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Arca – KICK ii / KicK iii / kick iiii / kiCK iiiii

Numa altura em que muitos já se ocupam com as listas de melhores do ano, eis que Arca decide baralhar as regras do jogo com o lançamento não de um, nem sequer de dois ou três, mas de quatro novos discos que, no fundo, funcionam como um todo, existindo enquanto peças distintas do mesmo puzzle sonoro.

Comece-se por afirmar o que urge ser dito: estes não são discos fáceis de digerir, são antes peças que desafiam o ouvinte, que o obrigam a mergulhar na complexidade irrequieta e altamente dinâmica de músicas em constante mutação, que respiram vida em modo de celebração frenética e que buscam incansavelmente um estado puro de criatividade desenfreada, vivida de forma intensa e orgânica, abolindo dogmas para instalar a liberdade máxima. Talvez por isso muitos terão dificuldade em encontrar encanto imediato neste conjunto de composições bizarras, que até para alguns ouvidos “treinados” poderão revelar-se exigentes ao início. É deixar que a magia se espalhe, pois a virtude da paciência, aqui, mais do que compensa.

O primeiro volume da coleção, intitulado KICK ii (a distinção entre cada um é feita através da numeração e até de diferentes grafias, o que só enfatiza a sua óbvia ligação conceptual), foi descrito pela própria como uma “desconstrução e reinterpretação do reggaeton” e apresenta-se como um dos trabalhos mais insólitos e simultaneamente diversos da sua carreira, um experimentalismo levado ao mais vertiginoso dos extremos. Basta ouvir a inquietante e fascinante introdução que é “Doña”, onde palavras proferidas de forma robótica, como se de uma hipnose se tratasse, convivem com ruídos fortes que sugerem uma implosão iminente, para não restarem dúvidas de que a viagem vai ser  emocionalmente avassaladora e nada linear.

Já as duas faixas que se seguem, “Prada” e “Rakata”, ilustram a união de Arca ao produtor venezuelano Cardopusher para a primeira de muitas colaborações ao longo do álbum, e o que resulta desse saudável convívio entre dois conterrâneos é algo fabuloso, entre o dançável e o sereno na primeira e a explosão festiva de ritmos latinos na segunda. Em ambas, contudo, Arca surge com as emoções à flor da pele,  como se o refúgio no abraço quente da eletrónica não impedisse que a sua alma permanecesse frágil, por vezes parecendo estar mesmo em carne viva. Esse registo, opulento e possante, acende uma chama que jamais se extingue, seja em composições mais poéticas e atmosféricas como “Luna Llena” ou “Born Yesterday” – grandiosa balada pop composta ao lado da cantora australiana Sia –, seja na celebração calorosa, novamente com sabor latino, de “Tiro” ou na exploração “louca” e sem limites de “Muñecas”, que conta com a participação de Mica Levi. E que tremendo – dir-se-ia mesmo sublime – encontro de almas foi este, uma espantosa colisão de vozes alienígenas, manipulações digitais e sons delicados de piano, num exemplo de como a desconstrução consegue originar algo tão indecifrável quanto inexplicavelmente tocante. Um pouco como acontece na música anterior, a instrumental “Femme”, no qual se vislumbram referências ao trip hop (as batidas remetem para os ambientes soturnos de Mezzanine, dos Massive Attack), mas num formato mais excêntrico e inventivo, inconfundivelmente pessoal.

KICK ii distingue-se, clara e inegavelmente, pelos contrastes sonoros e emocionais que tão bem o enriquecem. No entanto, os restantes também possuem vários momentos de grandeza: KicK iii, por exemplo, abraça o lado selvagem, eufórico e visceral de Arca, nomeadamente aquele que emerge, com a força de um vulcão, nas suas apresentações mais próximas do conceito de DJ Set. Isso está bem evidente no grito de libertação incontrolável e irresistível que se escuta em “Bruja”, a fantástica música de abertura, mas a atmosfera mantém-se sempre caótica e alucinante, como se cada faixa formasse a banda sonora idiossincrática de uma noite idílica, talvez até irreal, na adrenalina utópica da pista de dança. Efetivamente, para quem deseja uma dose de eletrónica pujante, excitante e purificadora, não muito distante do que Arca ofereceu no Primavera Sound, este é seguramente o disco ideal.

Consideravelmente diferente é kick iiii, que constitui um regresso a um tom beatífico, meditativo e de contornos ambient, mas numa onda mais futurista e experimental, entre o angelical e o espacial. Destaca-se “Alien Inside”, memorável colaboração com Shirley Manson, vocalista dos Garbage, onde vestígios da pop eletrónica da seminal banda americana formam um só com a sonoridade (a)típica da nossa anfitriã, e “Esuna”, gravada com Oliver Coates (que já tinha trabalhado com Arca no belíssimo EP Madre, editado em Janeiro) e que se mostra formidável no modo como exibe o lado mais dócil e contemplativo, com um toque etéreo, da talentosa produtora. “Queer”, criada com a presença de outra artista não binária, Planningtorock, atua como uma soberba escultura de eletrónica celestial e psicadélica, afirmando-se, com distinção, como uma das melhores canções que Arca alguma vez escreveu. 

A última das quatro ofertas, talvez a melhor depois de KICK ii, presta maior atenção à beleza introspetiva dos instrumentais, sem descurar, todavia, a presença de elementos vocais, que ocasionalmente recordam a intimidade do disco homónimo de 2017. Uma decisão que pode ser encarada, em determinados aspetos, como um retorno parcial aos dias em que Arca “escondia” a sua voz até a amiga Björk sugerir que estava na altura de a soltar, mas o que é certo é que se tratam de peças doces, altamente sensíveis, cuja vulnerabilidade diz imenso mesmo quando os sentimentos não são verbalizados. 

Aqueles acordes tocantes e vibrantes que invadem “Estrogen” como raios de luz a entrar por uma janela, o piano solitário mas a transbordar de emoção na lindíssima “Ether”, ou o techno sonhador, em plena exploração transcendente e a tentar agarrar o infinito, de “Amrep” comunicam uma panóplia de sensações que a linguagem universal da música permite perfeitamente entender. Tão claramente, aliás, quanto o canto bucólico, a evocar as tonadas caraterísticas da Venezuela natal de Arca, nas magnificamente interpretadas “Tierno” e “Músculos”.

De certa forma, cada um destes volumes funciona como um fiel resumo das várias facetas criativas de Alejandra Ghersi, sendo que tal exercício de consolidação identitária merece ser louvado pela sua ambição. Sim, nem tudo é absolutamente perfeito e a escuta na íntegra proporciona uma experiência tão gratificante quanto ligeiramente exaustiva, mas são poucos os artistas com o mesmo nível épico de inspiração infindável. Inspiração e, claro, abertura de espírito para acolher a transformação como parte integrante do seu ser. “A mutant faith”, ouve-se em várias alturas da “jornada”, e faz todo o sentido: na metamorfose sonora reside a chave para a renovação espiritual.

Por Jorge Alves / 23 Dezembro, 2021

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