece ser tão crucial quanto a musical, com palavras que se repetem hipnoticamente como se fossem feitiços, enquanto que a música aponta para uma eletrónica surrealista que retira prazer da desconstrução e que rejeita dogmas, por vezes apresentando influências de SOPHIE, mas sempre unicamente idiossincrática. - JA



 

 

Boy-Harsher-CarefulBADBADNOTGOOD - Talk Memory (XL)


Foi com o lançamento do single “Signal from the Noise”, no passado mês de julho, que o hiato de cinco anos se fez realmente sentir pelo público de BADBADNOTGOOD, na forma de um entusiasmo generalizado. Um lançamento promissor e luminoso, um ambiente em ampliação, entre o eco e a fragmentação, dissolvido na emotividade. Aquilo em que Talk Memory se torna após esta primeira introdução é o resultado de uma interação dinâmica arrepiante entre a algazarra do jazz experimental e o lustre das cordas e arranjos orquestrais, numa dança empolgada pelo arranhar do fuzz, pela ocasional dissonância e pela profundidade lépida do piano. A este disco juntam-se os nomes de Arthur Verocai, com uma presença marcante neste álbum, e os de Laraaji, Terrace Martin e Brandee Younger – nomes que vêm revelar a delicadeza e robustez entusiástica de Talk Memory e dar continuidade à quebra de tendência que vimos ter início em IV. BADBADNOTGOOD focam-se aqui numa produção de ambiente cinematográfico e de uma beleza romântica. Embebido pelo virtuosismo do groove, este disco move-se como que algo vivo. - BF



 

 

Candlemass-The-Door-To-DoomCarincur - Echoes from a Liquid Memory (Zabra)


Echoes from a Liquid Memory é a gravação áudio de uma peça focada na vulnerabilidade da memória e desenvolvida por Carincur, talentosa artista transdisciplinar que se tem vindo a afirmar como uma das mais excitantes vozes no mundo das artes experimentais. Combinando performance, concerto e instalação audiovisual, colocou-se dentro de um tanque equipado com hidrofones e a sua sempre fiel maquinaria, de modo a fazer do seu corpo e das máquinas um só organismo de exploração sensorial. O resultado é algo belo e transcendente, algo que logo aos primeiros segundos, quando a respiração ofegante de Carincur casa com o surrealismo de uma eletrónica alienígena, nos transporta para o momento onde tudo aconteceu, como páginas de um diário que imortalizam uma história vivida. Extraordinariamente visual, há momentos onde a viagem é do mais negro, catártico e assustador que se pode imaginar: os ruídos agonizantes de “Memory (Regonition)”, por exemplo, parecem saídos de um exorcismo e são tão desconfortáveis que até gelam a alma, tão intensos que mal conseguimos aguentar a sua escuta. Mas é essa a beleza de Carincur, alguém que se desafia e se renova incansavelmente para atingir a versão mais pura de si mesma. - JA



 

 

Dream-Theater-Distance-Over-TimeEvery Time I Die - Radical (Epitaph)


A nona proposta dos Every Time I Die é um explosivo cocktail de metalcore, post-hardcore e puro rock ’n’ roll, servido com uma eficácia que nos deixa rendidos a este ataque sonoro igualmente intenso no departamento lírico. Se dúvidas existirem, basta ouvir o modo descontrolado como o vocalista Keith Buckley berra “Whose fucking side are you on?” em “Planet Shit”, como se estivesse mesmo à nossa beira, no limite máximo da sua paciência, a “cuspir” veneno para matar o legado do racismo que ainda hoje perdura. Pelo meio, há um ou outro tema que nos permite respirar um pouco sem que a energia vibrante do disco seja sacrificada, e a verdade é que mais nenhuma canção ilustra melhor esse sentimento do que a belíssima “Thing With Feathers”. Indiscutivelmente a mais grandiosa e impressionante das dezasseis aqui presentes, foi gravada com a participação de Andy Hull (Manchester Orchestra) e delicia pela inteligência com que cruza sensibilidades pop com a habitual descarga punk impetuosa (semelhante aos que os Touché Amoré fizeram com o mesmo senhor em 2020), soando ainda mais doce depois da brutalidade que a precede. - JA



 

 

Fange-PunirFrontierer - Oxidized


Os matemáticos escoceses Frontierer estão de volta com outro glorioso e exultante testemunho de mathcore dedáleo. Em sequência da dupla absurda de discos que foi Orange Mathematics e Unloved, o quinteto está de volta com mais um registo estrondoso e, honestamente, a coisa já começa a ficar um bocado ridícula. Se a intenção passada da banda já era a de levar o espectro audível a um limite inimaginável – algo plenamente conseguido em Unloved –, a banda testa agora as suas fórmulas e teoremas para desconstruir e construir tudo de novo num subatómico frenesim de colagens sonoras. É importante sublinhar que para conseguir apreciar Oxidized é preciso desmontar a noção de estrutura, bem como a ideia de que o complexo não pode perder compromisso para o peso. Não há linhas ténues, nem tampouco barreiras, em Oxidized, que consegue de forma triunfal abolir padrões e expectativas com todo um leviatã de distorção e expansão. Este disco é uma proposta real e, contra todas as adversidades, extremamente bem conseguida por parte de uma banda que tem cada vez menos rivais no seu diâmetro de mira. - JMA



 

 

Fange-PunirGame - Legerdemain (Quality Control HQ)


Posso não perceber muito de polaco, e digo que não percebo muito como quem não percebe absolutamente nada em termos práticos, mas se por aqui se entende alguma coisa de bom crossover thrash com aspirações ao som da velha-guarda, podemos desde já assegurar-vos que Legerdemain tem potestade para dar e vender. Desde a faixa de abertura de punção imediata, cujo nome figura no título do EP, até às sinfonias ostensivamente sufocantes com que “Release” desfecha, vemo-nos perante um quarto de hora em que só se tira o pé do acelerador para engatar a mudança subsequente. Os Game exploram a sua vertente lírica numa variedade de línguas, onde polaco, inglês e francês – correspondente à multinacionalidade que predomina no grupo – vão conversando entre si, num dinamismo intrigante mesmo para quem não as compreende por completo. O que se compreende perfeitamente, no entanto, é a bruta instrumentação que nos é proposta, pois essa canta na língua universal que todo e qualquer adepto dos géneros aqui em destaque entenderá com fluência nativa. - JG



 

 

Fange-PunirGreen Lung - Black Harvest (Svart)


Nesta sua nova colheita, maturada pela negra radiância e fermentada por um fibroso, inflamante, excitante e imperioso heavy rock de celebração ocultista, e um intrigante, sinuoso, pomposo e enfeitiçante heavy prog de pura musculatura setentista, o coletivo sacerdotal britânico prossegue com a sua demoníaca liturgia de ornamentadas orações apontadas ao lado eclipsado da religiosidade. Comungando e combinando a trevosa bruxaria de Black Sabbath, a sedutora ardência de Boston, a hipnótica exuberância de Atomic Rooster e a majestosa elegância de Deep Purple, este Black Harvest gravita, mumifica e sepulta o ouvinte num petrificante estádio de ofuscante deslumbramento que o seduz, embevece e conduz pelos sombrios contos de Edgar Allan Poe. São 44 minutos aspergidos por uma luciférica perversidade e tóxica nebulosidade que nos dilatam as pupilas, empalidecem o semblante, sobreaquecem o peito, e estremecem, enlutam e profanam o espírito. Este é um álbum tragicamente belo. Um registo intensamente portentoso que não deixará ninguém recostado à indiferença. É demasiado fácil cair nesta pecaminosa tentação e selar um acordo de fidelização com o príncipe das trevas. Está aqui uma das obras mais sublimes do ano, que aguardo com sísmico anseio poder experienciar ao vivo no tão salivado verão musical português de 2022 (mais concretamente na 10ª edição do festival Sonic Blast). - NT
(Lê a review completa a este disco no blog El Coyote)



 

 

astronoid-album-coverGrouper - Shade (Kranky)


Numa altura em que reina a confusão, o medo e a indignação, em que todos parecem estar zangados com algo ou alguém, eis que nos chega o antídoto sonoro para curar a alma. Obra terapêutica de qualidade excecional, o novo álbum de Grouper, alter ego da norte-americana Liz Harris, é uma lindíssima viagem introspetiva que nos convida a descobrir a beleza delicada, emotiva e mesmo frágil que daqui emana com uma suavidade angelical. Criado ao longo dos últimos quinze anos, alterna entre experimentalismos eletrónicos que permitem que a voz da artista americana – distante mas presente, quase como um segredo sussurrado ao ouvido – se refugie em camadas de distorção densas e nebulosas (a onírica e atmosférica “Disordered Minds”) e peças folk “despidas”, guiadas tanto pelo canto doce e tímido de Liz, como pelos arranjos escassos e crus da sua guitarra acústica (o ruído da mudança de trastes, por exemplo, é propositadamente destacado). Há aqui uma óbvia celebração do conceito de solidão, mas sem que isso signifique somente tristeza: o sentimento é, antes, meditativo, mergulhado na procura de uma sensação de repouso, ideal para ser apreciado na intimidade tranquilizadora da nossa própria companhia. - JA



 

 

Beirut-GallipoliHippotraktor - Meridian (Pelagic)


Estas descobertas são muito raras. Não é frequente encontrarmos uma maturidade sonora do calibre de Meridian num primeiro trabalho de estúdio. O quinteto é belga, tem selo de qualidade da Pelagic Records (The Ocean, MONO, Alcest), e apresenta um trabalho que emana um prog-post-groove-metal soberbo. Os duelos melódicos entre os dois vocalistas, numa eterna dança violenta entre sombra e luz, potenciam o balanço djentesco, os coros de embalar, e aquele headbang incontrolável, constante, hipnotizante. A abertura do disco, “Manifest the Mountain”, é sem dúvida uma das faixas do ano e, em termos de conceito temático, o álbum versa sobre a deificação de elementos naturais como fator primordial da evolução humana. Esperam-se grandes conquistas para Hippotraktor. - PS



 

 

astronoid-album-coverJerry Cantrell - Brighten (Double J)


Naquele que é o seu primeiro disco a solo em dezanove anos, Jerry Cantrell, o mítico guitarrista dos Alice in Chains, explora ambientes mais leves e luminosos sem descurar a identidade que tão bem definiu para si. Aqueles que pegarem no álbum à espera de encontrar essencialmente o tom pesado, arrastado e “seco” dos AIC poderão ficar desapontados, mas a verdade é que temos aqui uma pequena pérola que gradualmente se revela à medida que cada malha vai sendo reproduzida – quer dizer, só o refrão de “Nobody Breaks You” é de tal forma inesquecível que permanece na nossa cabeça muito depois da escuta terminar. Há momentos no disco que encaixam perfeitamente no universo dos AIC, mas também há atmosferas western na onda de Ennio Morricone (“Atone”), viagens pelo blues rock ou o country e até uma versão de Elton John, para além de convidados como Duff McKagan (Guns N’ Roses), Greg Puciato ou Gil Sharone (estes últimos ex-colegas nos The Dillinger Escape Plan). Contudo, nada supera o registo inconfundível de Cantrell, com aquelas melodias orelhudas, “quentes” e cheias de texturas… Isso sim, é o mais irresistível. - JA



 

 

Beirut-GallipoliJPEGMafia - LP! (EQT/Republic)


Exclamativo como sempre, o novo LP de JPEGMAFIA – perdão, LP! – marca apenas mais uma entrada, porventura a mais transfigurada, numa já abastada série de experimentos mutantes que tem como paciente o hip-hop. A verdade é que Peggy, de um modo que poucos dos seus pares são capazes de igualar, exibe uma criatividade virtualmente sem fronteiras, com várias gamas estilísticas de que se dispõe gradual e imprevisivelmente. É fútil procurar uma tese que tenha seguimento ou uma ideia que se transporte de faixa para faixa; talvez assim se descreva melhor este trabalho que, tal como o seu autor, recusa tudo o que o possa etiquetar na sua incontornável necessidade de testar novos conceitos e hipóteses. E, claro, o que seria de Peggy sem os seus títulos de faixa burlescos, sem as suas performances e flows imponentes e algo absurdos, e sem a sua lírica cáustica e galhofeira? Felizmente, tudo isso está cá, e não parece planear o seu abandono para breve. - JG



 

 

astronoid-album-coverKayo Dot - Moss Grew on the Swords and Plowshares Alike (Prophecy)


Veteranos contemporâneos do avant-garde e metal progressivo moderno, os Kayo Dot estão à beira das duas décadas de carreira. Percurso esse que tem testemunhado a chegada de uma nova incursão de criatividade e amplitude musical. O projeto é liderado pelo senhor Toby Driver, que tem contado, com o passar do tempo, com inúmeras colaborações neste seu querido trabalho. Por incrível que pareça, a música de Kayo Dot sempre me passou muito despercebida, mas contento-me com a chegada deste mais recente contributo da banda, pois parece que este me ajudou a finalmente abrir as portas ao trabalho de Driver. Moss Grew on the Swords and Plowshares Alike progride com uma destemida crueza, raramente vista neste espectro da música pesada. Notam-se sintetizadores brilhantes a contrastar com um corpo instrumental solto e arejado. Os riffs aparecem como rochosos planaltos de paisagens pré-históricas. Aveludando momentos de génio, é nas transições e progressões mais alargadas que o ouvinte pode vir a ficar verdadeiramente colado neste trabalho. A pintura total é deslumbrante em plena demonstração. - JMA



 

 

Fange-PunirKnocked Loose - A Tear in the Fabric of Life (Pure Noise)


Após um minuto de uma mescla de excertos de transmissões de rádio ofuscadas, mas percetivelmente familiares – pois é assim que o novo EP de Knocked Loose se instaura –, é como se caísse um pesadíssimo chumbo nos nossos ouvidos. Obriga-se um sinergismo corporal irremediável, à medida que, como se se fizesse ressoar uma rajada de tiros, a tela se ilumina com um coro de sonâncias espasmódicas. A nova rota tomada insiste numa compostura algo divergente do que se esperava, mas mesmo com uma nova aparência revestida de soslaio pelo blackened hardcore, não deixa de se presenciar tudo aquilo que se foi fabricando até ao mais recente lançamento: staccatos deturpados e discordantes nas guitarras, percussão, no mínimo, estrondosa e, no máximo, ensurdecedora, e uma produção que, mesmo no meio de todo o tumulto, garante que todo o conjunto tenha o seu tempo sob os holofotes. Anuncia-se, contudo, um estudo mais maléfico, denegrido e opressivo sobre todas as fundações, onde se opta menos por uma narrativa de moldes previsíveis e mais por uma nova experimentação de novas técnicas e compassos igualmente capazes de partir pescoços. Até na voz de Bryan Garris, que nos tem progressivamente admoestado da sua crescente fúria, se demonstra agora uma raiva que, tal como o restante motim que a acompanha, sangra numa cólera cada vez mais vívida. - JG



 

 

Fange-PunirKowloon Walled CityPiecework (Gilead/Neurot)


Vazio, devoluto, reduzido ao essencial. Noutras circunstâncias, tais termos seriam dotados de uma conotação firmemente negativa, mas no exercício sobre restrição e criatividade que é Piecework, são inteiramente necessários, inexoráveis até. Tal restrição, contudo, não surge ao acaso. Quer pelo martelar da percussão rudimentar, espaçada e pervasiva, ou pela divisão de cordas que se posicionam escassamente em compassos alargados, tudo serve um propósito, por muito pequeno que se possa insinuar, no grande panorama deste projeto. Neste jogo de tensões e equilíbrios, o silêncio não representa apenas uma pausa ou um corte entre segmentos. Mais do que isso, a ausência de som, que por vezes se parece dilatar mais do que o que se realmente verifica, posiciona-se em pé de igualdade com qualquer outra componente. Atua como um contrapeso, mas singra com a restante corrente, onde se tomam as devidas precauções para que não entre neste barco mais água do que a que é inevitável. - JG



 

 

Fange-PunirLimp Bizkit Still Sucks (Suretone)


Se há palavra que descreve na perfeição o regresso dos Limp Bizkit aos discos, é “genial”. Não no sentido musical do termo, mas na fantástica postura troll aqui assumida. Conscientes de que muitos os consideram uma piada ou uma mancha negra na história do nu-metal, gravaram um álbum onde gozam com essa reputação e mergulham num humor autodepreciativo de partir a rir. Títulos como “Out of Style”, “Dirty Rotten Bizkit” e, claro, o do próprio álbum, unem-se a letras como “Nu-metal one hit wonders” ou “King of nu-metal from the trash” para uma sessão de puro comedy gold, o derradeiro ato de ousadia (e autoconsciência) de quem realmente não quer saber; são eles próprios que o admitem quando Fred canta, depois de se pôr na pele de um hater e dizer que os LB não valem nada: “Joke’s on you, you missed one clue: we don’t give a fuck”. Musicalmente, o potencial incrível da estreia de 1997, ou mesmo de Significant Other, está maioritariamente ausente, mas “Dad Vibes” é uma party song aliciante e o refrão de “You Bring Out the Worst in Me” remete para a atmosfera pesada e rasgada dos primeiros tempos… - JA



 

 

astronoid-album-coverLuz Laranja - Chroma


Caso tenha surgido a questão, eis o artista português mais subvalorizado que vocês ainda não conhecem. Rui Teixeira, querida cara familiar de um dos mais interessantes panoramas musicais da Margem Sul (o Montijo), é um ávido compositor que até pode não ser a maior referência no que toca a projetos em bandas e tudo mais, mas é sem dúvida uma força criativa que merece ser ouvida e aplaudida. Não sendo já a primeira vez que o seu projeto a solo Luz Laranja me deixa completamente boquiaberto no que toca à genuína qualidade e periferia criativa, começo a sentir uma tremenda injustiça em não ver este nome por aí a circular. Chroma é o seu quarto trabalho, em forma de um EP bem aglomerado, que oferece uma riqueza de sons, variedade, texturas e tonalidades brilhantes. Com toda a ideia tomada a cabo por suas próprias mãos, é espantoso como uma só mente consegue um produto tão vulnerável e sincero quanto musicalmente bem conseguido. A misturar elementos de alt rock do início dos anos 2000 com trip-hop, e com recorrente uso de sintetizadores e progressões despidas, Chroma é mesmo digno de uma oportunidade vossa. Acreditem, não se vão arrepender. - JMA



 

 

Beirut-GallipoliMastodon - Hushed and Grim (Reprise)


Oficialmente, Hushed and Grim é o oitavo trabalho do grupo mais porreiro do metal de Atlanta. Oito é também um número com um grafismo especial: é feito de ciclos, que se fecham e se abrem, que se findam e se infindam. Para o quarteto, o álbum marca precisamente um desses grandes ciclos, a morte do manager, mentor, amigo e protetor Nick John. Um rude golpe para a banda que, tal qual um artista marcial versado, conseguiu absorver o impacto e fluidamente canalizar a pancada em contra-ataque ainda mais poderoso. Hushed and Grim arrepia – “Sickle and Peace” deixa-nos devastados de alma, “Pain with an Anchor” é como um comprimido que nos queima ao ser engolido e “Gigantium” é do mais progressivo-do-deserto que se tem ouvido ultimamente. Talvez o esforço mais próximo do intocável Crack the Skye. - PS



 

 

Boy-Harsher-CarefulParquet Courts - Sympathy for Life (Rough Trade)


Sympathy For Life, o sétimo álbum de estúdio dos Parquet Courts, é o resultado de uma banda punk com vontade de encher recintos e de colocar os pés inquietos. Mesmo não sendo tão impactante quanto o aclamado Wide Awake! ou mesmo Human Performance, este trabalho do quarteto de Brooklyn imerge em águas mais acessíveis para um grande público e navega por sons mais garage rock, por entre alguns sintetizadores que suplicam por serem ouvidos em pistas de dança. Esta transformação do punk para o dance é bem-vinda. E, tal como grandes nomes que transpiraram liberdade criativa (cof cof Talking Heads cof cof), “Marathon of Anger” é uma das explorações por sons mais robóticos e experimentais. Mas, para os mais céticos, ainda continuam a existir músicas tão Parquet Courts como antes, nomeadamente a introdutória “Walking at a Downtown Pace” e “Homo Sapiens”. A maior certeza é que o poder avassalador das suas letras combinado com a ambição de nunca tornarem o seu som aborrecido ou “cópia de cópia” faz com que Sympathy for Life seja uma audição refrescante e a abertura do véu para uma sonoridade mais eletrónica. - CN



 

 

Beirut-GallipoliPatrick Shiroishi - Hidemi (American Dreams)


Com um título que presta homenagem ao seu avô, que havia sido encarcerado em campos de concentração para nipo-americanos e o qual nunca viria a conhecer pessoalmente, apesar de partilhar com ele o nome Patrick que em sua memória permanece, Hidemi parte do princípio como um trabalho extremamente pessoal e tocante. Tanta é a emoção que aqui se abriga que por vezes é árduo saber como nos devemos sentir. A harmonia entre a tristeza e a alegria, entre vendavais imprevisíveis e partituras meigas e belas, é tão suave e orgânica que, por vezes, passagens aparentemente animadas e leves em espírito se podem furtivamente adulterar sob a pressão das tonalidades amargas e melancólicas que lá subjazem. Shiroishi navega numa maré sónica em que não se pode prever a onda que aí vem, tampouco o destino para que elas mesmas nos levam de empurrão. Daí surge o grande trunfo do álbum: quando, pelo meio do caos de saxofones de compleições variadas e da ausência de qualquer percussão que clarifique as tendências rítmicas em uso, perdemos o fio à meada e deixamos de perceber se o que devemos sentir é dor ou esperança, ou porventura o que resulta da sua excecional homogeneização. - JG



 

 

Boy-Harsher-CarefulRoss From Friends - Tread (Brainfeeder)


Quando nos deparamos com a discográfica patenteada por Flying Lotus, um dos maiores nomes na indústria musical contemporânea, podemos contar logo à partida com grandes nomes e projetos a eles associados. Tal é o caso de Ross From Friends, pseudónimo sob o qual o DJ e produtor britânico Felix Clary Weatherall apresenta agora o seu muito aguardado segundo álbum. Tread, assim se intitula este projeto, situa-se na fronteira entre a sintetização melódica, onde a disposição quasi-maquinal não objeta de modo algum a sua fluência orgânica e emotivamente natural, e a desformalização do caráter reiterativo e unicêntrico da música eletrónica. Cada tinido, por mais diminuta que seja a sua intensidade, é colocado cirurgicamente na posição mais coerente do seguimento de cada faixa. A temática melancólica, por muito delicada que se faça soar, é subjacentemente escoltada pela contundência de cada batida. Mesmo nos momentos mais preenchidos – pois há uma boa dose de secções que obrigam a que o corpo se mexa –, tudo decorre de maneira tão subtil e não intrusiva que é raro sermos despertados do transe a que somos induzidos logo nos primeiros momentos da experiência. - JG



 

 

Beirut-GallipoliSnowy Dunes - Sastrugi


Este aprumado, novíssimo e açucarado álbum dos nórdicos encerra toda uma psicotrópica fragrância que combina um charmoso, deslumbrante, apaixonante e libidinoso classic rock de opulento sotaque Led Zeppelin-esco, um provocante, caleidoscópico, magnético e intoxicante psychedelic rock de elegantes vestes aristocráticas a fazer recordar os clássicos The Doors, e ainda um relaxante, pastoral, estival e fascinante psychedelic country – com indiscretas e triunfantes invasões aos territórios do serpenteante, fogoso, vistoso e eletrificante blues rock – sintonizado na mesma frequência dos saudosos norte-americanos The Flying Eyes. A sua sonoridade verdadeiramente reconfortante, harmoniosa, melosa e elegante é orlada por um envolvente, místico e ensolarado revivalismo que nos faroliza, cega e eteriza do primeiro ao derradeiro tema. São 40 minutos banhados e saturados de um deífico, transbordante e mirífico brilho balsâmico que instala toda uma inextinguível sensação de pleno bem-estar no espírito do ouvinte que nele comungar. Pendulando entre deliradas, ardentes, sinuosas e ritmadas galopadas que nos efervescem, euforizam e embalam na prismática vertigem, e proféticas, ensonadas, embriagadas e edénicas passagens que nos esbatem os sentidos e dissolvem numa viagem desorientadora, Sastrugi trata-se de um poderoso alucinógeno de dilatação consciencial e consagração espiritual. - NT
(Lê a review completa a este disco no blog El Coyote)



 

 

Boy-Harsher-CarefulSpy - Habitual Offender (Convulse)


Basta-nos avaliar com bons olhos o artwork que compõe a capa de Habitual Offender para que se pressagie tudo o que se irá debater durante a sua reprodução. Exclusão social e solidão, exploração das massas e remunerações questionavelmente desproporcionais, uso e abuso de métodos violentos absurdamente encarados como proteção pessoal, encarceração injustificada e abuso de poder pelas forças policiais. Estas são apenas algumas das problemáticas que se assomam imprescindivelmente no âmago do território americano. Há quem se tente desviar do assunto, sobre a prerrogativa de que criticar o sistema é o equivalente a ser a favor da sua abolição, mas os Spy preferem pôr os pontos nos is, por muito desconfortável que possa ser. Não há cá metáforas nem alegorias, subterfúgios ou críticas “politicamente amigáveis”. Cada verso bate como uma pancada seca. Não há surpresas nem cartas atrás da manga. O que perante nós se dispõe, seja a entrega vocal áspera, mas sincera, ou a conjunção de sonoridades e secções rítmicas tradicionalmente hardcore, é simplesmente bruto, direto e confrontacional. - JG



 

 

Beirut-GallipoliThe Body & Big|Brave - Leaving None But Small Birds (Thrill Jockey)


The Body e Big|Brave entram na dimensão da música folk. Um disco conceptualmente centrado no soalheiro do folclórico aparece-nos de surpresa pelas mãos destes dois nomes de peso. A repetição circundante dá-lhe algumas qualidades trippy, necessárias à redecoração de canções tradicionais feitas para serem cantadas numa dança à volta da fogueira. As melodias vocais alienantes de Wattie densificam o imaginário fatídico que se espreme das letras, dando-lhes uma genuinidade emocional desconfortável, no melhor dos sentidos. O disco escurece com a distorção a ganhar espessura, mas nunca sem se deixar quebrar na violência, mantendo-se pendente e possante. Construída em torno do menos expectável, esta colaboração recorda-nos de como o desmoronamento das fronteiras musicais pode abrir espaço para o virtuosismo. - BF



 

 

Boy-Harsher-CarefulWhitechapel - Kin (Metal Blade)


A evolução dos Whitechapel tem sido simplesmente uma das mais fascinantes de testemunhar no movimento deathcore: efetivamente, foi com a edição de Mark of the Blade, em que canções como “Bring Me Home” ou “Decennium” injetavam soberbas doses de melodia a uma sonoridade outrora mais confortável com descargas puras de brutalidade, que o grupo começou a expandir a sua fórmula até consolidar essa mudança no anterior The Valley. Pois bem, o novo trabalho é exatamente a continuação dessa proposta, e podemos orgulhosamente dizer que nunca estes rapazes lançaram algo tão bom e gratificante. A primeira coisa que sobressai são os refrões: triunfais, ocasionalmente orelhudos e espantosamente inteligentes, sobretudo o de “Lost Boy”. Contudo, as guitarras também estão fantásticas, bastando escutar as melodias intrincadas e abraçadas a um groove demolidor na sublime “A Bloodsoaked Symphony”, ou o rasgo melódico, com algo de Smashing Pumpkins inicial, nos primeiros segundos de “Anticure” para nos rendermos à sua grandeza. Acima de tudo, o que aqui temos são uns Whitechapel determinados em mostrar ao mundo o quanto cresceram como compositores, navegando pelo metal alternativo, o deathcore e mesmo o rock para de lá saírem com uma obra-prima. - JA



 

 

Beirut-GallipoliWooden Fields - Wooden Fields (Argonauta)


Combinando um inflamante, ritmado, apimentado e enleante heavy blues de brilho vintage, um fibroso, simétrico, estético e esplendoroso hard rock de roupagem setentista, e ainda um ensolarado, melodioso, cheiroso e aveludado psychedelic rock de texturas caramelizadas, a florida, charmosa, libidinosa e encerada sonoridade de Wooden Fields passeia-se de forma triunfante, deslumbrante e orgulhosa pelos sete temas que compartimentam esta preclara obra do talentoso tridente escandinavo. São 39 minutos banhados de uma mística, reparadora, libertadora e ritualística resplandecência, de odor e calor analógicos, que nos gravita e em nós tudo remexe, cura e incita. Baloiçando entre eletrizantes, dinâmicas, psicadélicas e estonteantes cavalgadas locomovidas a febril excitação, e açucaradas, enternecedoras, relaxadas e transformadoras baladas embebidas numa comovente atmosfera soul, esta esmerada estreia de Wooden Fields provocara e imortalizara em mim um sorriso amarelecido pela doce nostalgia, uma expressão sonhadora que me envidraçara e eclipsara o olhar, e uma imersiva paz de espírito impossível de perturbar. Wooden Fields é um registo sem impurezas que me preenchera as medidas. Um disco genuinamente belo, sincero, de propriedades terapêuticas, que reconfortará e extasiará todo aquele que nele ingressar. Raras vezes a doçura e a formosura conviveram tão de perto como o fazem aqui. - NT
(Lê a review completa a este disco no blog El Coyote)



 

 

Boy-Harsher-CarefulWORM - Foreverglade (20 Buck Spin)


Concluir o artigo com o segundo discaço de doom/death de outubro. A acompanhar perfeitamente a chegada do outono/inverno, Foreverglade é a abertura para o pântano astral do trio de Florida. Paradoxalmente primal, straightforward e extremamente pujante, o terceiro disco dos americanos ganha pela combinação que junta power chords de penumbra fúnebre com momentos de extrema agressão. A acoplar blast beats, grandes neblinas de sintetizadores, fortíssimas braçadas de black metal cavernoso à cadência do doom e à necrose do death, a fórmula pode vir a parecer tão redundante como desorientada, mas os WORM parecem fazê-lo com uma naturalidade tão opressiva e simultaneamente virtuosa que o peso e a distorção escoam como argila. - JMA



Artigo escrito por: Beatriz Fontes (BF), Catarina Nascimento (CN), João “Mislow” Almeida (JMA), Jorge Alves (JA), José Garcia (JG), Nuno Teixeira (NT) e Pedro Sarmento (PS).
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