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Overall Setembro 2021

14 de Outubro, 2021 ListasWav

Sem qualquer ordem, a não ser alfabética, apresentamos os discos lançados em setembro de 2021 que mais marcaram a nossa redação.

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Overall Outubro 2021

Overall Julho 2021 | Agosto 2021


astronoid-album-cover10000 RussosSuperinertia (Fuzz Club)


É fácil perder a noção do tempo em Superinertia. No novo contributo do trio português, já veterano no que toca à conceitualização do híbrido krautrock e psiquedélico, solta-se um pouco mais a rédea e assumem-se novas posturas mais vibrantes e robustas. Cada uma das cinco faixas, compassadas em durações que variam apenas entre relativamente longo e bastante longo, faz uso de um leitmotiv que se expressa num modo canonicamente “neo-krautrockiano” e que justifica posteriormente o nome algo dicotómico com que o álbum foi batizado. Se por um lado parece que o tempo não se move, e que cada faixa dura bem mais do que o que temporizador constata, por outro dá-se a impressão de que vagueamos infinitamente num deserto longo e abrasado no qual, quando a oportunidade se declara, surge uma ou outra surpresa serendipitosa que promete novo vigor para a restante caminhada. Mas que não se associem aqui as noções tradicionalmente pejorativas que se apegam tão irrefletidamente à definição de “deserto”, porque de escassez ou vazio Superinertia não tem nada. Pelo contrário, este disco não só domina em pleno as técnicas de progressão musical que propõe, como as dota de uma organicidade excecional, que é em tudo ampliada pela recente aquisição de novas metodologias exploratórias que os 10000 Russos expõem aqui em alto e bom som. - JG



 

 

Beirut-GallipoliAgusa - En Annan Värld (Kommun 2)


Formada em 2013 na cidade sueca de Malmö, esta talentosa formação – que faz do revivalismo o seu presente – combina um cheiroso, arejado, sublimado e majestoso progressive rock de aura fabular com um pastoral, delicado, orvalhado e outonal psychedelic folk de beleza miraculosa. A sua sonoridade apaziguante, druídica, mitológica e transcendente – oxigenada a purificante misticismo – navega o ouvinte pelas verdejantes planícies, estriadas por riachos de águas marulhantes e abrilhantadas por um Sol esbatido, que se distendem pela sonolenta madrugada medieval. São 47 minutos – fragmentados em dois longos temas de composições veneráveis, complexas e orquestrais – aspergidos por uma quimérica graciosidade e uma bíblica grandiosidade que nos mantêm imersos neste deleitável sonho acordado. Empoeirem-se no misticismo ancestral dos suecos Agusa, e comunguem com ardente devoção e imperturbável fascinação este egrégio álbum que resvala nas longínquas costuras fronteiriças da perfeição. – NT
(Lê a review completa a este disco no blog El Coyote)



 

 

Boy-Harsher-CarefulAmyl and The Sniffers - Comfort to Me (Rough Trade)


Se existem dúvidas quanto a comebacks triunfais, então Amy Taylor, juntamente com os seus Sniffers, retira-as. O segundo disco de Amyl and The Sniffers, Comfort to Me, é realmente um conforto gigante após o grande sucesso do álbum homónimo lançado em 2019 que os colocou entre os maiores festivais na sua tour. Amy traz mais clareza do que realmente se passa na sua mente acelerada e que fascina quem vê a banda australiana ao vivo. Mas não há cá grandes defesas por causas gigantescas ou frases floriadas. Mesmo abordando temas com que nos podemos identificar, como o forte punho de fuck capitalism ou a procura por amor, existe uma dualidade nas suas afirmações. Isto porque ela não deve nada a ninguém nem precisa de nada de ninguém. Como ela própria diz, é um “little bit classy, bit of a rat”. O instrumental acompanha a força punk hardcore, com mais pujança e assertividade dentro do género. Existem também momentos de revolta, como é habito, especialmente em “Knife”, onde se fala de como uma mulher tem de estar armada à noite para a sua auto-defesa. Este álbum é o grito de confiança que já sabíamos que existia em Amyl and The Sniffers, mas agora ouvimos essa independência, crescimento e noise ainda mais alto. As pontas foram agora limadas e temos uma versão ainda mais aperfeiçoada da fórmula de sucesso da banda punk. - CN



 

 

Candlemass-The-Door-To-DoomCavernância - Em Ciano (Nariz Entupido)


Pedro Roque, nome incontornável e querida pessoa no nosso panorama musical, apresenta finalmente a sua mais recente proposta a solo. Cavernância é o nome do portal que nos transporta a um mundo sem luz nem escapatória. Uma cerca totalmente fechada, onde o foco pela cor e compressão surgem de uma construção e desconstrução tónica entre o drone e o harsh noise. Ao longo de três extensas faixas, Pedro explora, divaga e procura a devastação do concreto quotidiano como supremacia sob a fragilidade individual. Percorrem-se sensações de afogo por labirintos despidos de estrutura e destemidamente abstratos, e as intermináveis camadas levam-nos num navegar sem compasso e disforme. Em Ciano destrói, por isso, a mais ténue linha que separa a definição da indefinição, e  abraça o mergulho sem receio e compromisso no âmago do experimentalismo. A levar qualquer ouvinte ao seu limite humano, Em Ciano é capaz de deixar qualquer peito cedido por si próprio. - JMA



 

 

Dream-Theater-Distance-Over-TimeDJ Seinfeld - Mirrors (Ninja Tune)


Está aqui um dos discos que mais precisamos de ouvir em 2021; é que o novo trabalho deste produtor de house sueco carrega uma luz tão preciosa, tão contagiante, que é impossível não esboçar um sorriso quando nos entregamos a tão solarengas e bonitas composições. Estamos perante faixas que respiram verão num registo nostálgico e poético, que conseguem ser tão ritmadas (por vezes aproximando-se do italo-disco) quanto doces e delicadas, e que pintam deliciosos cenários de almas banhadas pelo sol a dançar ao ar livre, em plena harmonia com a natureza. No lugar das antigas produções de sabor lo-fi surgem agora faixas bem mais polidas, grandiosas e opulentas, mas ainda assim dotadas de uma sensibilidade magnífica e extraordinariamente comovente (aquele sample em “These Things Will Come To Be”, por exemplo, de uma mulher ao telefone a sonhar com o retorno de uma felicidade conjugal que outrora viveu, é lindíssimo). Acima de tudo, sobressai a atenção dada às melodias - riquíssimas e cheias de cor, quase como um recheio a cobrir um soberbo bolo rítmico - que provam que DJ Seinfeld está hoje no auge das suas capacidades enquanto produtor e que “Mirrors" é a sua masterpiece. - JA



 

 

Fange-PunirEmployed To Serve - Conquering (Spinefarm)


Com sabor a revolução industrial, ferro e fogo, os britânicos Employed To Serve, encabeçados pela pujante Justine Jones, prometem dar um novo alento às sonoridades mais pesadas que ultimamente têm saído da ilha. Com Conquering, o grupo apresenta um quarto trabalho de estúdio ao nível dos antecessores, o que não é dizer pouco (recorde-se que The Warmth Of A Dying Sun, seu segundo álbum de estúdio, foi nomeado disco do ano pela Kerrang!). Destaque para “Exist” ou “Mark Of The Grave”, montra de apresentação da versatilidade da banda. - PS



 

 

Fange-PunirFustilarian - All This Promiscuous Decadence (Amor Fati)


Se há algo a denotar de imediato quando entramos neste projeto afeiçoado às tradições do black metal – mesmo que esse algo não seja de raridade tão extrema nos dias que decorrem –, é que Fustilarian, a despeito do que possa aparentar, é o produto de um único músico que explora concomitantemente várias frentes. O homem que proclama versos de ódio, morte e decadência em vociferações doentias perante o microfone é o mesmo que se senta por detrás da bateria onde a pedaleira dificilmente cessa, e o mesmo que concebe o amontoado de riffs rispidamente assombrosos que se fazem soar em trechos prolongados e ressurgentes. E nos poucos momentos em que o inventário sónico e lírico ao dispor do artista lisboeta não resulta num completo abalroamento da fé e esperança humana, temos ainda o distante aconchego dos sintetizadores que pairam na umbra do caos contíguo. Posto em perspetiva com os seus contemporâneos e até mesmo antecessores, All This Promiscuous Decadence tende a não se demonstrar especialmente curioso por novas formas insólitas de enriquecer ou expandir o formato sob o qual atua – e não precisa. A temática desolada e poeticamente sombria que se badala numa entoação desumana ao longo do disco é complementada em pleno pela instrumentação propositadamente desnutrida de vida, ou de sinais de que esta em alguma instância se venha a suceder. - JG



 

 

Fange-PunirHoly Death Trio - Introducing… (Ripple Music)


Este primeiro registo forjado pela formação texana escuda-se num musculado, inflamante, excitante e oleado heavy rock de tração setentista em simbiótica parceria com um intoxicante, ardente, efervescente e alucinante heavy psych de virulenta fervura, um electrizante, afrodisíaco, dinâmico e flamejante heavy blues com forte odor a whiskey, e ainda um trevoso, cavernoso, monolítico e poderoso proto-doom de ecos Black Sabbath’icos. A sua sonoridade imperiosa, selvática, viciante e gloriosa é trilhada a uma destravada, infatigável e ritmada galopada que sacode, implode e embriaga o ouvinte num febril estádio de agitado e inextinguível entusiasmo. Introducing… é um álbum motorizado a uma turbulenta combustão que nos dispara os ponteiros da rotação e em nós provoca um sismo de monstruosa magnitude. Um autêntico furacão de endorfinas. Deixem-se incinerar, endoidecer e amotinar na chamejante negrura de Holy Death Trio, e experienciem com expressiva devoção e imoderada excitação uma das mais extraordinárias estreias do ano. Vai ser impossível ouvi-lo apenas uma vez, duas ou três. - NT
(Lê a review completa a este disco no blog El Coyote)



 

 

astronoid-album-coverIron Maiden - Senjutsu (Warner)


Muitos anos de carreira. Muitos álbuns de estúdio. Muitas digressões, concertos e festivais. Para quê parar? O icónico grupo de East London traz-nos mais uma nova faceta de Eddie, desta vez apelando à estética japonesa feudal. Seguindo a aposta dos anteriores discos, com temas mais extensos (amiúde demasiaaaaaaado extensos!), com mais linhas vocais suportadas directamente pelas mesmas notas na guitarra, e, no geral, menos BPMs e mais espaço, Senjutsu singra e espanta, tendo-se tornado o melhor lançamento do grupo, em termos de vendas, dos últimos 45 anos. Up the Irons! - PS



 

 

Beirut-GallipoliIskandr - Vergezicht (Eisenwald)


É oficial. O black metal neerlandês é o atual campeão de black metal contemporâneo. Num curto espaço de tempo, já se contam com inúmeras sonantes intervenções de bandas como
Fluisteraars, Laster, Turia, Grey Aura, Verwoed, Nusquama e Doodswens (e não digo mais porque a verdade é que a lista continua de forma surpreendente). Grande parte desta força criativa gravita em torno da região de Utrecht e Guéldria mas a verdade é que a cena se expande até ao limiar das fronteiras. Iskandr, um dos projetos mais inequivocamente naturistas do panorama (probabilidade de partilharem membros com uma bandas acima mencionadas é altíssima), vem agora ocupar o seu lugar no holofote com um dos discos mais memoráveis e bem conseguidos de black atmosférico do ano. Vergezicht é uma genuína viagem pelos idílicos elementos. Terra, ar, fogo, água, tudo em expansão imersiva ao longo destas seis faixas que muito bem-vindas seriam a ultrapassar a hora e meia, duas horas, três horas de caminhada. Companhia para dias cinzentos, de chuva, vento e muito frio? Aqui está esta. - JMA



 

 

astronoid-album-coverKŁYChen (Pagan)


Ainda distantes dos palcos, e ainda mergulhados na anonimidade do desconhecido, os polacos KŁY voltam de forma breve e marcante à luz dos holofotes. Chen é o sucessor ao muito celebrado Wyrzyny (que foi merecedor de uma profunda conversa com a banda a propósito do seu lançamento), e apesar do novo lançamento efetivamente dar continuidade a toda a tonalidade de texturas e estilos a que a banda nos tem vindo a habitar, este é o primeiro e novíssimo capítulo de um díptico. A juntar o útil ao agrádavel, depois de ouvir OUTRO disco de altissima qualidade do trio polaco, é bom saber que já aí vem outro a caminho. Como anteriormente dito, Chen continua o percurso de loucura da banda. Pincelam-se grandes panoramas de climas gélidos e com imensa luz. A abraçar intervenções uma extrema beleza, com melodias, pequenas danças de cordas, diálogos de vozes e uma approach bem mais despida e sincera que nos seus antecessores, fica cada vez mais difícil ignorar o destemido génio que ruge por trás destas três forças criativas. - JMA



 

 

Beirut-GallipoliLittle Simz - Sometimes (Age101/AWAL)


O quarto álbum da rapper inglesa Little Simz, Sometimes I Might Be Introvert, é a aceitação de que esta chegou ao patamar da atmosfera pública e da grandeza no meio musical e, em contraste, é também a sua procura por validação se esta sequer a desejar). “Introvert”, como a mesma se define, é faixa introdutória a este trabalho, que com um opener de orquestra dramático magistral salienta ainda mais esta dualidade entre a persona entertainer e como a pessoa que Simbiatu "Simbi" Ajikawo, ou Little Simz, se sente. Os instrumentais estão mais ricos em R&B, soul e jazz, e são preenchidos pelas letras sempre intensas e características da artista, que busca por novas formas de expressar os níveis mais profundos da alma. Neste álbum, a rapper toca em temas como a sua relação conturbada com o pai ausente em “I Love You, I Hate You”, a dureza e beleza de ser mulher em “Woman”, a sua reprovação a mundo de pedestais em “Standing Ovation” e as suas inseguranças e frustrações em “Rollin’ Stone”. Se “Grey Scale” colocou Little Simz no radar dos rappers a ter em atenção, “Sometimes I Might Be Introvert” é a consolidação da sua criatividade e performance teatral. É também a prova de que esta manterá a sua verdade para o que há de vir. - CN



 

 

astronoid-album-coverLowHey What (Sub Pop)


E eis que nos chega uma das mais formidáveis, criativas e marcantes obras dos Low - já a décima terceira na carreira do duo formado por Alan Sparhawk e Mimi Parker, veteranos que conseguem surpreender mesmo aqueles que já esperam ser surpreendidos. Em muitos aspetos, Hey What é a continuação lógica dos caminhos mais avant-garde explorados no anterior Double Negative, vivendo de canções que nascem do dedilhar de Alan na guitarra para se transformarem em soberbas peças futuristas quando abraçam as possibilidades infinitas do estúdio. Nesse sentido, urge mencionar o papel precioso do produtor BJ Burton (que trabalhou anteriormente com Bon Iver, Charli XCX e os próprios Low), já que foi ele quem ajudou a decorar estas composições com múltiplas camadas de efeitos e manipulações digitais, modernizando-as e dando-lhes um caráter alienígena incrivelmente potente, ao ponto de todo o disco soar como se tivesse sido concebido num planeta distante. A repetição de sons minimalistas, que ora começam ou terminam diferentes faixas, enfatiza ainda mais a atmosfera inebriante que aqui se respira, e o resultado é algo inclassificável, transversal a géneros, e absolutamente genial, que mesmo imbuído de texturas eletrónicas nunca deixa de soar profundamente humano. - JA



 

 

Fange-PunirMilitarie Gun - All Roads Lead To The Gun II (Convulse)


Militarie Gun pode ter começado como um projeto secundário de Ian Shelton, mais conhecido como vocalista dos Regional Justice Center, mas à medida que mais entradas se vão aglomerando debaixo do nome da banda, cada uma delas progressivamente mais refinada que a anterior, começamos a desvendar o potencial para algo de maior dimensão. Com All Roads Lead To The Gun II, o mais recente dos 3 EPs que a banda divulgou num período de tempo que perfaz agora um ciclo anual, o quinteto californiano surpreende uma vez mais, com 4 faixas que, embora passageiras, propõem um nível de qualidade mais que suficiente para deixarem os nossos ouvidos a ansiar por mais. Destaca-se assim a convicção forte numa mistura de punk e hardcore old school, fermentados com uma mão cheia de secções musicais calorosas, entrelaçadas com uma lírica lacerante que sustenta uma fonética irregular e traiçoeira. E não nos esqueçamos ainda das influências pop que, por muito que se tentem esconder debaixo das suas contrapartes mais vigorosas, não tem como não se fazer sentir em dadas ocasiões. - JG



 

 

Fange-PunirMonoPilgrimage of the Soul (Pelagic)


Com 22 anos de frutífera existência – repletos de uma respeitável discografia que os imortalizara como uma das mais marcantes referências dentro do universo post-rock – os Mono atingiram o pináculo da sua maturidade musical, e têm neste seu novo registo aquele que é muito provavelmente o meu trabalho favorito da banda. De âncora recolhida e velas içadas ao sabor de um emotivo, cinematográfico, reflexivo e melancólico post-rock de natureza instrumental e beleza orquestral, Pilgrimage of the Soul navega pelas pacíficas águas de um interminável oceano vigiado e farolizado pela noite cósmica. De olhar enfeitiçado e embrumado por uma inquebrável expressão sonhadora, um sorriso genuíno que nos incha e ruboriza as bochechas, e ainda uma inextinguível sensação de plena ataraxia que nos massaja e prazenteia o espírito sedento por experienciar algo assim, somos magnetizados, embebidos, comovidos e canonizados pelo nirvana celestial que alvorece toda a extensão deste mirífico álbum. Este é um maravilhoso registo – de aura esperançosa, catártica e miraculosa – que perpetua o ouvinte num sedativo estádio de profunda introspecção. – NT
(Lê a review completa a este disco no blog El Coyote)



 

 

Fange-PunirRedemptus  -  Blackhearted (Raging Planet)


Mítico símbolo da nossa querida cena nacional/portuense, Redemptus brindam um ano de altos e baixos com um disco de altíssimo calibre: Blackhearted. Abrangido como sinceros desabafos em forma de cadência, são inúmeros os momentos em que a banda consegue usar o peso de um mundo inteiro para navegar pelas vagarosas lutas que nos surgem no dia-a-dia. Sente-se a descarga, sente-se a energia da música que pulsa como um ser orgânico, com sentido e consciência, e este pede para que se continue a caminhar em frente, custe o que custar. Sem grandes rodeios, nem grandes merdas, Blackhearted é um honesto reflexo daquilo que a banda é e representa, e além disso, é também cerca de dez faixas, e aproximadamente uma hora de música, que trazem à costa todo um momento de brilhante inspiração por parte do trio do Porto. Havendo esquecimento das muitas coisas boas que se fazem por cá, ao mesmo nível (senão superior) do que se faz lá fora, não há que procurar mais. A resposta é esta. - JMA



 

 

astronoid-album-coverSarah Davachi - Antiphonals (Late Music)


De Sarah Davachi, compositora e multi-instrumentalista renomeada pela sua hábil manipulação de sintetizadores modulares e analógicos em prol de experiências altamente imersivas, chega-nos agora um novo e hipnótico excerto que faz um apelo à senciência interior do ser. Concebido, executado e produzido na íntegra pela artista canadiense, Antiphonals desvenda-se como um ensaio sobre uma conjetura sónica particularmente regida por texturas macias e leves em repetição constante, entre as quais se fazem surgir ténues flutuações atmosféricas quase indiscerníveis ao ouvido que não lhes consagre a devida atenção. Confere-se uma espécie de sonoridade imóvel, uma sensação de inquietação que prevalece mesmo apesar da pacífica serenidade que aparentemente se manifesta. Enigmaticamente, encontramos aqui um esqueleto destituído de tudo aquilo que a sua mentora considere supérfluo, mas mesmo na sua descomplicação e passibilidade, Antiphonals é dotado de uma capacidade fenomenal para encher por completo os sentidos e a mente de quem à sua porta bate. À imagem de um sonho lúcido, nada mais se pode fazer do que escutar minuciosamente cada movimento, cada rotina e cada variação. Sente-se uma pessoalidade não tão facilmente observada em projetos passados. Reflete-se antes, por falta de melhores palavras, o incómodo saudável de sermos deixados a sós com os nossos pensamentos e interpretações, sendo que estes, porquanto dessa sua própria intransponibilidade interpessoal, urgem por uma experimentação sónica mais íntima que nunca. - JG



 

 

Beirut-GallipoliScolari - Mata Mata (Favela)


SCOLARI  é o resultado da união entre Aires, António M. Silva (mais conhecido pelo seu alter ego Sal Grosso) e Luís Vicente no trompete. O trio já se tinha apresentado ao mundo com um split lançado pela holandesa Faux Amis, mas é com esta estreia numa casa a que podem chamar lar (haverá melhor editora para um  projeto tão marado quanto este que um coletivo de artistas igualmente disruptivo e vanguardista?) que melhor constroem a sua amálgama sonora, sedutor mundo onde o noise e o drone se cruzam com o free jazz para juntos caminharem de mãos dadas. A atração é intensa e imediata: basta ouvir aqueles segundos iniciais de “Murtosa” - cacofonia de ruídos agonizantes que parecem saídos de uma cave medonha -, para ficarmos logo rendidos, sobretudo quando, pouco tempo depois, a construção maquinal dialoga com um trompete quente e expressivo, que tanto parece existir isolado de tudo o resto, como comunica eficazmente com a densidade da componente eletrónica, como se ambos fossem um só. O que se segue forma uma estupenda viagem musical, por vezes com tons atmosféricos e luminosos (“Ever Grande” é um ambient jazzístico irresistível), noutras ocasiões incrivelmente insólita, mas sempre livre, vibrante e imprevisível. - JA



 

 

Boy-Harsher-CarefulSex Magick Wizards - Your Bliss My Joy (Rune Grammofon)


A par do que testemunhara no seu primeiro trabalho, este novo álbum dos noruegueses é norteado por um elegante, virtuoso e fascinante avant-garde jazz condimentado a enfeitiçante experimentalismo – que ocasionalmente se ramifica num selvático, complexo e esquizofrénico free jazz onde todos os instrumentos correm perdidamente em direcções opostas, e num exótico, cerebral e afrodisíaco jazz fusion de opulentas composições – aliado a um intrigante, sinuoso e magnetizante progressive rock de tintura psicadélica e inspiração setentista. A profética, estética e alucinante sonoridade – de técnica apurada, instrumentos dialogantes e temperamento bipolarizado – pintada a cores dissonantes e redigida a linhas tortas por estes talentosos académicos jazz freaks combina todo um excêntrico e enlouquecedor descarrilamento de sofisticação matemática que nos inunda e embrulha as conexões cerebrais, com um melódico e libertador deslumbramento de sublimidade seráfica que nos adormece e embevece o espírito. Conseguem imaginar toda uma colorida, texturizada e carnavalesca orgia entre Miles Davis, John Coltrane, Ornette Coleman, Peter Brötzmann, Django Reinhardt, King Crimson, Colosseum e Mahavishnu Orchestra? Se sim, acabam de alcançar os admiráveis territórios de Sex Magick Wizards. - NT
(Lê a review completa a este disco no blog El Coyote)



 

 

Beirut-GallipoliSpiritbox - Eternal Blue (Rise/Pale Chord)


Para quem ainda geme de saudades por Iwrestledabearonce, Spiritbox é a solução, não fossem Mike Stringer e Courtney LaPlante antigos membros do agora extinto conjunto norte-americano. Em Eternal Blue, primeiro álbum de estúdio do grupo, ouvimos o materializar daquilo que já se prometia brutal em singles e EPs anteriores. Com um cariz muito progressivo, grandes build-ups, recheado tanto de voz limpa com growl, o disco é um “escancarar da porta da frente aos tiros”, sem falinhas mansas nem licenças. Venham mais! - PS



 

 

Boy-Harsher-CarefulSuccumb - XXI (The Flenser)


É certo que a estreia em nome próprio deste quarteto de San Franciso pode não ter convencido todo e qualquer verdadeiro adepto de death metal, mas quer queiramos quer não, Succumb abriu caminho para a dominação total. O sucessor deste surge sob o nome de XXI e pega em tudo o que era desespero, caótico e sufocante da estreia, e multiplica tudo por 100. A produção está melhor, com uma entrega igualmente completa e pré-historicamente primal, e as ideias surgem com uma diversidade bem mais ampla e apelativa. Tão rápido se mobiliza de secções de arrastamento, à escavação de power chords, como se instaura numa caverna de dissonância despida de luz. XXI é malévolo, fulo e rasna com uma fome insaciável. Inquestionavelmente um disco difícil de largar. - JMA



 

 

Beirut-GallipoliSufjan Stevens & Angelo De Augustine - A Beginner's Mind (Asthmatic Kitty)


Uma colaboração que, caso tivéssemos suposto antes, tornar-se-ia felizmente previsível. As semelhanças artísticas entre o camaleão excêntrico Sufjan Stevens e o angelical Angelo de Augustine trouxeram uma fluidez melosa à sonoridade de um disco onde, postas em sobreposição, se identificam bem as singularidades na abordagem de composição que os distingue, e onde, manifestamente, a cunhagem de Stevens sobressai. Há um toque de "Carrie & Lowell" na presença do acústico e na intimidade que se vê criada quer pela elevação do piano ou pela proximidade dos vocais - e até mesmo nos finais sem polimento que aqui também aparecem ocasionalmente. Se procurarmos por um tema em A Beginner’s Mind, não nos parecerá que exista. As faixas foram fruto de sessões de cinema entre ambos, fazendo com que tanto a lírica como o ambiente de cada música se alinhem no abstrato do charme cinematográfico. E é sobretudo pela cinematografia deste disco que nos vemos atraídos. O delay gracioso das guitarras ou os embelezamentos de sintetizador embala-nos até ao fim de um sonho harmónico que é o mundo de A Beginner’s Mind, um disco carismático que vê o mundo a cor de rosa. -  BF



 

 

Boy-Harsher-CarefulThe Troops of Doom - The Absence Of Light (Repulsive Echo)


The Troops of Doom - The Absence Of Light (Repulsive Echo)
Depois da estreia com o EP The Rise of Heresy, os The Troops of Doom - novo projeto de Jairo Guedz, ex-guitarrista dos Sepultura nos seminais Bestial Devastation e Morbid Visions - regressam com mais uma amostra do seu death metal old school, super fiel ao espírito  da época dourada que foram os anos 80. Nesse sentido, só podemos imaginar o quão graficamente para Jairo deve ter sido colaborar com Jeff Becerra, vocalista dos míticos Possessed, numa das faixas deste EP - autêntico sonho de adolescente tornado realidade, convenhamos. A própria malha, bem na onda do eterno clássico Seven Churches, é possivelmente a mais memorável das duas inéditas aqui presentes (ao qual se junta uma intro orquestral), alternando entre passagens mais acústicas e melódicas e uma implacável descarga de riffs. Temos ainda uma cover da "velhinha" “Antichrist”, que Jairo em tempos gravou com os Sepultura, e que se revela verdadeiramente explosiva no modo como  mantém a paixão agressiva do original ao mesmo tempo que lhe acrescenta um toque moderno. Resumindo, metal da velha guarda feito com classe e amor à camisola. - JA



 

 

Beirut-GallipoliVerbian - Irrupção (Antigony)


Sejamos francos, se vocês ainda não conhecem os Verbian, então começamos muito mal a conversa. No entanto, nem tudo é mau, pois em setembro o mundo pôde ouvir o mais recente disco do portentoso trio do Porto, Irrupção. Gravado e misturado por… sim, esse mesmo senhor, mais uma vez André Gonçalves da Adrift Studios, e a contar também com uma masterização do mestre Brad Boatright aka Audiosiege, o resultado, extremamente bem conseguido, liberta-se e expande-se com uma passada larga e inequívoca. Sem qualquer momento aborrecido, seja com imponentes power chords que puxam por qualquer reação, ou a recorrer ao uso de sintetizadores para dar cor e forma, bem como as inesperadas mudanças de tempo e matriz, o disco simplesmente não desilude na entrega. A canalizar energias que tanto levam o ouvinte a lembrar-se de Intronaut, como de Kowloon Walled City ou até mesmo Rise and Fall, vulnerável e aberto, o som consegue ser pessoal sem sacrificar energia e solidez. Que portento! - JMA



 

 

Boy-Harsher-CarefulZack Oakley - Badlands (Kommune)


Contando com a importante colaboração de um populoso bando composto por habilidosos músicos amigos – caras bem conhecidas de consagradas bandas locais, tais como Psicomagia, Harsh Toke, Ocelot, Volcano e Red Wizard – o talentoso multi-instrumentista Zack Oakley tem em ‘Badlands’ um sumarento cocktail sonoro, colorido, apaladado e gaseificado por um vistoso, serpenteante, cativante e libidinoso blues rock de balanço Boogie, aroma a Tex-Mex e roupagem setentista, um electrizante, fogoso, lustroso e delirante Psychedelic Rock de elevada toxicidade, estética revivalista e clima West Coast, e ainda um arejado, reflexivo, lenitivo e ensolarado psychedelic folk de adornada moldura Western e uma doce fragrância primaveril. A sua sonoridade verdadeiramente apaixonante, afrodisíaca e contagiante – sintonizada na mesma frequência de clássicas referências como ZZ Top, Eagles, James Gang, The Allman Brothers Band, Lynyrd Skynyrd, Black Oak Arkansas, Cactus, Humble Pie, The Outlaws e Foghat – embarca o ouvinte numa transformadora road trip pelas poeirentas estradas que estriam o deserto do Arizona rumo ao México. – NT
(Lê a review completa a este disco no blog El Coyote)




Artigo escrito por: Beatriz Fontes (BF), Catarina Nascimento (CN), João “Mislow” Almeida (JMA), Jorge Alves (JA), José Garcia (JG), Nuno Teixeira (NT) e Pedro Sarmento (PS).
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