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Paul Jacobs – Galeria Zé dos Bois, Lisboa [16Nov]

A uma sexta feira de inverno cerrado, Lisboa aparenta não perder qualquer tipo de oferta no que toca a destinos musicais. A Galeria Zé Dos Bóis demarcou-se, no entanto, como o local de passagem obrigatório para uma noite de ode ao garage/punk, e tendo em conta os soslaios de psychedelic, isto não é algo que se queira perder sob ânimo leve. Ainda por mais com os portuenses Fugly a abrir as hostes, para uma estreia absoluta de Paul Jacobs em território nacional.

Foi desde o início, que a presença de Fugly se mostrou contagiante e em constante débito de energia caótica. Um autêntico tornado com atitude punk, sem esquecer o piscar de olho ao garage e surf, bem de acordo com as temáticas do último álbum. É notória a demarcação de um ritmo frenético, com paragens entre temas praticamente inexistentes, e uma postura frontal sem merdas. O som com que nos presenteiam, é coeso, demolidor na rapidez, e brindado com uma textura distorcida embebida em fuzz e riffs pungentes. Não tiveram o público louco que mereciam, mas o movimento da multidão foi sempre proporcional ao escalar do concerto. Ninguém ficou indiferente à sua performance, portanto a antecipação a Paul Jacobs ficou pois claro, em boas mãos.

Chegada a hora do canadiano, a hesitação foi nula e a entrega foi instantânea. Seguindo o ritmo estabelecido pelos portugueses, Jacobs em modo maestro (a contar com este estão 7 músicos em palco), dá início ao seu concerto. A projeção da voz ecoa pela sala como um testemunho espectral. Inundado de reverb, o timbre salientou desde o arranque, o teor mais textural e espacial que se avizinhava. A prestação geral foi muito definida pelo papel de todo o conjunto de fundo. Executando pequenas partes que formulam o todo que se ouve, é notória a influência que cada instrumento impõe na construção da fotografia global.

Enquanto o garage é esbatido no punk, o corpo do som assume uma personalidade inconfundívelmente psychedelic, muito graças à presença de drum pads, teclas e efeitos que acompanham a grande banda e Paul. A voz guia e os instrumentos acompanham-na, numa simbiose que se perde numa ambiência impossível de ser anulada. A dinâmica é incansável, a banda vive disso, sempre a alternar entre as variadas influências que compõe a tela em palco. O público entrega-se muito facilmente a esta tecelagem de vários géneros que formam uma escultura sonora hipnótica, que se apega e mantém, como uma massa orgânica. Paul e a banda estão claramente conscientes desta receptividade, notando-se a intencionalidade em criar assim esta viagem colectiva, sem paragens e caracterizada pela diversidade sonora. Uma trip contínua de simbiose entre banda e público. Malhas como “The Basement”, “All I Need” e “Quarter to Eleven” são fortes comprovativos da viagem que apertou a ZdB nestas quase duas horas de festa e movimento.

A noite foi assim garantidamente esquentada e a estreia de Paul Jacobs e da sua trupe em Lisboa foi decididamente notória. Uma experiência digna de repetição quanto antes.

 

Fotografia gentilmente cedida por Luis Sousa.

Por Rafael Oliveira / 28 Novembro, 2018

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