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Ruff Majik – Tårn

Chegam até nós, em 2015, os fuzz-addicts e riff virtuosos Ruff Majik, a besta em crescimento de Johnni Holiday, Ben Manchino e Jimmy Glasse, que continua aos gritos e pontapés, com um novo par de botas em cada álbum.  O núcleo permanece fixo ao nome de maneira característica, com contornos variáveis. E o bebé está cada vez mais gordo.

A The Bear seguiu-se The Fox, em 2016, e, terminando com os títulos inspirados em animais, é lançado The Swan em 2017 – ano que adicionou três EPs à discografia de Ruff Majik: Seasons, com três capítulos lançados nesse ano e o seu capítulo final lançado em 2018. Seasons viria então a tornar-se um LP com a união de todos.

Terminando aqui com a introdução cronológica, este ano os Ruff Majik lançam Tårn. Com menos da acidez enlouquecedora de The Fox e certamente menos diretamente heavy blues como foi The Bear, Tårn é o irmão mais novo impaciente de Seasons, moldado pelo avultar de um som mais áspero.

O título surge após um período de tragédia e tristeza intima que a banda viveu durante o ano de 2018, ano durante o qual este álbum foi gravado. Tårn, que traduzido do norueguês significa “torre”, foi a palavra escolhida com inspiração retirada de cartas de tarot, onde a torre significa a perturbação e a obliteração, assim como os opostos libertação e revolução. Quando se fala apenas em sonoridade, essa nébula de tempos de azia pessoal não é necessariamente clara. Não é um álbum derrotista, sendo ainda mais entusiasmante do que é comovente. Já quando a atenção se desloca para os títulos das músicas e para as letras, é aqui que começamos a descobrir o tom emocional do disco. É mais um momento onde a música serve de espanta-espíritos.

O pacote no seu todo é de um som de estalar a cabeça, insolente, rápido e nítido, tão vulcânico quanto alto e abrasivo. Porque Ruff Majik estão habituados a comparações, vamos evocar mais uma: a estratificação de vozes, por vezes a própria colocação da voz principal, vêm cheirar um pouco à prescrição de Josh Homme. Embora não seja um exemplo isolado, a introdução de “Gloom and Tomb”, com aquela voz grave em cima de uma guitarra isolada, para que logo depois a música abra num momento de all-hell-breaks-loose, parece um dos momentos mais evidentes. Por mais irritante que sejam as quase inevitáveis comparações entre artistas, o que Ruff Majik fazem é uma boa amostra daquilo que é a diferença entre a inspiração e a imitação. Excedem-se neste tópico por escolherem, cautelosamente, excertos da sua biblioteca e soarem a Ruff Majik. As referências estão lá, mas não é um caso de Grécia vs. Roma.

Os riffs e os solos em Tårn são dos abusivamente sujo, a puxar a corda do black metal, com o stoner, o doom, o groove metal, o psicadélico e o sludge juntos na mesma sala – e aqueles pratos espetam-se com toda a força! A saltar de um lado para o outro, a progressão é firme. O choque elétrico do ritmo punk-ish aproxima-se de um remoinho psicadélico cru, a fazer ponte para o doom esfumaçado entregue num andamento ligeiramente mais acelerado ao de melaço a cair de uma colher. O sangue ferve e coalha, a terminar na exaustão infernal de dimensão maciça.

Por Beatriz Fontes / 16 Dezembro, 2019
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