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Shame – Songs of Praise

Vimo-los este ano no Milhões de Festa, cheios de energia e de descontração, dentro e fora da piscina. Os Shame, quinteto inglês de post-punk, foram um dos nossos destaques do festival e servem-nos agora o seu disco de estreia. Como fazem a transposição? Os seus pontos fortes – intensidade e pinta – estão garantidos e os seus pontos fracos, despercebidos ao vivo, tornam-se relevantes.

Songs of Praise vive de uma agitação adolescente, febril. Partilha afinidades com trabalhos como a série Shameless (britânica) e o Trainspotting, ambos se aproximando da rotina do “britânico normal” com toda a crítica social adjacente – conformismo, consumismo, isolamento. Quem nos confronta com estes problemas é Eddie Green, o vocalista. Toda a sua performance tem uma atitude viçosa que nos agarra, quer seja spoken word, cantada ou sussurrada, versos longos ou hooks rápidos. Enquanto letrista, revela sensibilidade em levantar questões que tanto se identificam connosco como, pelo seu excesso, impossibilitam a indiferença. Ao longo do álbum, passamos pelo insólito de “The Lick” (“So in the past week I’ve made several trips to the gynecologist, He was surprised to see me standing there”), a pergunta/resposta de “Concrete”, o tom paroquial de “Friction”, de cinismo fabuloso de “Lampoon”, onde o narrador “congratula” alguém por ter sido frontal com os seus superiores, ridicularizando-o (uma das críticas gerais de Songs of Praise, sintomática do mundo atual, é a nossa necessidade de expressar o que pensamos sem um pingo de ponderação).

Há uma ironia requintada que só não é mais mordaz porque a banda faz um esforço em não se levar totalmente a sério. Por outro lado, são aqui colocadas muitas perguntas, mais do que respostas, numa postura de auto-reflexão da qual o rock se parece ter afastado. Os vários níveis de complexidade das letras e a respectiva delivery fazem destes o melhor do LP.

Virando a atenção para o instrumental, a situação é quase o oposto. Songs of Praise é, em larga medida, um livro de regras do post-punk e indie feito nos últimos anos: a mesma divisão entre guitarras lead/ritmo, os mesmo grooves de bateria, o mesmo delay e reverberação. Musicalmente falando, o álbum é algo monótono e pouco criativo – não é arrojado como outros contemporâneos (Protmoatyr, Ought) nem tem a visceralidade a que outros atos de post- punk nos habituaram (Savages, Iceage, Girl Band).

Há excepções, onde os cinco concentram o seu poder e criam momentos Música + Letra destacados: o outro de “Dust On Trial” (“Closer To me!!”), “The Lick” e “Gold Hole”, provavelmente as melhores malhas e que surgem a meio para cortar as mais esquecíveis “One Rizla” e “Tasteless”. O álbum começa energético com “Dust on Trial” e “Concrete” e termina de forma conveniente com uma balada, “Angie”. É esteticamente coerente mas ondula entre músicas boas e sofríveis, não conseguindo funcionar como um todo.

O interesse de Songs of Praise depende do foco do ouvinte entre o vocalista e o resto da banda. Em suma, merece atenção pelo registo vocal, mas não consegue traduzir a intensidade que a banda mostra ao vivo.

Por Goncalo Tavares / 22 Fevereiro, 2018

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