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Mucho Flow 2021 [5-6Nov2021] Texto + Fotos

21 de Novembro, 2021 ReportagensJosé Garcia

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Obsidian Kingdom + Gaerea - RCA Club, Lisboa [13Nov2021] Foto-reportagem
Com muito frio a pairar por entre as ruas e calçadas vimaranenses naquele que foi o primeiro fim-de-semana de novembro, o que não houve foi falta de gente à procura de aquecer o corpo do jeito mais vibrante e animado possível. Felizmente, na cidade berço portuguesa, tal busca não se deu a muitas demoras, cortesia de um dos festivais mais únicos em espaço nacional. Falamos, claro, do Mucho Flow, festival de poucas ortodoxias, perito no reconhecimento de nomes e artistas repletos de talento, mas que sofrem, contudo, de uma injusta propensão para voar abaixo dos radares das maiorias. Mas lá porque se reúne um grande esforço em prol da emancipação de artistas independentes, que não se deixem cair na tentação de assumir que não passam cá nomes do mais alto gabarito. Basta retroceder à edição de 2019 e relembrar os concertos de Iceage ou Amnesia Scanner, entre outros, para que se constate de imediato que a qualidade, publicamente reconhecida ou não, não é um fator que se coloca em jogo aqui. 

À imagem do que tem sucedido nas edições mais recentes, o evento foi repartido sobre três palcos, todos eles em locais distintos, mas nunca tão distantes. Tudo se principia na Black Box do CIAJG – Centro Internacional das Artes José de Guimarães, mas à medida que o ambiente noturno começa a fazer-se sentir, migra-se até ao CCVF – Centro Cultural de Vila Flor. A noite acaba indispensavelmente no Teatro de São Mamede (ou São Mamede CAE para quem preferir), que se pode, perante uma audiência bem mais consistente que nos palcos anteriores, assumir como um palco principal, apesar de tais denominações surtirem pouco efeito no espetro de imparcialidade do Mucho Flow.

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Onde em cartazes passados havia uma forte aposta na diversidade de géneros e identidades sonoras, de envergaduras que se estendiam do post-punk e grindcore até ao hip-hop e eletrónica – essencialmente um pouco de tudo para todos –, o alinhamento do ano corrente corou perante uma predominância de artista inseridos no panorama eletrónico. 

Por coincidente, o primeiro dia de concertos foi principiado por uma das poucas exceções. Instaurou-se assim esta oitava reiteração do festival ao som dos Chão Maior, com uma série de construções abstratas baseadas em jazz e completamente desfeitas de quaisquer formalidades. A atenção do público mostrou-se indivisível perante as composições bizarramente cativantes e imprevisíveis que se iam desvendando através de um conjunto das mais variadas texturas experimentalistas. Fazia-se silêncio completo sob a tensão palpável do jazz eclético e em todos os sentidos desformatado do sexteto português. Space Afrika arrancou pouco depois, com uma plateia desde logo mais preenchida mas algo estática. Foi, no entanto, um arranque atribulado, com o surgimento ocasional de problemas técnicos de índole visual e sonora. Mesmo assim, a soundtrack hipnótica e desacelerada do mais recente contributo eletrónico do duo de Manchester, Honest Labour, perseverou face à adversidade, ainda que se tenha perdido alguma da sua latente imersão no processo. 

Só com a chegada da terceira performance da noite é que se desencarcerou alguma da tensão corporal que se tinha vindo a acumular. Com a sala já bem carregada de ouvidos prontos a experienciar uma das colaborações mais desejadas nesta edição, entra a dupla Croatian Amor & Varg2™ com um set que, embora bem mais curto do que o desejável, sempre manteve a qualidade no topo das escalas. Com uma combinação perfeita de melodias cristalinas e flutuantes que iam paciente e inevitavelmente levando a um build-up emocionalmente explosivo, a casa não teve como não contorcer o corpo em sinal de aprovação. Após uma curta pausa, orientam-se as multidões ao Teatro de São Mamede para vivenciar o que de melhor a cena palestiniana tem para nos oferecer. Foi Muqata’a, com a apresentação do seu mais recente disco Kamil Manqus, que tratou de ilustrar um universo de fragilidades eletrónicas, onde tanto a sua intensidade desapercebida como os ligeiros tons ominosos que a subjazem se aliaram a uma linhagem de tendências glitch e breakbeat que facilmente se alinharam com as expetativas da plateia. 

O melhor da noite ainda estava por vir. De casa praticamente cheia, e com o seu terceiro álbum Reflection prontíssimo para rodar, Loraine James suscitou a imediata gesticulação dos músculos mesmo às personalidades mais estatuárias que batiam o pezinho de esgueira. Houvessem termómetros no recinto e confirmar-se-ia logo que foi sem dúvida o set mais aquecido deste primeiro dia. Repleta de batidas pós-drill e grime, frenético e sem pausas aparentes, a execução da artista britânica foi finalmente sequenciada por Arrogance Arrogance, que fechou a noite de sexta-feira num tom que aparentava ser mais afável preliminarmente. No entanto, enganado estava quem pensou que as portas se iam fechar sem medidas bruscas. Aquecidos os motores, rapidamente se dissipou a marcha lenta inicial que progrediu posteriormente para uma pista de dança de ghetto house para as almas mais incansáveis.

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Decorria ainda a tarde solarenga, mas álgida de sábado quando se retomou a fileira de concertos em espera para o segundo dia de festival, desta vez com Ricardo Martins, baterista dos Chão Maior, a deixar o público, este pacientemente sentado na sala que o envolvia, de cabeça inclinada com a sua exibição esotérica de detalhes percussivos executados numa complexidade virtuosa e que reuniram pelo final uma salva de palmas mais que merecida. Dentro de momentos subia Anna B Savage ao estrado de onde, com a sua voz aconchegante, poderosa e teatral – ou como a própria se descreveu, “uma moça pequena, mas com grandes pulmões” –, acompanhada pela sua guitarra elétrica, providenciaria uma seleção de faixas sentidas, emocionais e íntimas. Destaque ainda para a dupla Fura Olhos com um exercício acerca da sobreposição e modificação digital da voz humana e que foi digno de uma casa bem populada que se embalava ao som das suas ambientações.

Por esta altura, aproximava-se uma parcela de atuações daí em diante puramente eletrónicas, como se fez comprovar com a programação de sons sintéticos e metalizados diversos albergados por Lorenzo Senni. Nas suas conjeturas dance/eletrónica, através das quais o próprio transmitia uma energia inesgotável que não se escapuliu por entre os demais presentes, avistou-se um jogo de cintura que ia desde a conceção de build-ups extravagantes à manipulação de expetativas. Para surpresa de absolutamente ninguém, Giant Swan, sem dúvida um dos nomes mais aguardados nesta edição, até fez fila à porta do São Mamede CAE. Foi uma performance de pé no acelerador de início ao fim, a devastar por completo as forças de uma audiência dominada pelas pulsações punk meets progressive club do duo de Bristol. Da catarse corporal às vociferações ecoantes e distorcidas que do alto se faziam soar, tudo apontou para um dos melhores, senão o melhor momento de sábado.  

Lee Gamble tomou o lugar de Slikback, que por razões desconhecidas não pôde comparecer. No entanto, o que é mais que conhecido, e que se pode aqui reiterar, é que o DJ set do dito substituto não só cobriu por quaisquer potenciais perdas, mas meteu uma sala presumidamente exausta num novo saracoteamento. E claro, para fechar as cerimónias não podia faltar o mais que residente DJ Lynce, que tem sido para o Mucho Flow o que os Shellac tem sido para o Primavera Sound. Para quem ainda urgia por abanar o couro até ao momento da derradeira despedida, era agora ou nunca. 

E assim se fechou a oitava entrada do evento sediado em Guimarães, que embora algo carente de um cartaz mais dissemelhante, sobretudo com o reduzido número de atuações, não careceu, contudo, de artistas de categoria. Em termos audíveis, não se nega que a preponderância da eletrónica entorpeceu, em maior ou menor escala dependendo do indivíduo que se questiona, o flow do festival, mas ser-se-ia injusto se, perante todas as dificuldades e obstáculos que se tem atravessado no caminho da indústria musical recentemente, se acusasse o Mucho Flow de não ter proporcionado uma experiência singular e memorável dentro do que as circunstâncias lho facultaram. No final de contas, não faltou nem boa música, nem quem a ansiasse ouvir, nem espaços que a fizessem ouvir em alto e bom som, portanto, que mais se pode pedir?

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