wav@wavmagazine.net | 2014 | PT
a
WAV

Kendrick Lamar – To Pimp A Butterfly

“I remember you was conflicted, misusing your influence”

Ser cidadão. O que é ser cidadão? De acordo com o significado terminológico e tradicional de “cidadania”, é ter direito à vida, à liberdade, à igualdade perante a lei; resumidamente, é ter direitos civis como educação, trabalho justo, saúde e um futuro tranquilo. Como exercemos a nossa cidadania? Muitas pessoas responderiam a esta pergunta dizendo o seguinte: “Atingindo a maioria de idade, sendo esta condição necessária para votar (ou ser votado), conduzir, beber legalmente e para trabalhar”. Contudo, eu assumo o “ser cidadão” como ser dotado de razão, igual e livre. O bem mais precioso que temos é a nossa capacidade de escolha, é isso que nos torna seres racionais. Defendo que não somos obrigados a agir de certo modo porque o mundo nos obriga a assim proceder, mas sim que somos modificadores da maneira como o mundo age para connosco. Ainda assim, vivemos num mundo em que inúmeros cidadãos designam o passado como um período de plena blasfémia e de desigualdade entre os habitantes do mundo. Vivemos num mundo onde infelizmente ainda vigora a escravatura, o tráfico de seres humanos, a guerra, a fome, a pobreza, a opressão, a discriminação, a xenofobia e o racismo. É o mundo ainda um sítio onde a desigualdade entre cidadãos reina? O que é, então, ser cidadão nos dias que hoje correm?

Em good kid, m.A.A.d. city, Kendrick Lamar contou detalhada e cinematograficamente a sua história enquanto cidadão de Compton, através de retratos literários vívidos e de pinturas intensas, ilustradoras do rumo saibroso que a vida de Kendrick tomou enquanto este era apenas um puto oriundo de uma cidade de altos níveis de criminalidade e desemprego. Em GKMC, Kendrick abordou variadíssimos aspetos que moldaram a pessoa que é hoje: a fé em Deus, o amor pela sua família, a influência que a pressão de pares pode exercer sob um adolescente comum, as paixonetas que provêm dessa mesma adolescência, e sobretudo o espírito de sobrevivência que deve provir do interior de cada um de nós. Kendrick Lamar concedeu um novo apogeu a todo um género de diversas figuras icónicas e pontos de viragem extremos. Tanto foi o impacto de Lamar com o seu segundo disco de estúdio que em dois anos se tornou o ponta de lança da indústria do hip-hop. Tanta foi a celebração e a opulência atribuídas a good kid, m.A.A.d. city, que ninguém esperava que Lamar conseguisse recriar toda a magia de novo.

To Pimp A Butterfly não tem como objetivo recriar a magia do seu disco antecessor, mas sim construir os pilares do seu próprio encanto. Em To Pimp A Butterfly, Kendrick não aborda o seu papel na sociedade enquanto cidadão: exerce-o ao pintar sem remorsos, não a rua em que viveu, mas sim o mundo que hoje o rodeia. Kendrick não criou apenas um disco de música que deve ser considerado como algo de elevado valor estético, mas concebeu uma afirmação absoluta acerca de todas as adversidades que o seu país, os Estados Unidos da América, atravessam neste preciso momento. Mais que isso, Kendrick tem como alvo de acusação o mundo inteiro, demonstrando assim que ainda vivemos, de facto, num mundo a preto e branco.

Kendrick não tenciona relatar todo o sucesso que lhe foi entregue desde o nascimento de good kid, m.A.A.d city, nem sequer se trata To Pimp A Butterfly de explicitar o desejo do rapper de não ser como os fulanos com quem cresceu em Compton. To Pimp A Butterfly foca-se nas injustiças das quais figuras Afro-Americanas como Trayvon Martin e Michael Brown foram vítimas recentemente. Kendrick mostra revolta para com a deseconomia mundial que vigora atualmente, para com o número surpreendente de pessoas que passam fome no mundo de hoje, para com a corrupção e ganância das figuras sociais que governam e regem o mundo que Kendrick Lamar e todos nós habitamos.

“I don’t see Compton, I see something much worse: the land of the landmines, the Hell that’s on Earth“, declara a voz adulterada e deturpada de Kendrick Lamar antes de se suceder o tema mais recheado de fúria e de revolta da carreira de K-Dot. “The Blacker The Berry“ é um dos “raps” mais profundos e criativos que Lamar já cuspiu. É uma obra-prima literária do seu próprio direito, mostrando um Kendrick revoltado para com aqueles que criticam os Afro-Americanos e a sua cultura. “I’m the biggest hypocrite of 2015”, declama Lamar ao assumir, em três versos, três perspetivas: duas idolatram a cultura da raça negra ao venerarem todos os passos que a comunidade teve que tomar em ordem de alcançarem a liberdade e a independência que deveriam ter por direito; a terceira perspetiva critica a hipocrisia da própria comunidade pertencente à raça de Lamar, em linhas como “Why did I weep when Trayvone Martin was in the street/ when gang-banging make me kill a nigga blacker than me/ hypocrite”.

To Pimp A Butterfly é constituído por todo um assalto verbal enfurecido mas poético da parte de Kendrick Lamar. Em “Wesley’s Theory“, Kendrick narra um confronto ideológico entre os “entertainers” de raça negra e os capitalistas americanos (personificados através do fictício Uncle Sam), sendo suportado por harmonias vocais maravilhosas da parte de George Clinton e por uma batida atmosférica da parte do seu amigo Flying Lotus, consistindo esta da qualidade a que FlyLo sempre nos habituou. Em “King Kunta”, K-Dot reflete perante o seu papel na comunidade negra, bem como na sociedade em geral, comparando-se a Kunta Kinte (um escravo negro que viveu durante o século 18) e canalizando o seu James Brown interior em termos sónicos, oprimido como um escravo, dominante como um Rei. Em Institutionalized, o rapper mostra revolta contra os poderes corruptivos da riqueza monetária e para com o número de pessoas que se tornam, por assim dizer, escravos para com a simples ideia de ser rico e de possuir fortuna económica. Em “Hood Politics”, impõe a sua posição contra as convenções sociedades sob as quais nos vemos como seres condicionados e declara uma disputa para com a hipocrisia da sociedade atual, enquanto que em “Complexion“ trata de abolir a diferenciação entre seres humanos proveniente do tom da pele de cada um, constatando do facto de sermos todos cidadão livres e iguais.

Em “These Walls”, Kendrick explora os contrastes entre a sexualidade de cada um, as emoções às quais o ser humano é suscetível. Trabalha introspetivamente sobre si mesmo e explora a alma e a consciência de todo o ser humano. Enquanto que, no autêntico martírio de um ser humano que é Kendrick Lamar, “u” descreve todos os seus pensamentos negativos ao contemplar o suicídio e o término da sua própria vida, encontra esperança através da sobrevivência em “Alright” e destrói toda a conotação negativa adjacente ao termo “nigga” no discurso que encerra “i”, um hino mundial de paz, prosperidade e positivismo, todos provenientes da auto-estima de cada um.

Kendrick Lamar procurou inspiração em várias localizações no âmbito de se procurar e redescobrir espiritualmente a si mesmo. Provenientes desta procura são os vários cenários aos quais Kendrick nos entrega: Voltou a Compton, retratando em “Momma” a viagem através do reconhecimento da sua própria ignorância ao chegar a casa e se sentir mais sábio sempre que visita o seu doce lar. Retrata a sua luta interior diária contra a própria fama que hoje o persegue e ilustra o seu encontro com um mendigo que, na realidade, era Deus, ponderando através deste acontecimento acerca do valor de um vazio pedaço de papel que hoje é o ponto de vigência de um planeta inteiro. Na faixa que dá término a álbum, “Mortal Man”, Kendrick ressuscita mortos num período temporal de 12 minutos. Menciona constantemente o fantasma do icónico Nelson Mandela e ascende aos céus em ordem de ter uma conversa casual de camaradagem com o lendário Tupac, discutindo com ele uma retrospetiva da carreira do falecido rapper e ponderando os dois em conjunto acerca do futuro que aguarda os Estados Unidos da América e o mundo.

Sonicamente falando, os protestos de Kendrick Lamar são justapostos com sons maravilhosos e deliciosos, produzidos elegantemente e sem ponta por onde se lhes pegue no que toca a momentos de destaque. Como o próprio Lamar nos prometeu, reside neste disco uma imensa influência de música funk de levar qualquer um aos densos ambientes que se faziam sentir nos anos 70, bem como uma evidente influência de música free-jazz espontânea e excêntrica, constantemente complementada por linhas de guitarra tropicais e exóticas. Todos estes elementos se juntam ao Rn’B e ao g-funk que Kendrick aglomerou em good kid, m.A.A.d. city e temos uma sonoridade perfeitamente representativa de ambos os hemisférios, East Coast e West Coast. A junção de duas dimensões que em tempos remotos geraram rivalidades entre si, a mensagem subliminar de reconciliação através de música.

Kendrick Lamar é a coisa mais próxima a um profeta que o mundo tem hoje, e To Pimp A Butterfly é a afirmação do rapper enquanto tal. Lamar é um homem consciente da sua própria existência e finidade e um cidadão que não se deixa consumir por todas as substâncias malignas que são naturais constituintes do mundo em que habita. Se perguntássemos a Kendrick Lamar, “o que é ser cidadão nos dias de hoje?”, Kendrick não hesitaria em responder, “é pensar autonomamente, nigga”. Lamar é um homem independente, tal como todos nós devemos ser. Com To Pimp A Butterfly, concebeu o disco de hip-hop que eu sempre quis estar vivo para testemunhar; um clássico moderno, o som de um mundo em ruínas, mas da devida comemoração que deve haver da parte de cada um de nós por estarmos vivos e por ainda residir em nós a soberania e o poder de mudar as coisas. Kendrick é nigga para todos nós como todos nós somos niggas para Kendrick, portanto celebremos. Celebremos a transformação de lagarta enclausurada num casulo para borboleta livre para assim sobrevoar o mundo. Celebremos a vida, a liberdade e a igualdade entre seres humanos. Celebremos o nosso destemido profeta Kendrick Lamar, e sobretudo celebremo-nos a nós mesmos.

“Just because you wore a different gang colour than mine’s, doesn’t mean I can’t respect you as a black man. Forgetting all the pain and hurt we caused each other in these streets. If I respect you, we unify and stop the enemy from killing us.

But I don’t know… I’m no mortal man. Maybe I’m just another nigga. ”

Por Rafael Trindade / 25 Março, 2015

Deixar um comentário

About the author /


Rafael, músico (bateria, vibrafone, marimba, glockenspiel, órgão, guitarra, etc...). Coleccionador ávido de CD's, vinis e outras tantas coisas relacionadas com música.

~