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ATILLLA – V

É na quarta faixa de V que António Costa (Ermo) através de gritos apaixonados questiona: “Se eu nunca for ninguém, quem o foi? O que será?”, “Se nada faz sentido?”, “Se amor não é amar?”, “E se eu não amar ninguém?”, pedindo ajuda a alguém, qualquer pessoa que seja. Seja homem, seja a sua mãe, o seu pai, Jeová, Deus ou Satanás, as perguntas permanecem e procuram respostas. É todo um desesperante conceito de problemáticas, dúvidas e questões existenciais que fornece vida ao organismo de sombras que é o novo álbum do produtor ATILLLA.

Miguel Béco de Almeida assume-se como um guardião que luta pelo significado da sua existência, e V é nada mais nada menos que a sua jornada. V é uma crescente e lúgubre catástrofe sônica: é constantemente pintada a imagem mental de um Miguel a escapar à morte através da filosofia, a tirar a corda do pescoço em ordem de caminhar de sombra ausente e com mil questões em mente, todas elas relacionadas com o sentido da sua existência.

Ouvir V é caminhar de pés escorregadios na corda que separa a vida da morte e arriscar-se a cair, mas com o objectivo de conseguir chegar ao destino desejado que é a resposta a todas as interrogações pendentes. É como ser sequestrado por alienígenas e sucessivamente enviado para uma dimensão paralela onde todo um cenário pós-apocalíptico predomina e onde os prédios, as infra-estruturas, o céu, os pavimentos, os objetos e toda a restante matéria assume um tom de cinzento, e nesta dimensão é o ouvinte a única pessoa residente.

Terminar uma escuta a V é voltar ao planeta azul onde se pertence. Um alívio toma a sua gênese no coração apavorado do ouvinte e espalha-se no interior do mesmo, mas o corpo sente falta de toda a adrenalina que experienciou numa dimensão perdida e preservada no cofre que é a sua inexistência. O corpo já não emite sombra quando iluminado pelo resplandecente sol. O coração já não pulsa e a mente já não pensa em nada que não seja a imagem do cinzento que cobria toda a cidade ficcional. A desintegração do ser humano é real: jamais viverá o ouvinte da mesma maneira e jamais será o ouvinte a mesma pessoa.

Tu não existes e nada disto aconteceu.

Por Rafael Trindade / 16 Fevereiro, 2015

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Rafael, músico (bateria, vibrafone, marimba, glockenspiel, órgão, guitarra, etc...). Coleccionador ávido de CD's, vinis e outras tantas coisas relacionadas com música.

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